A 18ª edição da Libertadores feminina terminou no último sábado com um campeão inédito. O Cruzeiro era estreante no torneio e venceu o Corinthians, hexacampeão, nos pênaltis depois de uma final épica em Quito. Um título que veio com muito mérito de um clube que soube aumentar o investimento – sem esquecer de melhorar a infraestrutura para o futebol feminino – em cima de outro que vive um ano de vice-campeonatos acumulados e uma crise nunca antes vista.
A começar pelo jogo, que chegou a estar 3 a 0 para o Corinthians, dá para dizer que esse título ficou com um gosto ainda mais especial para o Cruzeiro, que havia sido vice-campeão brasileiro em 2025 perdendo justamente a final para as Brabas. O empate em 4 a 4 que veio no fim para levar a decisão aos pênaltis deu às Cabulosas o último fio de esperança que faltava para acreditar que, sim, era possível conquistar o título de campeãs da América.
Após a defesa de Camila no pênalti batido por Gi Fernandes, o Cruzeiro celebrou uma conquista que não veio por acaso. O que faz um time campeão da América não é só o desempenho naqueles 16 dias de competição, mas é principalmente o trabalho feito antes disso e com constância e evolução. O Cruzeiro feminino é um projeto que começou com a obrigatoriedade em 2019 – em uma estrutura bastante defasada, com treinos na PUC-Minas -, e que evoluiu muito nos últimos anos, com a ajuda de mulheres incríveis na gestão, como a Bárbara Fonseca (que esteve lá desde o início até sair para o Grêmio neste ano), depois a Kin Saito que revolucionou o clube na gestão da SAF do Ronaldo, e agora a Luiza Parreiras que veio substituir a Bárbara.
Um clube que hoje usa a estrutura da Toca da Raposa para treinamentos, tem uma comissão técnica muito preparada – com Jonas Urias no comando -, foi vice campeão brasileiro em 2025 e tem investimento e apoio da gestão atual do presidente Pedro Lourenço. Portanto, o título da Libertadores faz com que o clube só esteja colhendo frutos do que foi plantado.

Pra fechar, uma festa magnífica da torcida na chegada das jogadoras a Belo Horizonte. Desde a recepção no aeroporto até a carreata feita na cidade e uma celebração com os torcedores na quadra. Coisa linda de se ver!
Corinthians: o problema é a comissão técnica?
O Corinthians vai terminar o ano sem nenhum título nacional ou internacional pela primeira vez em 10 anos. O máximo que pode conquistar agora é o Paulista, mas ainda não tá confirmado nas semifinais.
Tem sido comum ver a manifestação de torcedores resumindo a responsabilidade sobre isso no trabalho da Emily Lima no comando da equipe – ela foi demitida no início da tarde desta terça-feira. Acho injusto e superficial analisar assim. Primeiro porque nem todos os problemas dentro de campo são só da treinadora e segundo porque os problemas fora de campo não devem ser ignorados.

Um jogo que está 3 a 0 e a equipe em campo se permite tomar o empate em 4 a 4 por total descuido tem que ter no mínimo uma responsabilidade compartilhada com as jogadoras. Afinal de contas, o Corinthians fez uma campanha impecável nessa Libertadores e tinha feito 21 gols e sofrido apenas 2 até chegar à final. O desempenho no primeiro tempo tinha sido suficiente para quase aplicar uma goleada no Cruzeiro. O que mudou em campo para que caísse tanto o rendimento na segunda etapa? No Brasileiro, onde o Corinthians acabou também perdendo o título para o São Paulo, é possível ver que nos dois jogos o time comandado por Emily construiu chances para vencer. Teve falhas, é verdade, mas de novo: seria só responsabilidade da treinadora?
Do lado de fora de campo, o Corinthians como clube vive uma crise sem precedentes e é inegável que ela respinga nas Brabas. Tem muito tempo que a gestão do futebol feminino caiu muito. Planejamento de elenco ruim, demora pra contratar ou renovar com as jogadoras, atrasos em salários e falta de diálogo com as atletas – a ponto de elas terem que fazer plantão no parque São Jorge pra encontrar o presidente e ter alguma resposta sobre os pagamentos que não vinham.
E apesar de tudo isso, o Corinthians chegoun às finais do Brasileiro e da Libertadores e poderia ter saído campeão em ambos os torneios. Por isso que pra mim é ilusão achar que a saída da Emily vai resolver tudo – não vai.
Formato da Libertadores feminina precisa mudar
Pra fechar com o terceiro ponto: já deu dessa Libertadores feminina espremida em 15 dias com estádios vazios e péssima divulgação né? Não é possível que a Copa do Mundo vai chegar à América do Sul e a Conmebol não vai se mexer pra tentar desenvolver o futebol feminino no continente!



