A vida em movimento: como esporte ajudou jovem de 25 anos a superar câncer

Primeira corrida de Fernanda após a quimioterapia (Crédito: Fotop)

A gente imagina muita coisa aos 25 anos de idade. Mas nunca imagina que vai entrar em um consultório para examinar uma tosse, e sair, depois de muitos exames, com um diagnóstico de câncer.

O tom dessa história poderia ser mais triste, não fosse a protagonista dela tão cheia de sonhos, de metas, e de tamanha resiliência, que só  mesmo o esporte poderia trazer.

Fernanda Marques comemorou recentemente seu 26º aniversário com o alívio de quem, literalmente, nascia de novo após um período de dor, mas sobretudo muito aprendizado. No ano passado, ela que sempre foi “atleta amadora”, começou a ouvir sinais do seu corpo de que algo não estaria bem. As corridas de sempre estavam ficando impossíveis de completar. Faltava fôlego, faltava perna, e ela foi em busca da explicação para tudo isso.

“Eu descobri o linfoma em novembro de 2018. É até engraçado, porque eu vinha sentindo várias coisas diferentes no meu corpo e não sabia descrever. E uma coisa marcante era que isso me limitou na atividade física. Eu não conseguia correr, nadar, fazer as coisas que sempre fiz. Comecei a buscar vários especialistas, cheguei a fazer tratamento para bursite, aí teve uma vez que uma tosse me incomodou e eu fui ao pronto-socorro. Dali fiz raio-x, depois ressonância, depois tomografia, e aí veio o diagnóstico. O esporte me ajudou a descobrir isso, de certa forma”, contou Fernanda, em entrevista às dibradoras.

O que estava limitando as atividades dela era um linfoma na região do mediastino (região torácica), e seria preciso fazer algumas sessões de quimioterapia para curar a doença. A palavra “linfoma”, que remete a câncer, sempre vem com uma dose gigantesca de pessimismo – como Fernanda mesmo descreve, “todo mundo acha que vai morrer” quando ouve um diagnóstico desses. Mas a médica usou a maior paixão dela para mostrar que o quadro era mais otimista do que poderia parecer.

Fernanda foi atleta universitária na Cásper Líbero fazendo parte da equipe de natação (Foto: Victor Fotografias)

“Ela me disse: você tem um linfoma, nós vamos começar o tratamento agora e no ano que vem você estará correndo a São Silvestre. Isso me ajudou muito a encarar aquilo de uma forma positiva. Eu pensava: vai passar e daqui a pouco eu vou estar bem de novo”, contou.

‘Minha vida tem que estar sempre em movimento’

Desde pequena, Fernanda sempre praticou todos os tipos de esporte, da natação à ginástica olímpica, do futebol ao handebol, passando pela corrida na fase adulta. Em 2017, completou duas meias-maratonas e o plano em 2018 era seguir esse ritmo para, quem sabe um dia, estar preparada para competir a prova dos seus sonhos no triatlo. Mas no ano passado, até mesmo as corridas de 9km ficaram difíceis para Fernanda completar. Quando veio o diagnóstico que explicou essa dificuldade, a estratégia dela foi encarar as quimioterapias da mesma maneira que encarava as provas de longa distância.

“A estratégia que eu usei nas meias-maratonas que corri foi dividir a prova em ciclos de 7km. Aí eu ia pensando quando acabava cada ciclo: pronto, já foi um ciclo, faltam dois. No caso das quimios, eu dividi como se fosse uma prova de triatlo. Eram 6 ciclos, que dividi na minha cabeça como dois de natação, dois de bicicleta e dois de corrida. Aí, em vez de ir pensando ‘ainda faltam tantas pra acabar’, eu pensava ‘já foram tantas sessões’. Então, por exemplo, os primeiros dois ciclos na minha cabeça eram da natação. Aí passava um e eu pensava ‘já passei por metade das provas de nado’. Era tudo uma estratégia da minha cabeça, mas que ajudou a encarar mentalmente as quimioterapias de uma forma melhor”, afirmou.

Foto: Arquivo Pessoal

De novembro de 2018 a março deste ano, Fernanda vivia a mesma rotina todos os meses: uma semana internada no hospital para as sessões de quimio e duas semanas em casa. Mas para levar adiante seu lema de “vida em movimento”, ela não parava nem mesmo quando estava no hospital. Virou conhecida dos enfermeiros do hospital por ser a “paciente que caminha”. Todos os dias em que esteve internada, ela buscava ao menos dar uma volta andando pelo corredor.

“Eu ficava em uma ala específica para pacientes oncológicos. Eu tinha fisio de manhã e à tarde. Durante o intervalo, eu sempre saía pra andar no corredor. Eu ficava sempre presa ao soro, mas gostava de andar, mesmo quando estava com dor, porque me ajudava muito no processo. Os enfermeiros até sabiam quando não me viam no quarto: ‘ah, a Fernanda está caminhando’. E isso era o máximo de atividade que eu conseguia fazer lá. Mas me ajudava a não ficar presa num quarto fechado o dia inteiro. Eu queria andar, mexer. Por eu ter histórico de esportes ao longo da vida, isso me fazia querer fazer algum movimento”, contou.

“O meu grande desafio era entender que meu corpo não respondia da mesma forma que antes”.

Foto: Arquivo Pessoal

O retorno

As caminhadas no hospital ajudaram a manter Fernanda ativa e otimista durante os períodos de quimioterapia. Era uma forma de lidar melhor com todas as dores e dificuldades do tratamento, incluindo até mesmo o baque da queda de cabelo.

“Eu falo que precisei ficar careca para me sentir bonita. É louco, mas é verdade. No dia do diagnóstico, a médica falou que a única coisa ruim era que ia cair o cabelo. Só que não cai muito a ficha. Quando você vê, caem chumaços e chumaços de cabelo. Decidi raspar de vez porque estava me incomodando. Aí no começo eu não queria ver, olhava sem querer no reflexo box na hora do banho. Mas depois tive coragem, me olhei no espelho. Dá  um baque enorme, porque você nunca se imagina assim. Mas hoje eu brinco que até tenho saudades da minha careca.”

“Hoje sai por aí. Pelas ruas de sampa. Sem rumo. Sem pressa. Sem relógio. Apenas agradecida por estar do lado de cá do hospital. Que sensação, amigos”, escreveu Fernanda alguns dias após o fim do tratamento (Instagram @femarquesporai)

Foi assim, com leveza e muita coragem, que Fernanda foi levando todos os meses de quimioterapia até a liberação para que fosse voltando às suas atividades normais. Em março, acabaram as sessões no hospital, mas ela permaneceu com algumas limitações e foi voltando às caminhadas aos poucos. Em junho, fez o exame que detectou o que tanto esperava: nenhum resquício do linfoma no seu corpo. A resposta que precisava para sentir-se pronta para o próximo desafio: a primeira corrida pós quimio, no último dia 4.

“Eu fui logo para uma prova de 9km. Pensei: não preciso correr a distância toda, posso intercalar corrida e caminhada. Ao longo do percurso, eu estava me sentindo tão bem que eu fui correndo. Caminhei muito menos do que eu esperava. O primeiro quilômetro foi muito difícil. Dali em diante, concentrei em mim, respiração, passada, os detalhes. e só curti a prova”, disse.

“Só que no último quilômetro, eu comecei a me emocionar muito, veio filme na minha cabeça. No ano passado, fiz essa prova e passei muito mal, foi muito frustrante. Aí começou a vir um choro inevitável. Eu fechei a prova em 1h01, eu nem esperava. O meu mental estava muito mais leve e por isso que eu consegui ir tão bem”.

Foto: Arquivo Pessoal

É verdade que ninguém pode prever um diagnóstico tão surpreendente e tão difícil quando ainda se é tão jovem. Mas se o esporte não consegue prevenir todas as doenças, não há dúvidas de que ele ajuda muito a superá-las. Foi pela corrida que Fernanda descobriu seu linfoma – e também foi por ela que a jovem de apenas 25 anos encontrou forças para enfrentar as dificuldades que o câncer impôs de peito aberto, sem desanimar.

“Tinha dias que eu não queria comer, mas eu pensava: eu tenho que comer, se eu não estiver alimentada, eu não vou ficar bem. O esporte traz isso, essa disciplina, resiliência. A cabeça já está condicionada a abrir mão de uma coisa pra conseguir outra”, diz.

“Uma mensagem que eu queria mandar para o mundo é que não, não precisa ter dó (de quem tem câncer). Calma, tem muita vida por aí. Você reclama de tanta coisa besta, aí quando você vê uma pessoa que passa por essas coisas, que se esforça, não desiste fácil, você vê o que vale a pena. Eu sempre pensei que não seria o câncer que iria me abalar. E não me abalou, eu sou uma pessoa muito melhor hoje.”

 

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