Futebol Feminino

Um dia na pele de uma árbitra de futebol

*Na Semana da Mulher, as dibradoras estão fazendo matérias especiais sobre Mulheres no Esporte. Essa é mais uma da série – veja as outras aqui.

“Renata, eu te amo! Casa comigo!”. Esse grito me chamou a atenção na hora que eu cheguei às arquibancadas do estádio do Juventus na rua Javari. “Caramba, quem poderia me conhecer aqui?”. Passei os olhos e não reconheci ninguém, então achei que era coisa da minha cabeça.

Não demorou muito até que eu entendesse para quem esses gritos eram direcionados. “Pqp, vai lavar louça!”; “Tinha que ser mulher…”. Na hora, parei de prestar atenção no jogo e olhei para a lateral do campo. Estava ali o alvo dos gritos. Renata Ruel era a bandeirinha daquela partida e desde os primeiros minutos de jogo já estava sendo “colocada no seu lugar” pelos torcedores.

Dali em diante, decidi que prestaria mais atenção no que acontecia com ela do que na bola que rolava em campo. E devo dizer que, apesar de não ter ficado surpresa com o que ouvi – toda mulher está acostumada a lidar com isso, infelizmente -, bufei de raiva inúmeras vezes ao me colocar no lugar da outra Renata que estava ali, aquela que estava apenas tentando trabalhar e que sequer podia esboçar reação para tudo o que estava ouvindo.

“Bandeirinha gostosa!”. “Casa comigo, bandeirinha, eu trago um padre agora”. “Bandeirinha, não te conhecia, mas sempre te amei.” “Olha, você tá de parabéns, hein, bandeirinha”. “Que saúde!”.

De repente, lance polêmico. “Volta pra cozinha!”. “Seu lugar é no tanque!”.

Tudo bem, de início, os gritos vinham da arquibancada e, mesmo com a proximidade dela com o campo, é bem possível que Renata sequer tenha ouvido os insultos – ela já deve ter treinado muito para abstrair isso.

Mas eis que em determinado momento, ainda no primeiro tempo, três senhores de meia idade (deviam ter entre 30 e 40 anos) se levantaram e foram até o alambrado. E a partir daí, passaram a seguir Renata pra onde ela corresse. Quem conhece o estádio do Juventus, sabe. Ali, o alambrado – por sinal, uma das melhores coisas do futebol que ainda resiste na Javari – deixa uma distância ínfima entre o torcedor e o campo. Eles estavam a menos de 1 metro dela. E gritavam:

“Delícia, você é uma delícia”. “Com essa eu casava”. “Bandeirinha, você é demais”. “Que pernas, meu Deus do céu!”.

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Eu fiquei ao lado deles o tempo inteiro. E admito que faltou coragem para mandá-los para aquele lugar. Eu quase, quase, quase fiz isso, tive até de sair de perto sussurrando um “vai tomar no c*”. Não ergui a voz, não comprei a briga e até me sinto mal por isso. Mas eu sabia que ali, no estádio, eu seria minoria. Fiquei com medo da reação que receberia se eu reclamasse das coisas que eles estavam dizendo à mulher que estava tentando apenas fazer seu trabalho.

Mas em tudo isso, eu só conseguia pensar na cabeça da Renata. E comecei a imaginar como seria se eu tivesse que conviver com a mesma coisa. Se quando estivesse escrevendo as minhas matérias, tivesse dois, três, cinco caras atrás de mim fazendo comentários sobre o meu corpo ou ainda me mandando voltar para a pia para lavar a louça. E tudo isso sem poder dizer NADA. Sem poder sequer virar para olhar no olho daqueles que me insultavam.

Eu não conseguiria. Simplesmente não conseguiria. Certamente me desconcentraria, esqueceria o texto, o jogo, esqueceria o que quer que estivesse fazendo e pensaria apenas na raiva e na vontade de responder a esses covardes.

São covardes mesmo. Porque essas cantadas só servem para eles mostrarem o poder que acham que têm sobre nós. Nenhum daqueles três que passaram praticamente os 90 minutos assediando a bandeirinha tinha intenção de sair com ela depois do jogo. Se, dado o apito final, ela virasse para eles e dissesse “me encontrem no vestiário”, nenhum deles iria. A reação provavelmente seria “não, moça, eu sou casado, não dá”. Mas eles sabem que ela não pode dizer nada – e é aí que a “coragem” deles cresce.

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A mesma Renata Ruel que estava ali foi uma de nossas entrevistadas no podcast #19 e ela contou que já ouviu até mesmo de mulheres o famoso “volta para a cozinha” dentro do estádio. “A gente fala do preconceito masculino, mas o preconceito da mulher ainda é muito grande. E dói, viu. A hora que você escuta da mulher ‘Vai pra cozinha, vai lavar a louça’…você pensa: ‘poxa, não é possível que eu estou escutando isso de uma mulher’”,

E não estou dizendo aqui que não pode xingar o árbitro ou a árbitra. Eu também vou ao estádio e xingo. Mas não precisa recorrer a expressões machistas para isso. É engraçado perceber que quando é O bandeira, ele é burro, não sabe a regra, é cego, é imbecil, idiota, ignorante. Quando é A bandeira, ela tem que voltar pra cozinha, lavar roupa, ir pra pia, sair dali, porque “não é o lugar dela”.

Só que agora os tempos estão mudando. Outro dia mesmo, um jogador levou o segundo amarelo e foi expulso depois de dizer para a bandeirinha “que futebol não é coisa pra mulher”. Eu espero que em breve a Renata tenha um pouco mais de paz para trabalhar – e por enquanto, desejo a ela bastante paciência para lidar com tudo isso.

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