Entre viagens, bandeiras e novas conexões, histórias de torcedores do Corinthians e do Cruzeiro mostram como a Libertadores Feminina mobiliza paixões dentro e fora de campo
Por: Giselly Corrêa Barata, de Quito
Créditos: Staff Images Woman/CONMEBOL
A dedicação de quem acompanha o futebol feminino nem sempre pode ser medida pela quantidade de pessoas nas arquibancadas, mas também pelas distâncias percorridas, pelos compromissos reorganizados e pela disposição de estar presente mesmo quando o caminho exige mais do que simplesmente comprar um ingresso. Na Libertadores Feminina de 2026, disputada em Quito, no Equador, brasileiros atravessaram fronteiras e encararam a altitude para acompanhar suas equipes, enquanto torcedores equatorianos encontraram nos clubes visitantes motivos para construir novas relações de pertencimento.
Com Corinthians e Cruzeiro classificados para a decisão deste sábado (31), às 21h (de Brasília), a competição terá uma final brasileira e contará com apoio das arquibancadas. De uma cruzeirense que viajou sozinha e chegou ao Equador acreditando na classificação até a decisão a um corintiano que reservou quase metade da mala para bandeiras das jogadoras, a Libertadores também revela o significado de acompanhar uma modalidade que, apesar dos avanços recentes, ainda enfrenta desafios para consolidar suas torcidas e ampliar sua presença nos estádios.
Um ponto azul em Quito: a cruzeirense que acreditou desde o início

Um ponto azul na arquibancada. É assim que, de longe, se pode identificar Natália Simões entre os torcedores que acompanham a Libertadores Feminina em Quito. Médica e fundadora da Desorganizada Cabulosa, torcida dedicada ao futebol feminino do Cruzeiro, a brasileira está no Equador desde o início da competição para acompanhar a primeira participação das Cabulosas no torneio continental e, mesmo sem encontrar outros cruzeirenses nas arquibancadas, fez questão de estar presente em cada etapa dessa campanha histórica.
O atual formato da Libertadores Feminina, que concentra todos os jogos em pouco mais de duas semanas, também impõe dificuldades aos torcedores que desejam acompanhar suas equipes presencialmente. Embora a Conmebol tenha anunciado o Equador como país-sede em 26 de fevereiro, Quito só foi confirmada como cidade anfitriã em 1º de setembro, apenas 44 dias antes do início da competição, em 15 de outubro. O curto intervalo para organizar a viagem, somado à ausência de voos diretos entre o Brasil (em especial, São Paulo e Belo Horizonte) e a capital equatoriana, aos custos de hospedagem e à utilização do dólar como moeda oficial do país, torna a experiência ainda mais desafiadora.
Acostumada a acompanhar a equipe pelo Brasil, Natália decidiu que a estreia internacional do Cruzeiro também faria parte de sua história como torcedora, mesmo depois de uma temporada marcada por dificuldades. Entre lesões no elenco e partidas realizadas longe de Belo Horizonte, com o time mandando jogos em Sete Lagoas, o caminho até a Libertadores esteve longe de ser tranquilo, mas nada disso diminuiu sua confiança na possibilidade de chegar à decisão.
“O Cruzeiro veio em uma temporada muito difícil, temporada ruim em vários sentidos. A gente teve muita lesão, o time jogou longe de casa, a gente estava mandando os jogos em Sete Lagoas. As expectativas para a Libertadores eram muito variadas. As minhas não. As minhas eram isso aqui que a gente está vivendo hoje. Não à toa eu vim com passagem para voltar depois da final”, contou.
Letícia, atacante do Cruzeiro, e Natália (Foto: Staff Images Woman / CONMEBOL)
A passagem de retorno, comprada para o dia seguinte à decisão, revela uma convicção que antecedeu os resultados em campo, embora a própria Natália reconheça que acreditar em uma conquista e testemunhar a construção dessa possibilidade são experiências diferentes. Para ela, há um significado especial no fato de o futebol feminino recolocar o Cruzeiro em uma final continental, escrevendo um capítulo importante na história da instituição.
“Tinha muito tempo que a gente não jogava uma final de Libertadores, o Cruzeiro como instituição. E quis, com os deuses do futebol, que quem colocasse de novo o Cruzeiro na final de Libertadores fosse o feminino. É uma alegria imensa estar aqui para viver essa campanha delas”, afirmou.
A viagem também exigiu escolhas pessoais, já que a esposa, os animais de estimação e os compromissos profissionais ficaram no Brasil enquanto Natália acompanhava a equipe no Equador. Entre chamadas de vídeo para dividir a emoção dos jogos e a expectativa pela decisão, ela reconhece que sua relação com o clube frequentemente a leva a reorganizar a própria rotina.
“Torcedor faz umas loucuras de vez em quando, e que bom que a gente faz. Eu faço nem tão de vez em quando assim, faço com mais frequência do que deveria até. A gente deixa para trás família, os cachorros, gato. A esposa ficou em casa, estava me ligando de vídeo, assistindo ao jogo de casa. O serviço também vai esperar um pouquinho”, brincou.
Natália Simões acompanhou toda a campanha cruzeirense na Libertadores Feminina de 2026 (Foto: Staff Images Woman / CONMEBOL)
Corinthians aproxima brasileiros e equatorianos nas arquibancadas
Se o Cruzeiro encontrou em Natália uma representante solitária nas arquibancadas de Quito, o Corinthians reuniu torcedores brasileiros e equatorianos que, por diferentes caminhos, desenvolveram uma relação de identificação com as Brabas. Entre eles estão Justin e Alejandra, que acompanharam a campanha corintiana ao longo da competição e encontraram no futebol feminino uma oportunidade de fortalecer uma conexão que já existia com o clube brasileiro.
“Somos equatorianos e somos fãs do Corinthians. Estamos seguindo o time durante toda esta fase e estamos felizes de estar na final”, contou Justin, que explicou que a relação de sua família com a equipe também passa pela experiência profissional de sua irmã, que trabalha no hotel em que as Brabas estão hospedadas.
O vínculo dos dois com o Corinthians mostra como a identificação com uma equipe pode ultrapassar fronteiras nacionais e não depende necessariamente de uma tradição familiar construída ao longo de gerações. No caso dos equatorianos, a proximidade com o clube e o reconhecimento do trabalho desenvolvido no futebol feminino contribuíram para transformar a admiração em torcida.
Entre os brasileiros que viajaram para acompanhar o Corinthians está Georgete Távora, engenheira de 64 anos, que enxerga nas jogadoras motivos suficientes para estar presente e reconhecer uma trajetória construída ao longo de anos de dedicação à modalidade. Para ela, apoiar as Brabas também significa valorizar atletas que participaram diretamente da consolidação de um dos projetos mais vitoriosos do futebol feminino sul-americano.
“O Corinthians é uma referência, né? E essas meninas, muitas dessas meninas aí, foram desde o zero. Então, eu acho que elas merecem a gente apoiar e ir em todos os lugares”, afirmou.
A possibilidade de conquistar mais uma Libertadores também alimenta os planos de Georgete, que já pensa em acompanhar o clube em outras competições internacionais caso o Corinthians conquiste o título continental.
“Sábado eu estou animada. Vai ser difícil, não vai ser nada fácil, mas Corinthians é isso mesmo. Se a gente for campeã, no mesmo momento eu já vou passar para o torneio das campeãs”, disse.
Entre os torcedores corintianos que viajaram ao Equador está Deivid Rodrigues, de 22 anos, que encontrou uma maneira particular de demonstrar seu apoio às jogadoras. Desde a Libertadores de 2024, disputada no Paraguai, ele produz bandeiras com imagens das atletas e de páginas dedicadas à cobertura do futebol feminino do Corinthians, levando esse material aos estádios para ampliar a presença visual da torcida mesmo quando o número de brasileiros nas arquibancadas é reduzido.
A iniciativa começou antes de sua primeira viagem internacional para acompanhar as Brabas, quando percebeu que poderia contribuir para criar um ambiente de apoio às jogadoras em uma competição realizada longe de casa. Na ocasião, preparou cinco bandeiras, número que cresceu conforme novas atletas chegaram ao clube e outras histórias passaram a fazer parte de sua relação com a equipe.
“Em 2024, minha primeira Libertadores lá no Paraguai, dois meses antes de ir para lá, eu pensei: estou indo para um lugar longe que não vai ter muita torcida, então quero de alguma forma fazer a maior festa possível. Vou providenciar algumas bandeiras que representem elas o máximo possível”, explicou ele.
O projeto, que começou de maneira espontânea, passou a acompanhar as mudanças no elenco e atualmente reúne 14 bandeiras, incluindo homenagens a jogadoras e iniciativas de comunicação voltadas ao futebol feminino. Para levá-las a Quito, Deivid precisou reservar um espaço considerável na bagagem, transformando a preparação para a viagem em parte da própria experiência como torcedor. “A mala veio lotada, deu muito trabalho, ficou pesada. Quase metade da mala foi só de bandeira”, contou.
Uma das peças que mais chamam a atenção é a bandeira do Uruguai, levada especialmente em homenagem à atacante Belén Aquino, uma das jogadoras favoritas de Deivid. Admirador do futebol uruguaio, ele acompanhava a trajetória da atleta antes mesmo de sua chegada ao Corinthians e encontrou na bandeira uma forma de representá-la enquanto não produzia uma peça personalizada com sua imagem.
“Quando a Belén veio para cá, fiquei muito feliz de ela ter vindo para o Corinthians. Já é uma jogadora que eu queria há muito tempo, já teve proposta antes, ela acabou não vindo, mas agora finalmente está aqui, fazendo um bom futebol. Resolvi comprar a bandeira para ela. Enquanto ela ainda não tem muitas fotos para fazer a arte da bandeira própria, vai ter essa do Uruguai representando ela”, explicou.
A presença de Deivid, Natália, Georgete, Justin e Alejandra nas arquibancadas de Quito evidencia diferentes formas de construir uma relação com o futebol feminino, seja pela identificação com um clube, pelo reconhecimento do trabalho das atletas ou pelo desejo de participar de momentos que passam a integrar a memória coletiva de uma torcida. Enquanto Corinthians e Cruzeiro se preparam para decidir o título continental, essas histórias mostram que a expansão da modalidade também acontece fora das quatro linhas, no compromisso de quem escolhe estar presente e encontra, em cada jogo, novas razões para continuar acompanhando.





