Futebol Feminino

Uruguai faz história com transmissão 100% feminina em jogo que garantiu vaga na Copa do Mundo

Antonela Lima, KarenTodoroff e Daiana Abracinskas cresceram fanáticas por futebol, acompanhando de perto a seleção uruguaia em todos os jogos. Elas são de gerações diferentes, mas tiveram algo em comum ao longo da infância e da adolescência na paixão pela Celeste: todas as partidas que viram foram narradas e comentadas por homens.

Mas por incrível que pareça, isso não inibiu Antonela de seguir imitando os relatos que ouvia na televisão e, vira e mexe, quando estava brincando ou mesmo tomando banho, ela fingia estar narrando um gol do Uruguai em uma Copa do Mundo.

Naquela época, isso parecia inatingível: não havia absolutamente nenhuma mulher narrando jogos de futebol na TV – nem no Uruguai, nem no resto do mundo. Mas na última semana, essa história mudou. Antonela, Karen e Daiana protagonizaram a primeira transmissão 100% feminina de uma partida de futebol no Uruguai.

Foi a primeira vez que Antonela teve a chance de narrar um jogo profissionalmente. E não poderia ter sido melhor: foi ela quem anunciou os 4 gols uruguaios que garantiram a classificação direta da Celeste para a Copa do Mundo da Rússia – a primeira vez desde 1998 que a seleção uruguaia conseguiu uma vaga direta no Mundial, sem repescagem.

Uma transmissão histórica, com três mulheres narrando e comentando um jogo da importância de uma eliminatória.

“Eu assistia a todos os jogos quando era criança, criei um amor (pelo futebol). E ficava imitando as narrações, estava assistindo e aí começava a narrar. Só que nunca tinha uma mulher narrando (nas transmissões). Então eu gosto desse desafio”, disse Antonela, ainda nos dias que antecederam a narração inédita.

“O futebol é um mundo muito machista. Estamos acostumadas a ouvir só a voz masculina. Mas vamos demonstrar que ‘si se puede’”.

A iniciativa, infelizmente, não veio de nenhum canal de TV. Na verdade, tudo começou com uma campanha criada por uma empresa farmacêutica uruguaia:

“La historia puede cambiar. Hay otro relato posible #ElOtroRelato” – na tradução livre: “A história pode mudar. Há outra narração possível #AoutraNarração”

Em uma ação de marketing para lançar sua nova página no Facebook chamada “No te Olvides”, que divulga os anticoncepcionais da farmacêutica e fala sobre saúde feminina, a Urafarma promoveu essa transmissão 100% feminina do jogo da Celeste.

Antonela narrando o primeiro gol do Uruguai em cima da Bolívia

Seleção

As comentaristas foram escolhidas com base na experiência que tinham no futebol. Tanto Karen, quanto Daiana, já trabalham na imprensa esportiva uruguaia há quase 10 anos e lidam no dia a dia com as dificuldades disso.

“Nao é fácil para as mulheres entrar no jornalismo esportivo. A gente precisa romper barreiras e isso não é facil”, pontuou Daiana.

“Queremos que nos tratem como iguais, queremos igualdade de oportunidades. Isso (a transmissão) é histórico!”

Já a escolha para quem iria narrar a partida foi feita por meio de um processo seletivo. Aos 21 anos, Antonela está na faculdade de jornalismo e sonhava ter a chance de um dia poder narrar um jogo de futebol. O destaque dela foi justamente na última fase do processo, quando o desafio era narrar a famosa cavadinha do pênalti batido por Loco Abreu nas quartas-de-final da Copa do Mundo de 2010 contra Gana, em um jogo épico que classificou a Celeste para as semifinais.

Os selecionadores gostaram tanto do resultado e da paixão com a qual Antonela narrou aquele gol, que cancelaram as buscas por outras concorrentes. A partir daí, ela começou sua preparação para narrar “de verdade” – até que no dia 10 de outubro, em pleno Estádio Centenário, a jovem teve a chance de fazer aquilo que sempre sonhou na última partida das eliminatórias para 2018 entre Uruguai e Bolívia.

Naquela noite, rodeada por homens em todas as outras cabines da imprensa, Antonela pôde narrar seis gols – por ironia do destino, todos uruguaios, apesar de o placar ter sido 4 a 2. Gastón Silva e Godín marcaram contra, e Cáceres, Cavani e Suárez duas vezes garantiram a vitória dos uruguaios por 4 a 2.

A transmissão pelo Facebook teve mais de 118 mil visualizações e outros 2 mil compartilhamentos. Ela não mostrava o jogo (nem podia fazê-lo por conta dos direitos de imagem), mas registrava todas as reações e os comentários das três mulheres na transmissão.

Se por um lado, elas não esconderam a “parcialidade” da torcida pelo Uruguai, por outro elas também não censuraram as críticas quando jogo estava com placar adverso de 1 a 0 para os bolivianos.

“Dê mais direção à bola Suárez, por favor, como no Barcelona”, afirmou Antonela.

Daiana também mencionou a falta de pontaria dos atacantes uruguaios. “A Bolívia só teve duas chances. Somos nós que estamos precisando acertar o gol”, comentou durante a transmissão.

As críticas e a torcida deram certo, e o Uruguai virou o jogo para não deixar dúvidas na classificação: com o segundo lugar do grupo garantido, a Celeste carimbou sua passagem para o Mundial, desta vez sem precisar visitar a repescagem.

Poderíamos até mencionar aqui os comentários machistas que surgiram ao longo da transmissão, mas isso é apenas um detalhe. O protagonismo aqui é – e precisa ser – todo delas. Essa matéria é sobre a primeira transmissão de futebol só com mulheres no Uruguai. Isso é história – o resto vai ficar no passado.

Para ver como foi a transmissão 100% feminina, clique aqui.

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