Edição no Equador expôs problemas de calendário, divulgação e planejamento, mas também mostrou acertos que precisam ser valorizados; crescimento do torneio deve ser corresponsabilidade da Conmebol, clubes e confederações
Por Giselly Corrêa, de Quito
Foto: Staff Imagens Woman
A Libertadores Feminina 2026 chegou ao fim no último sábado (31), com o Cruzeiro conquistando o título inédito e encerrando 16 dias de competição no Equador. Entre a abertura e a decisão, as equipes finalistas disputaram seis partidas, sendo três na fase de grupos, quartas de final, semifinal e final, em uma programação intensa que permitiu aos clubes chegar ao país-sede apenas três dias antes do início do torneio, conforme regulamento.
O formato está longe de ser o ideal. Não se trata de uma crítica nova, tampouco isolada. A necessidade de transformar a Libertadores Feminina em uma competição mais longa, com partidas distribuídas ao longo da temporada e jogos nos países dos clubes participantes, tornou-se praticamente um consenso entre atletas, treinadores e dirigentes. A própria Conmebol admite discutir mudanças a partir de 2027.
Dentro de campo, a edição de 2026 também deixou sinais de maior equilíbrio competitivo, com menos goleadas de placares elásticos do que em outras temporadas. As duas maiores foram a vitória do Corinthians sobre o Caracas FC, da Venezuela, por 7 a 0, e o triunfo da LDU Quito sobre o Bolívar, da Bolívia, por 6 a 0, ambos na fase de grupos. Embora as diferenças técnicas e estruturais entre os clubes ainda sejam evidentes, a quantidade de confrontos equilibrados reforça a percepção de uma competição mais disputada.
Mas os 15 dias de acompanhamento da competição, à distância e presencialmente, além das conversas com jornalistas, atletas e integrantes das delegações, deixam uma percepção que merece ser aprofundada: mudar o formato é necessário, mas, por si só, não será suficiente para transformar a realidade do futebol feminino na América do Sul. O desafio, portanto, não é apenas fazer uma Libertadores maior, mas construir uma competição mais relevante, sustentável e conectada ao desenvolvimento da modalidade em todo o continente. E isso envolve muitos agentes.
Quito como sede
A decisão de realizar a Libertadores Feminina no Equador foi anunciada em fevereiro, mas Quito só foi confirmada oficialmente como cidade-sede em 1º de setembro, apenas 44 dias antes do início da competição. Um intervalo insuficiente para o planejamento de torcedores, jornalistas e profissionais envolvidos na cobertura do torneio, especialmente quando se consideram os custos de deslocamento internacional, hospedagem e logística.
Essa definição precisa ocorrer com maior antecedência, já que uma competição continental não pode depender de decisões tomadas tão perto de sua realização, sobretudo quando pretende ampliar o interesse do público e atrair visitantes de diferentes países. “Escutamos muitas críticas a Quito, mas para nós foi bom”, afirmou Jonas Urias, treinador do Cruzeiro, em entrevista.
E foi, de fato, uma boa surpresa. Fora dos circuitos turísticos sul-americanos mais habituais para os brasileiros, como Buenos Aires e Santiago, a capital equatoriana ofereceu condições interessantes para receber a competição, com boa rede hoteleira, além de permitir que a Libertadores chegasse a um público que dificilmente teria contato tão próximo com as principais equipes femininas do continente.
A logística aérea foi um obstáculo especialmente para os brasileiros. Sem voos diretos regulares entre o Brasil e Quito, os deslocamentos exigiram conexões, frequentemente por Bogotá, Lima ou Cidade do Panamá, aumentando o tempo de viagem e os custos.
Por outro lado, a localização geográfica de Quito favorece o deslocamento de países vizinhos. Um voo direto de Bogotá, na Colômbia, à capital equatoriana dura aproximadamente 1h40, enquanto o trajeto desde Lima, no Peru, leva cerca de 2h20. Já para os bolivianos, a viagem costuma exigir conexão e pode ultrapassar seis horas, dependendo da origem e do itinerário. Para os argentinos, o trajeto entre Buenos Aires e Quito leva cerca de seis horas em voo direto; para os chilenos, são aproximadamente cinco horas desde Santiago, enquanto os uruguaios precisam fazer conexão, com viagens que podem ultrapassar nove horas a partir de Montevidéu. A acessibilidade da sede, portanto, varia significativamente conforme o país de origem, o que reforça a importância de um planejamento antecipado.
Há ainda dificuldades que ultrapassam o futebol: os venezuelanos, por exemplo, precisam de visto para entrar no Equador desde agosto de 2019, em uma medida relacionada à crise migratória regional. A exigência afetou a logística do Caracas FC, que enfrentou dificuldades para obter a documentação necessária à viagem.
Em relação à infraestrutura, a escolha foi acertada. O Estádio Banco Guayaquil, do Independiente del Valle, e o Rodrigo Paz Delgado, da LDU, ofereceram gramados e instalações compatíveis com uma competição continental. O Rodrigo Paz, inclusive, recebeu a final da Copa América Feminina de 2025, entre Brasil e Colômbia, e é utilizado pela seleção equatoriana em partidas das Eliminatórias. Já o Banco Guayaquil também recebeu jogos da competição continental de seleções no ano passado. Ambos apresentaram condições melhores que o da edição anterior, disputada em Buenos Aires, no Florencio Sola, do Banfield, e no Nuevo Francisco Urbano, do Deportivo Morón.
Uma Libertadores quase invisível fora dos estádios
Se a infraestrutura esportiva foi um ponto positivo, a divulgação da competição esteve entre os aspectos mais frágeis desta edição. Ao desembarcar em Quito, praticamente não havia sinais de que a cidade recebia o principal torneio de clubes do futebol feminino sul-americano. Não se viam campanhas no aeroporto, peças publicitárias nas principais vias, ações no Centro Histórico ou uma identidade visual capaz de inserir a Libertadores no cotidiano dos moradores.
Essa ausência ficou ainda mais evidente nas conversas com equatorianos. Ao contar que estávamos na cidade para acompanhar a Libertadores Feminina, era comum perceber surpresa e curiosidade. O interesse existia e boa parte sabia da competição, mas ao mesmo tempo não tinha tantas informações sobre os jogos e ingressos.
Nas conversas ao longo da cobertura, encontrei pessoas que conheciam jogadoras, acompanhavam a modalidade e demonstravam curiosidade sobre a competição. Faltou, porém, transformar esse interesse potencial em presença nas arquibancadas.
Os públicos baixos dos jogos não podem ser explicados exclusivamente pela ausência de campanhas publicitárias. Há questões culturais, esportivas e econômicas envolvidas. Mas é difícil esperar estádios cheios quando o próprio torneio não consegue se fazer presente na cidade que o recebe.
Idealmente, a Libertadores Feminina recisa ser vista nas ruas, nas escolas, no transporte público, nas redes sociais e nos veículos de comunicação. Sem isso, corre o risco de se tornar um evento restrito às delegações, aos profissionais envolvidos e a um pequeno grupo de torcedores que já acompanha o futebol feminino.
Ingressos acessíveis e uma experiência que merece ser valorizada
Dentro dos estádios, a percepção foi diferente. A organização apresentou iniciativas positivas, sobretudo na relação entre atletas e torcedores.
Os ingressos custavam US$ 3,45, aproximadamente R$ 20, e eram vendidos digitalmente pela plataforma Smarticket. O valor acessível representou um acerto importante, especialmente em uma competição que ainda busca consolidar sua base de público.
O Rodrigo Paz Delgado também oferecia uma vantagem logística: a proximidade de um terminal de ônibus, que facilitava o acesso por transporte público. Em uma cidade com desafios de mobilidade e deslocamentos relativamente longos, esse aspecto não deve ser desprezado.
Outro ponto positivo foi a proximidade entre as arquibancadas e o gramado, que favoreceu interações espontâneas entre jogadoras e torcedores. Ao fim das partidas, era possível acompanhar pedidos de fotografias, autógrafos e conversas que ajudavam a construir um ambiente acolhedor, sobretudo para crianças e adolescentes.
A competição também contou com ativações de patrocinadores, incluindo a entrada de crianças em campo ao lado das atletas. Já a função de gandulas foi desempenhada por adolescentes interessados em futebol, algumas delas vinculadas às categorias de base de clubes equatorianos, como LDU e Independiente del Valle. Para uma adolescente que sonha em jogar profissionalmente, participar de uma Libertadores e estar próxima de atletas de diferentes países pode representar uma oportunidade de identificação com a modalidade. A experiência de estádio, portanto, teve qualidades que merecem ser preservadas e ampliadas.
O formato limita o crescimento esportivo e financeiro dos clubes
A principal crítica à Libertadores Feminina continua sendo seu modelo de disputa. Concentrar toda a competição em pouco mais de duas semanas impõe desgaste físico, limita a recuperação das atletas e reduz as possibilidades de exploração comercial do torneio.
Além disso, impede que os clubes recebam partidas em seus próprios estádios, diante de suas torcidas, e desenvolvam receitas de bilheteria e ações comerciais associadas à competição.
Omar Ramírez, treinador do Independiente Santa Fe, foi um dos profissionais que abordaram o problema de maneira mais contundente durante esta edição. Para o colombiano, o torneio ainda funciona muito mais como um campeonato sul-americano de curta duração do que como uma Libertadores propriamente dita. Sua crítica não se limita ao número de jogos, mas à incapacidade do modelo atual de gerar receitas e oportunidades de crescimento para os participantes.
Ramírez questionou o impacto financeiro de uma competição que dura apenas 15 dias, argumentando que esse período é insuficiente para atrair patrocinadores dispostos a realizar investimentos mais expressivos. Também destacou que os US$ 50 mil pagos pela participação podem ser consumidos pelos próprios custos operacionais dos clubes durante o torneio.
O treinador citou como exemplo uma eventual semifinal entre Corinthians e Santa Fe disputada em Bogotá. Em sua avaliação, o Estádio El Campín poderia receber um grande público, gerando receitas para o clube colombiano e proporcionando um espetáculo mais atrativo. O mesmo raciocínio se aplicaria a uma partida com mando do Corinthians no Brasil.
A reflexão é pertinente. Uma Libertadores disputada ao longo da temporada, com jogos de ida e volta e mandos de campo, permitiria que os clubes fortalecessem suas relações com torcedores, patrocinadores e comunidades locais.
A mudança, no entanto, exige adaptação em relação ao formato da Libertadores masculina. Um modelo de ida e volta que transfira aos clubes os custos de deslocamento e hospedagem pode aprofundar as desigualdades financeiras entre os participantes. Se até equipes brasileiras enfrentam dificuldades orçamentárias, qual seria a viabilidade para clubes de países com investimentos mais modestos? Uma alternativa seria uma transição gradual, com a Conmebol e patrocinadores financiando parte das despesas logísticas, especialmente das equipes com menos recursos. Afinal, não basta oferecer aos clubes a possibilidade de jogar em casa se eles não tiverem condições financeiras de viajar para enfrentar os adversários.
Logo, um novo formato exige planejamento financeiro, apoio às equipes e critérios capazes de evitar que os clubes com menos recursos fossem ainda mais prejudicados.Mas manter o modelo atual também tem um custo: o de limitar as possibilidades de crescimento de uma competição que deveria representar o ponto mais alto do futebol feminino de clubes na América do Sul.
O desenvolvimento precisa acontecer também dentro de cada país
Há, porém, uma questão que não pode ficar em segundo plano: a Libertadores é o reflexo das estruturas nacionais que sustentam os clubes participantes. O futebol feminino brasileiro, apesar de suas desigualdades financeiras, problemas de gestão e dificuldades estruturais, ainda é visto com admiração por profissionais de outros países sul-americanos. Não apenas pelos resultados esportivos, mas pela existência de um calendário relativamente mais amplo, com competições estaduais, divisões nacionais e diferentes oportunidades de participação ao longo do ano.
Isso não significa que o Brasil tenha resolvido seus problemas. Longe disso. A modalidade ainda enfrenta instabilidade financeira, disparidades de investimento e dificuldades de profissionalização. Mas há uma estrutura competitiva que, em muitos países vizinhos, ainda está em processo de consolidação.
Durante a Libertadores, essa diferença se tornou perceptível tanto nas conversas com profissionais de outros países quanto dentro de campo. Há equipes com temporadas mais extensas, departamentos estruturados e atletas habituadas a competições de alto nível, enquanto outras convivem com calendários reduzidos, preparação limitada e menos oportunidades de desenvolvimento.
É uma desigualdade que não será resolvida apenas com a ampliação da Libertadores. As federações nacionais também precisam assumir a responsabilidade de fortalecer seus campeonatos, ampliar o calendário, incentivar a formação de atletas e estabelecer condições mínimas para o desenvolvimento dos clubes.
Nesse processo, a Conmebol poderia se inspirar na experiência da Federação Paulista de Futebol (FPF), que adotou, em 2021, um modelo de licenciamento de clubes baseado em critérios financeiros, administrativos, esportivos, de infraestrutura e de gestão de pessoas. As exigências são implementadas gradualmente, com períodos de adaptação e diálogo com os participantes, incentivando investimentos e profissionalização. Embora a própria Conmebol já adote mecanismos de licenciamento, a experiência paulista mostra como esse instrumento pode ir além de uma formalidade e funcionar como política de desenvolvimento. Adaptar exigências progressivas às diferentes realidades nacionais, com acompanhamento e apoio financeiro, seria um caminho para reduzir desigualdades e elevar o nível da Libertadores a longo prazo.
De pouco adiantará uma Libertadores mais longa se parte das equipes continuar sem competições regulares durante o restante do ano. A evolução continental depende, necessariamente, de uma transformação interna.
Nesse sentido, a Conmebol tem um papel importante não apenas na organização do torneio, mas no incentivo e na cobrança por políticas de desenvolvimento em suas associações filiadas. É preciso, portanto, distinguir responsabilidades. Cabe à Conmebol oferecer um torneio mais bem planejado, comercialmente atrativo e esportivamente justo. Às federações nacionais, compete criar as condições para que os clubes cheguem a essa competição com calendários consistentes, estruturas adequadas e oportunidades reais de desenvolvimento.
Uma responsabilidade não elimina a outra, pelo contrário, são complementares. Sem o fortalecimento das competições domésticas, uma Libertadores ampliada corre o risco de apenas reproduzir, durante mais meses, as desigualdades que já se manifestam em campo.



