O que esperar da Marta no retorno à seleção em ano de Copa? 

Marta não é a Rainha do Futebol à toa. Ninguém vira uma majestade como essa do dia para a noite. Há quem diga que lhe falta um título de Copa do Mundo ou Olimpíadas. A atacante nascida em Dois Riachos, Alagoas, bateu na trave por três vezes: foi vice-campeã nos Jogos Olímpicos de 2004 e 2008 e no Mundial de 2007. Ainda assim, convenceu o mundo de que era a melhor jogadora do planeta por seis vezes. Aos 36 anos, a Camisa 10 do Brasil sofreu a lesão mais grave da carreira. Recuperada, Marta voltou a ser convocada para a seleção em pleno ano de Copa do Mundo – mesmo que sem jogar há dez meses.

Seria o caso do ditado “Quem é Rei (ou melhor, Rainha) nunca perde a majestade”? Nesse caso, Marta conta com o crédito construído ao longo de duas décadas na seleção brasileira e, principalmente, com a confiança da técnica Pia Sundhage para estar na lista de convocadas para a She Believes Cup, torneio amistoso em que o Brasil enfrentará Estados Unidos, Japão e Canadá, de 13 a 22 de fevereiro, em solo estadunidense.

Marta rompeu o ligamento cruzado anterior (LCA) do joelho esquerdo em 26 de março de 2022. Era apenas o segundo jogo oficial do Orlando Pride na temporada 2022 da NWSL (liga americana), contra o North Carolina Courage. A lesão é muito frequente no futebol e demanda uma recuperação longa. A craque brasileira passou por cirurgia em 14 de abril e, a partir daquele dia, começou uma corrida contra o tempo para tentar disputar a sexta Copa do Mundo da carreira. Cinco meses depois da operação, a jogadora dizia que tinha plena consciência que só dependia dela para estar de volta à seleção

Na primeira convocação para a seleção brasileira deste ano, na terça-feira (31/01), Pia afirmou: “A Marta está pronta em relação à parte física”. Diante dos exames positivos da atacante, a treinadora ainda ressaltou a característica competitiva da atacante. É óbvio que falta ritmo de jogo. “Ela precisa começar a jogar no Orlando Pride também”, cobrou a técnica do Brasil. Mas Marta tem 169 dias até a Copa do Mundo da Austrália e Nova Zelândia, que será disputada de 20 de julho a 20 de agosto. Como antecipou Pia: “Ela terá chance de jogar novamente no seu nível mais alto”. 

Antes da lesão, Marta estava relacionada para os amistosos contra Espanha e Hungria, realizados em abril do ano passado como preparação para a Copa América. E o motivo de ela ter participado ativamente desse ciclo sob comando de Pia não se restringiu aos feitos do passado. Marta estava entregando em campo. Claro que de uma maneira condizente com a idade e a reta final da carreira. Mas a capitã brasileira foi testada em setores diferentes do campo e sempre se mostrou compromissada com a seleção. Mesmo sem a força física e os arranques que resultaram em lances geniais durante a maior parte da carreira, Marta segue técnica e decisiva. “Ela é como um modelo de jogadora em relação a comportamento, técnica e leitura de jogo”, enaltece Pia.

Elo entre duas gerações

Além da liderança técnica em campo, Marta exerce liderança importante para as novatas. A seleção passou por um processo grande de renovação, principalmente após os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021. Das 23 jogadoras convocadas para a She Believes, 14 não estiveram nas últimas Olimpíadas: as goleiras Lorena e Luciana, as defensoras Bruninha, Tainara, Lauren, Kethellen, Tarciane e Yasmim, as meias Ary e Ana Vitória e as atacantes Adriana, Kerolin, Gabi Nunes e Nycole Raysla. 

Na Copa América de 2022, Rafaelle foi a capitã do título brasileiro e tem sido peça valiosa na liderança desse elenco renovado, ao lado de Tamires e Debinha. Marta, porém, ainda exerce um papel diferencial no elenco comandado pela sueca Pia Sundhage. A atacante estreou com a amarelinha em 2002 e vivenciou, dentro e fora de campo, lutas por melhorias no futebol feminino, com direito a apelos emocionados por maior investimento na modalidade e reivindicações que extrapolam o esporte – ainda que tenha tido que abrir mão de receber patrocínio em plena Copa do Mundo para escancarar a desigualdade de gênero.

Na última Copa do Mundo, em 2019, o apelo se estendeu às companheiras de seleção mais jovens e às gerações futuras do futebol brasileiro: “É isso que peço para as meninas: não vai ter uma Marta, uma Formiga, uma Cristiane para sempre. O futebol feminino depende de vocês. Valorizem mais! (…) A gente tem de chorar no começo para sorrir no fim. Querer mais, se cuidar mais, estar pronta para jogar 90 minutos e mais 30″.

O puxão de orelha dado quatro anos atrás por Marta no Mundial em que se tornou a maior artilheira de todas as Copas – com 17 gols em cinco edições – demonstra preocupação semelhante à da atual técnica da seleção brasileira. “Cada jogadora precisa se cuidar todos os dias, em cada minuto do dia, não apenas quando tiver jogo. Se for uma jogadora profissional, é preciso agir como uma”, declarou Pia nesta semana, durante coletiva de imprensa da convocação para a She Believes. 

O ponto crucial é que Marta é o elo entre as primeiras gerações de luta da seleção feminina e a primeira geração a colher frutos e conquistas no futebol feminino para poderem viver do esporte com uma melhor estrutura, preparação e acompanhamento. “Algumas coisas como as viagens, se olhar a logística, mudaram. Antigamente eu pegava ônibus, agora elas vão de avião e voam com conforto. Hoje, temos mais pessoas no staff, é importante ter treinadores de performance, temos GPS”, comparou Pia.

Marta, que viveu a fase difícil da modalidade e sempre lutou por maior profissionalização, segue sendo um pilar importante na seleção para inspirar as novatas a continuarem acrescentando nessa caminhada. Sob o comando da equipe brasileira, a sueca Pia Sundhage já deixou claro que pretende contar com a atacante na Copa do Mundo da Austrália e Nova Zelândia. Pelo que Marta jogava antes da lesão, a expectativa é que ela retorne à seleção em condições de ainda contribuir tecnicamente dentro de campo, principalmente pela característica decisiva, além de colaborar com sua experiência e liderança também fora das quatro linhas.

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