Jornalistas independentes miram a Copa de 2027 após cobertura da Libertadores Feminina

Reunidos na Libertadores Feminina, em Quito, profissionais de diferentes países contam como construíram suas trajetórias na cobertura da modalidade e suas expectativas para o Mundial no próximo ano

Por Giselly Corrêa, de Quito

A Libertadores Feminina de 2026 reuniu em Quito não apenas algumas das principais equipes do continente, mas também jornalistas que ajudam a construir a história da modalidade na América do Sul. Vindos de países como Peru, Colômbia e Chile, além dos profissionais equatorianos que acompanharam a competição em casa, muitos trabalham de maneira independente, com equipes reduzidas e recursos limitados.

São profissionais que acompanham campeonatos nacionais, registram histórias de atletas e atravessam fronteiras para produzir conteúdo. Alguns começaram quando praticamente não havia cobertura regular da modalidade em seus países, enquanto outros encontraram nas redes sociais uma alternativa para criar veículos especializados e alcançar novos públicos.

A Libertadores também foi uma oportunidade de preparação para a Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada no Brasil. Para esses jornalistas, o torneio representa a possibilidade de ampliar a cobertura internacional e acompanhar de perto um evento que pode impulsionar o desenvolvimento do futebol feminino em toda a região.

Belén começou a acompanhar futebol feminino por influência de Marta

A relação da equatoriana Belén com o futebol começou na infância, quando praticava diferentes esportes e jogava com os meninos do bairro. Em 2007, ao acompanhar Marta na Copa do Mundo Feminina, passou a se interessar ainda mais pela modalidade, que se tornaria parte de sua trajetória profissional.

“Eu era filha única e praticava muitos esportes. No meu bairro havia muitos meninos, então comecei a jogar futebol com eles. Depois vi a Marta na Copa do Mundo de 2007 e, desde então, passei a gostar ainda mais do futebol feminino”, disse, à reportagem.

Em 2015, durante a universidade, começou a trabalhar com futebol feminino por meio de um estágio. Anos depois, durante a pandemia, integrou um projeto independente formado por profissionais que já acompanhavam a modalidade e decidiram produzir notícias, entrevistas e transmissões pelas plataformas digitais.

Atualmente, o grupo reúne quatro integrantes e acompanha não apenas as competições equatorianas, mas também o futebol brasileiro, europeu e norte-americano. O alcance internacional das publicações é motivo de orgulho para Belén, que vê no crescimento das redes uma oportunidade de apresentar o futebol feminino de seu país a novos públicos.

Durante a Libertadores, a jornalista elogiou a realização da competição em Quito, mas criticou a falta de divulgação, que considera um dos fatores responsáveis pela baixa presença de torcedores. Para ela, havia interesse da população, mas faltaram campanhas capazes de informar os moradores sobre os jogos.“O que houve de ruim foi a falta de publicidade. O comitê organizador não se empenhou tanto em divulgar a competição. Havia pessoas interessadas em assistir aos jogos, mas faltou divulgação para que elas soubessem o que estava acontecendo”, avaliou ela.

De olho na Copa de 2027, Belén mantém a esperança de ver o Equador conquistar uma vaga no Mundial. Embora reconheça as dificuldades da seleção, acredita que a renovação do elenco e o trabalho com novas gerações podem fortalecer a equipe. Seu desejo também é que a cobertura independente alcance maior reconhecimento e consiga acompanhar o crescimento da modalidade dentro e fora do país.

“Meu sonho é que o futebol feminino seja mais difundido em todos os lugares, assim como acontece com o masculino. Espero que, no futuro, possamos alcançar isso e que o futebol feminino continue crescendo.”

Jornalista se dedica ao futebol feminino há mais de uma década após se encantar com uma partida

Há cerca de 13 anos, o jornalista venezuelano José Leonardo Lozada, conhecido como Pocho, recebeu o convite de uma amiga para assistir a uma partida de futebol feminino. A experiência despertou um interesse que se transformaria em profissão, inicialmente com fotografias e publicações no antigo Twitter e, posteriormente, com a produção de crônicas e reportagens para um veículo especializado.

Em 2017, mudou-se para a Colômbia e, no ano seguinte, passou a integrar outro projeto dedicado à modalidade. Desde então, acompanha o desenvolvimento do futebol feminino colombiano, marcado por avanços esportivos, mas também por dificuldades estruturais.

Uma das principais preocupações de Pocho é a duração reduzida da liga nacional. Segundo ele, muitas jogadoras têm seus contratos encerrados assim que os clubes são eliminados, ficando sem partidas e, frequentemente, precisando buscar outras fontes de renda. O jornalista considera que o Brasil possui uma vantagem importante por oferecer competições estaduais e nacionais ao longo da temporada.

“O Brasil tem uma diferença muito grande porque possui torneios nacionais e estaduais. Isso faz com que os clubes tenham muito mais competições. Na Colômbia, uma equipe pode disputar a liga de fevereiro a setembro e, se não se classificar para a fase final, as jogadoras ficam sem ter o que fazer”, diz o jornalista.

“Na Colômbia, muitos clubes encerram os contratos das jogadoras quando termina a participação na liga. Se uma equipe é eliminada na primeira fase, o contrato acaba e elas precisam procurar outras coisas para fazer e ganhar dinheiro. Isso é muito complicado”, completa.

Apesar das dificuldades, sua expectativa para 2027 é elevada. Pocho acredita que o Brasil tem condições de organizar uma Copa do Mundo histórica, não apenas pela tradição esportiva, mas pela oportunidade de reunir torcedores e profissionais de diferentes países sul-americanos.

“Eu digo que vamos fazer a melhor Copa do Mundo porque todos fazemos parte de um mesmo ecossistema do futebol feminino. Não falo apenas do meu veículo. Na Colômbia existem outros meios importantes, assim como há jornalistas no Peru e no Equador. Todos fazemos parte disso. Eu digo ‘vamos’ porque somos todos parte de um mesmo ecossistema do futebol feminino. Não é apenas o Brasil. Todos nós, que trabalhamos com a modalidade na América do Sul, fazemos parte desse momento”, finaliza, com entusiasmo.

Milagros transformou experiência como atleta em jornalismo no Peru

A peruana Milagros Loayza encontrou no jornalismo uma maneira de retribuir ao esporte que praticou durante a juventude. Ex-jogadora de futsal, conviveu com a falta de cobertura e de reconhecimento da modalidade, experiência que a motivou a produzir conteúdo quando ingressou na universidade.

Em 2017, começou a registrar partidas de futsal e, posteriormente, ampliou o trabalho para o futebol de campo. Com equipamentos adquiridos por conta própria e ajuda de amigos, passou a entrevistar jogadoras e acompanhar competições que praticamente não recebiam atenção da imprensa tradicional.

Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória ocorreu em 2019, quando atletas peruanas organizaram protestos por melhores condições e visibilidade.

“Em 2019, as jogadoras começaram a protestar contra a federação porque estavam cansadas de jogar sem público e sem visibilidade. Em uma partida, algumas atletas comemoraram os gols fazendo sinais de igualdade, enquanto outras cobriram os olhos. Um fotógrafo amigo meu registrou aquelas imagens, que começaram a circular nas redes sociais”, relembra. A campanha chegou até Marta, que apoiou a mobilização e ajudou a ampliar seu alcance internacional.

Milagros acompanhou esse processo de perto e considera que o jornalismo independente teve papel importante na construção da memória do futebol feminino peruano. Atualmente, reconhece avanços na organização da liga nacional, mas critica a limitação do acesso às transmissões por plataformas pagas, que podem afastar parte do público.

A Copa de 2027 terá um significado especial para a jornalista, que esteve no Brasil durante o Mundial masculino de 2014, quando ainda não possuía seu próprio veículo. Agora, prepara-se para retornar ao país e acompanhar uma Copa do Mundo Feminina com a experiência acumulada em anos de cobertura independente.

Embora o Peru não esteja classificado para o torneio, Milagros acredita que a realização do Mundial no Brasil poderá acelerar investimentos e estimular mudanças em outros países sul-americanos.

“Acredito que a Copa do Mundo no Brasil vai acelerar um pouco mais o desenvolvimento do futebol feminino na América do Sul. O Brasil tomou a iniciativa e isso é muito importante, porque os outros países vão olhar para o que está sendo feito e poderão aproveitar essas experiências”, reflete.

Ángela Guzmán defende mais espaço para a imprensa especializada

A jornalista Ángela Guzmán Morales acompanhou a Libertadores Feminina em colaboração com veículos especializados, entre eles o Superpoderosas, da Colômbia, e uma revista chilena. Sua atuação é marcada pela defesa de uma cobertura contínua, que valorize não apenas os resultados, mas também as histórias das atletas e os desafios enfrentados pela modalidade.

Para María, o futebol feminino colombiano possui talento suficiente para alcançar resultados ainda mais expressivos, mas precisa de planejamento, investimento e maior compromisso das instituições responsáveis por sua organização. A jornalista considera fundamental fortalecer as categorias de base e oferecer condições para que as atletas possam desenvolver suas carreiras.

“Acredito que a Colômbia pode ser muito melhor do que já demonstrou. Temos qualidade e jogadoras capazes de alcançar resultados importantes, mas precisamos de uma estrutura que permita desenvolver todo esse potencial.”

A expectativa para a Copa do Mundo de 2027 também passa pelo potencial da seleção colombiana, que chegou às quartas de final na edição de 2023, disputada na Austrália e na Nova Zelândia. María espera que a equipe continue evoluindo, mas ressalta que os resultados precisam ser acompanhados por mudanças estruturais no futebol nacional.

Para ela, os veículos independentes são fundamentais nesse processo, especialmente porque a cobertura dos grandes meios de comunicação ainda é irregular. São esses projetos que mantêm as jogadoras em evidência, registram suas conquistas e ajudam a ampliar o reconhecimento do futebol feminino.

“Nós, como veículos independentes e alternativos, damos visibilidade ao futebol feminino e ajudamos para que ele continue crescendo. Trata-se de valorizá-lo, dar a importância que merece e garantir que seja visto”, destaca María.

Clubes e Conmebol podem apoiar a cobertura independente

Jornalistas da América do Sul reunidos na cobertura da Libertadores Feminina (Foto: Divulgação)

A presença desses profissionais em Quito também evidenciou a necessidade de melhorar o relacionamento entre a imprensa independente e as instituições esportivas. Embora existam restrições relacionadas aos direitos de transmissão, clubes e Conmebol poderiam ampliar o acesso a entrevistas, coletivas e materiais informativos, especialmente para jornalistas estrangeiros interessados em atletas de seus países que atuam em equipes brasileiras. Um exemplo positivo ocorreu na coletiva do Corinthians antes da final, quando profissionais de outras nacionalidades também puderam participar. Facilitar esse contato não beneficia apenas os veículos especializados, mas também amplia a visibilidade internacional dos clubes e das jogadoras.

Uma Copa do Mundo para toda a América do Sul

A proximidade da Copa do Mundo Feminina de 2027 representa uma oportunidade para o futebol sul-americano e para os profissionais que acompanham seu desenvolvimento. Pela primeira vez, o torneio será realizado na América do Sul, colocando a região no centro das atenções internacionais e abrindo espaço para histórias que nem sempre chegam aos grandes veículos.

Belén, Pocho, Milagros e María são jornalistas que ajudaram a construir a memória da modalidade em seus países e que agora se preparam para acompanhar um dos momentos mais importantes de sua história.

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