Basquete

Troquei as bonecas pela bola, e o basquete me levou da Rocinha para o mundo

A família da Layana

*Por Layana de Souza , especial para as ~dibradoras

Eu sempre fui uma criança muito moleca, gastava toda a minha energia brincando. Só que as brincadeiras não eram as consideradas “brincadeiras de menina”. Eu troquei as bonecas dentro de casa pelos jogos de futebol na rua. Os chinelos eram usados pra formar os golzinhos e os companheiros de time eram quase sempre meninos. Chegar em casa com o dedo do pé machucado por ter chutado o chão, ou toda ralada por pisar na bola e escorregar eram coisas que acontecia de vez em quando.

Agora, de onde e quando surgiu essa paixão pelo futebol, eu não sei. Influência da cultura brasileira talvez, afinal o Brasil é conhecido como o país do futebol. Eu sei que dentro de casa, morando com a minha mãe e irmã mais nova, eu era considerada o “patinho feio” quando o assunto era esporte, principalmente futebol. Tanto minha mãe, quanto minha irmã pouco sabem sobre o assunto. Enquanto eu, flamenguista, chorava quando o Flamengo perdia um jogo.

Muitas vezes eu escutei minha mãe dizer “não sei de onde você tirou esse gosto por bola”. Eu também não, mas minha mãe viria a ter um importante papel na minha carreira esportiva. Essa mulher é uma guerreira que sempre trabalhou sozinha para criar nós duas  . Chegou a vender sacolé na rua para apoiar meu sonho, pagando minhas passagens e alimentação. Hoje, nosso sustento vem de uma barraca de lanches no Jockey Club na Gávea. Natural do Ceará, a dona Carina, só estudou até o antigo C.A. (hoje primeiro ano do ensino fundamental) para logo começar a trabalhar. Mas, para as filhas, ela sempre frisou que a responsabilidade era os estudos.

Seleção Brasil Sub 17

Por achar que futebol era coisa de menino e muito bruto, minha mãe preferiu não me deixar seguir essa carreira. Não adiantou o professor de futebol insistir que eu participasse da escolinha. Ela foi firme e disse que eu poderia escolher qualquer outro esporte com bola, mas não futebol. Assim, escolhi o basquete. Os machucados mudaram um pouco, de arranhões para uma abertura no supercílio. Apesar disso, aprendi a amar mais um esporte.

Comecei em um projeto na Rocinha, chamado Fábrica do Futuro, que não durou muito tempo. Eram aulas apenas aos sábados, mas foi o suficiente para conhecer o também jogador de basquete e morador da Rocinha, professor Leandro Souza. Após oito aulas no projeto, o Leandro me perguntou se eu queria jogar basquete federada em um clube na Gávea. Logo pensei que era o Flamengo, mas não, lá não tinha basquete feminino. O clube era a Sociedade Germânia. Pouco conhecido, é a sede da ONG VemSer – Esporte & Psicologia. Uma ONG sem fins lucrativos que acredita “que o esporte pode ser utilizado como ferramenta para a realização de um trabalho de formação e conscientização da cidadania com meninas em situação de risco social”. Eu, lógico, disse sim.

Cheguei à VemSer aos 12 anos de idade, na manhã de sábado do dia 14 de Agosto de 2004. Tímida e sem muito conhecimento ou técnica no basquete. Mas não demorou muito pra eu me sentir em casa. A ONG virou a minha segunda família e me proporcionou uma jornada que jamais imaginaria. Meus destaques dentro de quadra, o apoio dos voluntários da VemSer e o suporte da minha mãe, me ajudou a mudar uma realidade que muitos moradores de comunidades carentes enfrentam. Infelizmente, poucos chegam ao ensino superior e conseguem perceber que o mundo é maior do que a comunidade que vivemos.

Layana na ONG VemSer

Eu estudava em colégio público e, no meu sétimo ano escolar, recebi uma oferta do técnico do time de basquete do Colégio ADN Master, Guilherme Vos, para representar a instituição em competições estudantis em troca de uma bolsa integral. Era a oportunidade de uma educação melhor e, assim, cursei meu oitavo ano e todo o meu ensino médio.

Northwest CollegeCom 18 anos de idade, ensino médio concluído, viagens pelo Brasil para disputar campeonatos de basquete, três convocações para representar o Rio de Janeiro em campeonatos brasileiros de base e uma convocação para a seleção brasileira Sub 17, era a hora de aceitar outro grande desafio: a faculdade. Foi nessa hora que o presidente da VemSer e também técnico de basquete, Raphael Zaremba, começou a planejar a minha ida aos EUA. Quando ele me perguntou se eu queria ir jogar no país do melhor basquete do mundo e conciliar meus estudos, e eu disse sim, disse sem crença alguma de que isso aconteceria. Até porque eu não falava nada de inglês e muitas faculdades pediam proficiência no idioma. Sem contar que uma faculdade no exterior sairia caro.

Semanas depois de o meu técnico enviar meu vídeo jogando para um amigo, veio a grande notícia. O junior college de Wyoming, Northwest College, que não pedia TOEFL ou qualquer outro teste de inglês, me ofereceu uma bolsa integral com alimentação, moradia e livros. Eu só precisava arcar com as minhas despesas gerais no país, como shampoo, condicionador, sabonete, pasta de dente, cadernos, etc. E os padrinhos e madrinhas da VemSer me ajudaram a arcar com todos os custos durante os meus dois primeiros anos de estudos. Em agosto de 2010 fiz a minha primeira viagem de avião, e direto para fora do país, com total ajuda da VemSer e da American Airlines, que doou a minha passagem aérea.

Formatura Northwest College 2012Em maio de 2012 veio o primeiro diploma da minha família. Um Associate Degree em General Studies por Northwest College. Devido às minhas ótimas notas fui colocada na lista de alunos de excelência do reitor da faculdade e convidada a me tornar membro de uma sociedade de honras. Apesar disso, os meus estudos ainda não estavam concluídos e eu precisava me transferir para outra faculdade. Novamente o basquete me proporcionou isso. Em agosto de 2012, com bolsa integral, me transferi para Lees-McRae College. Em 2014, voltei ao Brasil comum Bachelor’s Degree em Sport Administration na bagagem, na lista de alunos de excelência das duas faculdades, membro das sociedades de honra Phi Theta Kappa, Sigma Beta Delta e Alpha Chi, e com dois prêmios concedidos aos melhores alunos-atletas.

No Brasil, eu comecei a minha trajetória profissional no centro do Rio de Janeiro, no escritório da THG Sports. Como executiva internacional de vendas, eu era responsável pela venda de pacotes de hospitalidade em eventos esportivos para presidentes de empresas no Brasil e na região da América do Sul. Após decidir encerrar atividades no Brasil, a THG Sports me ofereceu a oportunidade de passar três meses no escritório de Berlim, na Alemanha, para conhecer, aprender e vivenciar uma nova cultura antes de voltar ao Brasil.

Jogos Olímpicos Rio 2016

Depois disso, meu próximo passo profissional foi as Olimpíadas e Paralimpíadas do Rio de Janeiro. Os Jogos Olímpicos e Paralímpicos na minha cidade foram um marco na minha carreira. Todos sonham em estar lá, e comigo não era diferente. Eu não estava dentro de quadra, representando o meu país, mas eu estava fora dela trabalhando para que tudo aquilo pudesse acontecer. Como jogadora, a minha preocupação era amarrar meu tênis e entrar em quadra para fazer o meu melhor. Por trás das câmeras, como coordenadora de informação esportiva, a minha responsabilidade era a recepção e distribuição de todas as informações relacionadas à competição para as equipes nas arenas e na Vila Olímpica e Paralímpica, além de treinar, gerenciar e motivar os membros da equipe de informação esportiva.

Foram dias intensos, em que não dormimos ou nos alimentamos direito, mas eu faria tudo de novo. A satisfação é imensurável. Além de conhecer voluntários maravilhosos e interagir com membros das comissões técnicas das equipes, eu cruzava com os melhores jogadores de basquete de cada país nos corredores do ginásio. Todos em um mesmo lugar. Eu era responsável por agendar treinos de jogadores como Manu Ginobili e Tony Parker, que eu admirava desde pequena, e tive a oportunidade deconhecer de perto jogadores como Diana Taurasi, Maya Moore, Kevin Durant, Kyrie Irving, e muitos outros que fazem sucesso na WNBA e NBA, as maiores ligas de basquete do mundo.

Depois dessa experiência, me envolvi com a Liga Nacional de Basquete. Sempre que escalada, eu era responsável por todo o gerenciamento e decisões relacionadas à realização dos jogos de basquete organizados pela LNB no estado do Rio de Janeiro durante a temporada de 2016-2017.

Hoje, estou me preparando para cursar o meu mestrado em Sports Industry Management em uma das melhores faculdades dos Estados Unidos, em Georgetown University, Washington, DC. Nem nos meus melhores sonhos eu poderia dizer que aquela menina que jogava futebol na rua iria ter essa trajetória educacional e ser aceita em Georgetown por puros méritos acadêmicos. E só será possível aceitar mais esse desafio, porque a Fundação Estudar acreditou que eu posso fazer a diferença no Brasil. Participar de um processo seletivo com 85 mil inscritos e ser selecionada para essa rede é motivo de muita felicidade.

E pensar que eu conheci a Fundação Estudar durante as Olimpíadas e por um simples acaso. Ao sair do trabalho, um rapaz parou ao meu lado para perguntar onde ficava a estação do BRT. Como aquele era o meu destino, disse que ele podia me acompanhar se quisesse, e durante aqueles vinte minutos de caminhada e conversa, conheci sobre a Fundação. Hoje, faço parte do programa de líderes e irei receber um auxilio financeiro para custear meus estudos. Diferente das outras ocasiões, dessa vez não tem bolsa integral, moradia, alimentação ou doação de passagem de avião. Tudo deverá ser pago e os custos são altos.

Lees-McRae College Senior Year

Assim como será o meu esforço para tornar esse sonho realidade, me tornar ainda mais qualificada pra usar o esporte como ferramenta de transformação de vida e trazer o primeiro mestrado da minha família para casa. É maravilhoso estar envolvida com a Fundação Estudar e com a ONG VemSer, que são instituições que me enchem de orgulho e esperança de um futuro melhor, um país melhor.

A Fundação Estudar, criada há 26 anos com o objetivo de identificar jovens brasileiros de alto potencial, para desenvolvê-los, motivá-los a crescer e ajudá-los a causar um impacto positivo na sociedade nos mais diversos setores de atuação, contabiliza seu impacto com 617 ex-bolsistas, 25 mil jovens beneficiados pelos cursos e 15 milhões de pessoas alcançadas pelos canais disponíveis na Internet. www.estudar.org.br.

Colégio ADN Master

2 Comments

  1. lindo lindo lindo. Guerreira, destemida. Vc me inspira.
    Que outros pequenos sonhadores vejam que é possível.

  2. Muito impactante o seu relato. Observar a importância da família por trás. Que o bom Deus continue te abençoando e iluminando os teus passos a cada dia.
    Forte abraço e em oração por ti, nesta nova etapa de sua vida e carreira.

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