Futebol, Futebol Feminino

Uma carta de Marta para Marta

FRANKFURT AM MAIN, GERMANY - JULY 06:  Marta of Brazil during the FIFA Women's World Cup 2011 Group D match between Equatorial Guinea v Brazil at FIFA World Cup Stadium Frankfurt on July 6, 2011 in Frankfurt am Main, Germany.  (Photo by Kevin C. Cox - FIFA/FIFA via Getty Images)
(Photo by Kevin C. Cox – FIFA/FIFA via Getty Images)

A história de Marta Vieira da Silva é conhecida por muita gente. Mas na carta abaixo, publicada no excelente site “The Players Tribune”, dá para sentir em cada linha o esforço, o preconceito, a dedicação, a luta, e o merecimento de Marta por cada troféu que ela já conquistou.

Um texto foi escrito por ela para sua versão de 14 anos, a idade em que ela teve de tomar a maior decisão de sua vida: viajar de Dois Riachos para o Rio de Janeiro para um teste que sequer estava confirmado. Seria uma viagem sem volta para conquistar, literalmente, o mundo.

A história de Marta começa como a de milhões de outras garotas em todo o planeta, que ainda são impedidas de jogar futebol “pelo simples fato de serem meninas”. Mas as palavras aqui dão o combustível que qualquer uma delas precisa para não desistir.

Mirem-se no exemplo daquela menina de Dois Riachos.

Aqui, reproduzimos a carta em português na íntegra:

Cara Marta de 14 anos,

Entre no ônibus.

Eu sei o que você está pensando. Sei o que você está sentindo.

Mas não pense nisso. No quanto você está assustada, no quanto você está nervosa. E no quanto todo mundo disse que você não poderia fazer isso. Que você não DEVERIA fazer isso.

Não pense em nada disso.

Só entre no ônibus.

Esse ônibus, acredite, vai te levar em uma viagem de três dias até o Rio de Janeiro.

Esse ônibus vai deixar para trás sua família e os 11 mil habitantes de Dois Riachos (AL). Ele vai passar por estradas sujas, por uma paisagem verde, que vai virar montanha e aí finalmente a cidade.

Esse ônibus…vai te levar para o seu sonho, seu sonho de se tornar uma jogadora de futebol. E vai te trazer tantas coisas mais…

Vai te levar para campeonatos europeus, para Copas do Mundo, para Olimpíada, vai te trazer prêmios de Melhor Jogadora do Mundo (isso nem existe ainda).

Vai te levar para estádios onde você vai jogar para dezenas de milhares de pessoas.

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Vai te levar para lugares onde camisas e chuteiras serão feitas só pra você.

Vai te levar para o mundo inteiro, e a sua chegada vai significar algo. Você vai ajudar a construir o futebol feminino nos Estados Unidos. Vai ser parte do novo time de Orlando.

Vai fazer o futebol se tornar possível para meninas, de uma forma que nunca foi possível para você.

Sei que hoje você não vai conseguir ver nada disso. E parece uma decisão enorme essa de entrar no ônibus. Você nem sabe o que pode acontecer quando você chegar no Rio de Janeiro. Mas confie em mim quando eu digo que, depois de tudo o que você já passou, você pode fazer isso.

Você já lutou muito Marta. Você é mais forte do que pode imaginar.

Mesmo crescendo em uma cidade pequena, como Dois Riachos, você se destacou. Não pelo seu talento. Não, você teve de enfrentar olhares preconceituosos e comentários maldosos só porque você era menina. Uma menina que amava futebol.

Não havia nenhuma outra menina ali que jogava futebol. E as pessoas fizeram questão de dizer isso para a sua mãe.

“Ela não é normal”.

“É estranho para uma menina jogar futebol.”

“Por que você a deixa fazer isso?”

Parecia que nem sua mãe estaria ali para você. E, de certa forma, ela não estava. Depois que seu pai a deixou, quando você ainda era um bebê, ela teve que cuidar sozinha de você e três irmãos. Ela saía de casa às 5h da manhã para trabalhar na plantação. Passava o dia todo arando a terra, plantando, para só voltar à noite.

Quando chovia, ela pegava água da chuva para ajudar a cultivar alimentos – para que a família pudesse ter algo para comer em casa. Quando ela não estava na fazenda, ela ia para a prefeitura onde fazia limpeza e servia café. Por isso, a gente não conseguia vê-la muito. Ela não tinha chance de ir assistir aos seus jogos ou ver você jogar.

Mas, no fundo, ela está lá para você. Porque toda vez, toda santa vez, que alguém na cidade vinha falar mal de você, ela sempre respondia a mesma coisa:

“Deixa ela.”

A questão é que sua mãe não achava que estava lá para você também. Não estava ali para te ensinar nada diferente. Para te mostrar “como ser uma menina”. Então tudo o que você sabe é assistir ao futebol na TV e sonhar com o dia em que você estará jogando profissionalmente. Tudo o que você sabe é brincar e jogar com os meninos na cidade.

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Mas só quando eles deixam.

Porque eles sempre tinham aquele plano idiota. Você pode jogar, diziam, mas só no time daqueles meninos do bairro que não eram tão bons.

Não que isso te atrapalhasse.

“Eu jogo com quem for” ,você dizia para eles toda vez.

E realmente não te atrapalhava. Porque mesmo quando você jogava com os meninos que não sabiam direito, seu time ganhava mesmo assim. Toda. Santa. Vez.

Você mostra para eles: você é uma menina e você PODE jogar futebol.

Mas não importa quantos gols você faça, os comentários, as piadas, o preconceito….tudo isso não vai parar. Mesmo quando você foi jogar no time da cidade, as pessoas continuavam com murmúrios quando você passava. Você sabe que nem seu talento agora vai fazê-las parar.

E todos esses momentos – enquanto os meninos estavam se trocando no vestiário e você estava sozinha em qualquer banheiro pequeno do outro lado, tentando se encaixar numa camiseta que era enorme para você e em um short que ficava abaixo do seu joelho – eram todos solitários.

Por um tempo, aliás, futebol seria algo solitário para você.

Lembra daquele campeonato algumas semanas atrás? Quando seu time de Dois Riachos jogou em Santana do Ipanema valendo um troféu da região? Você já tinha jogado esse torneio antes, já era conhecida por seu talento como um dos principais destaques. Mas isso não importava. Porque nesse ano, outro técnico de um dos times adversários disse que, se eles tivessem que jogar contra você, ele tiraria a equipe do campeonato.

“Isso não é lugar para menina”, ele disse.

É importante dizer que os organizadores e o seu time também te apoiaram. Mas nós sabemos que não funcionou. As coisas simplesmente eram assim. E você ficou for a do Campeonato, claro. Era mais fácil assim, eles disseram.

Tirem a menina. Assim os meninos podem jogar.

Você ainda se lembra das lágrimas inundando seus olhos?

Eu sei que isso não faz sentido para você agora. Eu sei o que você se pergunta todos os dias.

Por que Deus me deu esse talento, se ninguém quer que eu jogue?

Mas use isso. Use isso para sua força e motivação.

Use para lutar, Marta. Lute para provar que todo mundo está errado – todo mundo que pensa que lugar de mulher não é no campo.

Lute contra o preconceito deles. Lute contra a falta de apoio. Lute contra tudo – os meninos, as pessoas que disseram que você não podia.

Lute.

Lute para ser aceita.

Porque nós duas sabemos que só é preciso uma pessoa para mudar as coisas. É por isso que você está aqui agora, de pé, na frente desse ônibus, certo? Tem um cara chamado Marcos, ele é do Rio e amigos do seu primo mais velho, roberto, e do seu amigo Luiz Euclides. Marcos conhece algumas pessoas e eles estão tentando um teste para você com o time feminino do Vasco.

Não tem nenhuma garantia desse teste, mas é alguma coisa. E é mais do que você vai ter se tiver que ficar em Dois Riachos.

Roberto pediu para o Marcos e ele ajudou a pagar a passagem do ônibus. Acho que ele sabe que você pode conquistar alguma coisa se sair de Dois Riachos.

(Foto: Buda Mendes/Getty Images)
(Foto: Buda Mendes/Getty Images)

Você sabe disso também.

E o futebol vai ser a forma que você vai conseguir isso, vai ser o seu sucesso, a sua felicidade. Não tem sido fácil, mas, acredite em mim, as coisas vão mudar.

Mas primeiro você vai ter que esperar um pouco mais quando chegar ao Rio. Você vai ficar num apartamento com a família de Marcos enquanto espera a ligação para o teste. Você vai dormir na sala. E todos os dias quando você acordar, você vai ver sua chuteira ali do lado, esperando.

Você trouxe novas chuteiras para o teste. Mas olhar para elas faz você se lembrar das antigas chuteiras que ficaram em casa. As que fizeram você chegar até ali.

Você sabe de qual chuteira eu to falando. A que um avô de um colega do time te deu. Lembra o dia em que ele te deu? Nunca mais você iria treinar descalça. Nunca mais teria de emprestar chuteiras de outra pessoa para um jogo.

Era a sua chuteira. Não tinha marca, era usada, maior do que seu pé e cheia de jornal no bico para fazer com que elas te servissem. A melhor chuteira do mundo.

Mas você tem que olhar pelo lado profissional. Só um pouco de confiança e essas novas chuteiras, assim como você, estariam prontas para mostrar o que sabem.

Um dia passou, nenhuma ligação.

Outro dia passou, e o telefone não tocou.

Outro dia. Nenhuma ligação ainda.

Você vai começar a pensar por que veio até aqui, com nenhum teste garantido. Só esperança. Mas apenas espere e seja paciente. Ainda vai levar alguns dias, mas você vai receber a ligação. “É hoje”, o time vai te dizer.

E você vai pegar as chuteiras e ir para o campo. Quando chegar lá, você vai ver algo que nunca viu antes.

Um campo com mulheres jogando futebol.

Elas não estão brigando por uma vaga no time. Ninguém passa ali encarando. Estão apenas ali…no campo…jogando.

Vai ser incrível.

Mas a sua timidez vai te dominar. O time principal está ali com o sub-19, aquele com quem você vai jogar para o teste. E apesar de você finalmente se encontrar ali com meninas jogando futebol, você vai se sentir um pouco…diferente. Essas meninas são mais velhas, da cidade. São legais, são profissionais. E você?

Você é uma menina mirrada, de 14 anos, de uma região pequena e tem um sotaque do Norte. Bicho do mato, é do que elas vão te chamar.

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Mas você pretence ao campo. Com elas. Você é parte do jogo.

Você não vai abrir sua boca, vai ficar com muito medo de eles tirarem sarro do jeito que você fala. Então vai fazer o que sempre fez.

Deixe o futebol falar por você. Expresse-se no campo.

E quando você entrar lá, seu primeiro toque na bola será um chute tão forte que vai acertar as costas da goleira quando ela tentar defender. E a bola vai rolar para o gol. Cabeças vão se virar para você. Mas os olhares não serão pelo mesmo motivo que eles aconteciam em Dois Riachos. Eles não vão te encarar se perguntado “por que você está aqui?”

Não. Dessa vez, eles estarão pensando: “você é real?”

E aí uma pessoa finalmente vai falar. Será Helena Pacheco, a coordenadora do time feminino do Vasco. “Nós a queremos com a gente”.

Com a gente.

É isso. Você pertence ao campo. Com elas. Você faz parte do jogo.

Mas esse é só o começo, porque você vai fazer parte de mais coisas. Você vai ser a mudança no jogo das mulheres. Vai mostrar para outras meninas que sentiam que elas não pertenciam ao campo que, sim, elas pertencem.

Pertencem ao campo.

O futebol vai crescer e você vai estar ali para isso. A Confederação Brasileira de Futebol está começando um torneio nacional para mulheres. No seu primeiro ano, você vai ganhar o prêmio de melhor jogadora do campeonato sub-19.

Vai ser difícil. O dinheiro, bom, ele não vai ser muito. Só um pouco que você vai enviar para a sua mãe. Você vai ficar com Marcos e a família dele de novo. Você não pode pagar por nada além disso.

Mas você é uma jogadora agora. Quero que se lembre disso. Porque isso é o que importa.

E não se esqueça disso. Especialmente quando, um ano e meio no Vasco, você vai receber uma notícia. O presidente do clube está cortando o dinheiro do time feminino. Esse é apenas mais um obstáculo, então continue em frente. Jogue futsal – você terá apenas uma pequena quantidade de jogos no fim de semana. Mas você não pode voltar para Dois Riachos.

Você não pode. Não ainda.

Porque você vai ser convocada para a seleção. E depois vai conseguir um novo contrato para jogar em um time em Belo Horizonte.

Você vai jogar a Copa do Mundo Sub-19 em 2002 no Canadá. Depois vai para a Copa do Mundo de 2003, nos Estados Unidos.

E aí uma coisa estranha vai acontecer.

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Uma TV sueca vai fazer uma matéria com Robinho, que estava jogando muito bem pelo Santos. E eles vão falar também sobre o jogo das mulheres.

“Tem uma jogadora nova, bem promissora, chamara Marta Vieira da Silva…”

Você não vai pensar muito nisso. O programa vai ao ar na Suécia e é só isso.

Mas aí você vai receber uma ligação da Suécia.

“Oi, eu sou Odin Barbosa, trabalho com o presidente do Umea IK. E nós queríamos te contratar.”

Odin está falando com você em Português. Então você vai pensar que é um trote. Afinal de contas, por que alguém estaria te ligando da Suécia? E falando português? Você não sabia nem onde ficava a Suécia no mapa. Claro, você já tinha jogado contra elas, mas você não sabe nada sobre o país. Ou sobre quem seria esse cara.

“Vá se f*”

Bom, me faz um favor? Pense numa resposta melhor, tá? E ouça o que Odin tem a dizer. Porque não é uma piada. Você vai descobrir isso quando o jornalista sueco que fez a matéria com você te confirmar: ele é real.

E esse time, Umea IK, é real também.

Eu sei que você não vai acreditar em mim quando eu te disser isso, mas esse país novo, diferente, vai ser como uma segunda casa para você. Provavelmente você não vai sentir isso quando seu avião pousar – vai estar tão escuro, que você vai se perguntar se eles realmente jogam futebol ali.

Você vai pensar: “O que eu estou fazendo aqui?”

O que você estará fazendo, na verdade, é a melhor decisão da sua vida. O jogo das mulheres…é diferente aqui. É levado a sério. Você vai se tornar uma atleta na Suécia. Sinceramente, sem ir à Suécia, você não vai se tornar a jogadora que você pode ser.

E é aí que começa a ficar legal.

Lembra que eu disse que você faria parte de algo? Bom, na Suécia, isso significa levar um pouco do seu estilo brasileiro para o campo. O jogo lá vai ser um pouco…apertado…um pouco restrito…um pouco sistemático.

Ensine para elas, Marta – como improvisar, como se expressar em campo.

E faça história.

Um título de campeã europeia, sete títulos nacionais, um gol aos 45 do segundo tempo para vencer a Copa da Suécia, outro título do mesmo torneio…

E vá seguindo, por todo o mundo, jogando futebol.

É incrível o quanto o jogo mudou para as mulheres. Mas em muitas formas, você vai achar que sempre será um pouco mais difícil para as meninas. Ligas e clubes vão se formar e vão acabar. Mas uma coisa você vai perceber – seja no Brasil, na Suécia, ou agora, de volta aos Estados Unidos, no Orlando Pride – é que as mulheres sempre compartilham uma coisa: uma história difícil…e o amor pelo futebol é o que continua guiando todas elas.

RIO DE JANEIRO, RJ, BRASIL, 26-07-2007: Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, 2007: Futebol Feminino: Seleção brasileira 5 x 0 Seleção dos EUA: a meio-campista Marta comemora a medalha de ouro conquistada pela seleção brasileira nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro de 2007, depois de vitória por 5 a 0 sobre a seleção dos EUA, no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro (RJ). O Brasil conquistou a medalha de ouro. (Foto: Moacyr Lopes Junior/Folhapress)
(Foto: Moacyr Lopes Junior/Folhapress)

A língua será uma barreira nos times que você vai jogar. Mas atuar ao lado de jogadoras como Mia Hamm, Abby Wambach, Christine Sinclair…você vai ver. Você não vai precisar de palavras. Você vai ver a mesma garra e determinação no campo.

É isso que fica depois de anos ouvindo que você não podia fazer isso ou que aquele lugar não é para você.

É a dedicação que vai sobressair, e você vai continuar dando tudo de si mesmo enfrentando preconceito o tempo todo, enquanto segue lutando por aceitação e respeito.

Então pense em quanto você se sente sozinha agora quando eu te digo isso: no mundo inteiro, existem meninas que sentem a mesma coisa. Meninas que são encaradas, que têm que responder por que estão ali, meninas que são excluídas de campeonatods, xingadas…

Mas essa solidão não vai durar. E não vai demorar muito até vocês todas estarem jogando juntas.

Eu sei que agora, com 14 anos, tudo o que você quer é sair de Dois Riachos. Então isso vai parecer loucura, mas um dos melhores momentos da sua carreira vai acontecer lá. Você vai viajar o mundo todo, mas Dois Riachos vai mexer com você.

Você vai voltar para casa. Será 2006 e você vai ter acabado de ganhar o prêmio de Melhor Jogadora do Mundo pela primeira vez (exatamente, essa será só a primeira). Haverá multidões nas ruas para te receber. Todo mundo vai querer ver a heroína que está voltando. Você vai até desfilar num carro de bombeiros.

Você não será mais rejeitada. As mesmas pessoas que diziam que você era estranha, que não poderia jogar, que não deveria jogar…elas estarão te aplaudindo quando você passar.

Você é uma mulher. E você é uma jogadora.

Eu sei que tudo isso parece muito distante agora, quando você está na rua olhando para o ônibus. Mas tudo está ali. E o primeiro passo para chegar até isso está a 2 mil quilômetros de distância.

Acredite em você. Acredite no seu instinto. E você vai descobrir por que Deus te deu esse talento. Você não vai se perguntar mais nada. E ninguém vai te perguntar mais nada.

Apenas entre no ônibus.

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