Copa de 1991: 30 anos da 1ª competição oficial de futebol para as mulheres

Nesta quarta-feira (21), a seleção feminina de futebol fará sua estreia nos Jogos Olímpicos de Tóquio diante da China. Esta será a sétima participação das mulheres na competição, que incorporou o futebol feminino na disputa apenas em 1996, nos Jogos de Atlanta.

E um dos principais motivos que levaram a essa inclusão foi a criação de uma Copa do Mundo dedicada à elas cinco anos antes, em 1991. E justamente em 2021, será comemorado 30 anos da 1ª competição internacional disputada pelas mulheres da bola. Um marco que levou décadas para acontecer, mas que abriu portas para que as atletas brasileiras tivessem a oportunidade de disputar competições oficiais de futebol.

Elane e Roseli em campanha para a Adidas (Foto: Roberta Nina/Dibradoras)

E justamente pensando neste marco, a Adidas – patrocinadora da Copa do Mundo – preparou uma camisa comemorativa para celebrar essa conquista das mulheres. A marca esportiva criou modelos apenas femininos para as torcedoras dos clubes Cruzeiro, Flamengo e Internacional. Nas cores azul, vermelha e cinza, os modelos terão um patch comemorativo na parte da frente com o logo da competição e a inscrição de 30 anos, que também aparece nas costas das camisas.

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Para a divulgação da camisa, a Adidas realizou um ensaio com três jogadoras que vestiram a camisa da seleção brasileira em 1991 e participaram da primeira edição da Copa do Mundo, disputada na China: a zagueira Elane, a meio-campista Márcia Honório e a atacante Roseli.

 

Junto com as pioneiras,  três jogadoras da atualidade participaram da campanha: Duda (atacante do Cruzeiro), Darlene (atacante do Flamengo) e Milena (do Internacional).

“Estamos representando todas que atuaram com a gente naquela época. Somos nós aqui, mas representando todas daquela geração de 1988, que começou tudo, para depois jogarmos esse Mundial de 1991. E a gente tem amizade até hoje porque a luta foi muito grande e quando tem uma homenagem dessa, a gente fica muito feliz”, declarou Roseli.

Primeira seleção feminina formada em 1988 (Foto: Acervo pessoal/Museu do Futebol)

Nós acompanhamos a produção para o lançamento da camisa comemorativa e conversamos com as jogadoras que fizeram parte desta campanha.

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A Copa das mulheres

Foi preciso esperar 61 anos para que as mulheres tivessem a oportunidade de disputar um Mundial de futebol. Enquanto os homens já tinham uma Copa oficialmente reconhecida pela Fifa desde 1930, a modalidade feminina passou a ter a sua competição oficial apenas em 1991.

Depois dos anos que passou na “ilegalidade”, ou seja proibido por lei segundo o decreto-lei 3.199 de 14 de abril de 1941 – que seguiu vigente até 1983 – assinado pelo então presidente Getúlio Vargas, o futebol feminino começa a se estabelecer no inicio da década de 80.

O caminho foi longo até a modalidade ser oficialmente reconhecida e foi no fim dessa década que a Fifa voltou sua atenção para o futebol delas e passou a organizar uma Copa do Mundo também para as mulheres.

Antes de oficializar o torneio, foi organizado um campeonato que serviu como teste antes do Mundial de 1991. Ele foi criado com o apoio de João Havelange, que era presidente da FIFA na ocasião. Em 1988, o Torneio Internacional da China contou com a participação de 12 seleções, e o Brasil ficou em terceiro lugar derrotando a equipe chinesa nos pênaltis.

“Chamam aquele Mundial de experimental, mas pra gente foi um Mundial mesmo. Jogamos contra as melhores seleções”, relembrou a zagueira Elane.

E três anos depois, foi novamente a China quem sediou o competição que, a partir dali, seria realizada de quatro em quatro anos, como manda o regulamento. O torneio contou com 12 seleções e o Brasil – o único representante da América do Sul – caiu logo de cara em um grupo fortíssimo formado por Suécia, Estados Unidos e Japão.

O Brasil estreou com uma vitória magra contra o Japão, por 1×0, e a autora do gol brasileiro foi Elane. “Veio de um escanteio. A Sissi cruzou, resvalaram de cabeça, eu estava no segundo pau. A bola sobrou pra mim e eu chutei. Fiquei naquela dúvida se tinha entrado ou não e a juíza deu o gol”, relembrou a defensora que passou anos sem se dar conta do feito enorme que conquistou ao se tornar a primeira jogadora a marcar um gol com a camisa do Brasil em uma Copa do Mundo.

“Agora eu acho que não esqueço mais (que foi a primeira brasileira a marcar um gol em Copas). Mas anos atrás, um jornalista me perguntou: ‘foi você quem marcou o primeiro gol, né?’. E eu respondi: ‘eu? Não lembro não’. E eu não lembrava mesmo, a gente passou por tanta coisa… Podem até ter me dito na hora que aquele era o primeiro gol, mas depois passou porque nossa luta era tão grande, tinha tanta coisa pra brigar e pra pensar, que eu realmente não lembrava que tinha sido eu”, declarou ao Dibradoras.

“As japonesas corriam demais. Elas perdiam a bola e a mesma que tinha sido driblada já estava correndo de novo. Ô time chato!”, recordou também Márcia Honório.

Na sequência, o Brasil perdeu por 5×0 das americanas e por 2×0 para as suecas e não se classificou para a segunda fase. Mas o jogo contra as americanas foi muito marcante para as ex-atletas.

“No segundo tempo nós nos acertamos, mas perdemos gols pra caramba. A gente correu muito no primeiro tempo e no segundo estávamos cansadas. Pegamos uma chave muito forte. E no primeiro torneio (em 88), os Estados Unidos foram para apanhar de todo mundo. Aí, em 1991 elas chegaram diferente. Chegaram com água, com a comida delas, mais estrutura e a gente ‘daquele jeito’. Tinha meninas que não comiam direito, não deixaram a gente levar a nossa comida, ficaram com tudo no aeroporto e nós sentimos muito a parte de alimentação”, recordou Márcia.

Duda, camisa 10 do Cruzeiro e Márcia Honório (Foto: Adidas)

A camisa 10 da equipe era Roseli e a atacante não sentiu tanto a diferença gastronômica entre Brasil e China. “Eu comia de tudo”, declarou. Já a zagueira Elane não se adaptou tão bem assim. “Eu, e acho que a maioria, sofreu muito com a alimentação. Eu só vivia à base de fruta e Mc Donald’s”, disse.

E assim, com uma vitória e duas derrotas, o Brasil se despediu da competição na fase de grupos. “Foi difícil. Naquela época existia muita diferença. Acho que se a gente tivesse se preparado melhor, se tivéssemos naquela época a condição que as jogadoras têm hoje, a gente seria campeãs do mundo na certa”, cravou Roseli.

Equipe brasileira que participou da primeira Copa do Mundo, 1991 (Foto: Acervo pessoal Lunalva Torres de Almeida)

Os Estados Unidos foram a primeira seleção a ganhar uma Copa do Mundo Feminina derrotando por 2×1 a seleção da Noruega diante de um público de 63 mil espectadores, no Tianhe Stadium em Guangzhou.

Durante a produção da campanha, entre um clique e outro, as jogadoras da geração atual puderam conhecer de perto – e até bater uma bolinha – com as mulheres que, pela primeira vez, defenderam nosso país em uma Copa do Mundo.

Para Darlene, de 31 anos – que já defendeu o Brasil no Mundial e  Jogos Pan-americanos de 2015 – a participação das pioneiras nesta campanha foi muito importante e significativa, especialmente para as atletas mais jovens que ela.

A atacante Darlene e a zagueira Elane (Foto: Adidas Brasil)

“Não temos ideia do que elas passaram no futebol. E hoje, as mais novas e eu também, temos tudo do bom e do melhor e muitas ainda não agarram as oportunidades com todas as forças. Contei com o apoio dos meus pais, mas também tive muitas oportunidades que não agarrei. E talvez hoje eu poderia ser outra pessoa. Ainda vejo muitas meninas novas que não conseguem agarrar com facilidade as oportunidades. Imagina quantas meninas queriam estar (jogando) em um clube como esses que estamos jogando? Na época delas, isso não existia”

Para Duda, camisa 10 do Cruzeiro, foi um marco participar desse momento comemorativo. “Eu já tinha ouvido falar delas, mas não as conhecia. Então está sendo muito importante poder conhecer quem começou e já fez história no futebol. Temos que fazer de tudo para relembrar todos os dias do que elas já sofreram e de como estamos vivendo hoje coisas boas para que, no futuro, seja ainda melhor.”

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