Futebol Feminino

‘Quando perguntarem o que eu faço, quero poder dizer: sou narradora esportiva’: a histórica transmissão 100% feminina no futebol

Natália Santana, Juliane dos Santos e Elaine Trevisan na transmissão no Morumbi

O último domingo marcou um dia histórico para o futebol e o jornalismo esportivo no Brasil. Nesse 3 de dezembro de 2017, dois jogos da Série A do Campeonato Brasileiro foram narrados por mulheres – um recorde ter duas vozes femininas ao mesmo tempo transmitindo o futebol para todo o país.

Em Minas, Isabelly Morais foi a reponsável por narrar a emocionante partida entre Atlético-MG e Grêmio na Arena Independência, um jogo de 7 gols, imprevisível do começo ao fim. E em São Paulo, Elaine Trevisan comandou os lances de São Paulo e Bahia no Morumbi, que teve as arquibancadas lotadas por 60 mil são-paulinos que foram ao estádio se despedir do ídolo Lugano.

Mais do que isso, essa partida ainda teve outro feito histórico – foi um jogo narrado, comentado e reportado apenas por mulheres. Elaine na narração, Juliane dos Santos nos comentários e Natália Santana na reportagem formaram o trio feminino que transmitiu as 2 horas de futebol na Rádio Poliesportiva.

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Não foi algo inédito – no fim da década de 1960, sob a narração de Claudete Troiano e os comentários de Jurema Yara e Leilah Silveira, a Rádio Mulher também fazia uma transmissão 100% feminina do futebol. Mas os tempos foram passando e a presença delas foi ficando restrita à reportagem em campo. Ainda é muito raro ver mulheres nas cabines de transmissão dos jogos por aqui. Não à toa, Elaine, Juliane e Natália relataram olhares de estranhamento dos homens ao redor quando elas chegaram na área dos radialistas no Morumbi.

“Parecia que estavam esperando o homem narrador ou comentarista que comporia nossa equipe”, afirmou Natália Santana às dibradoras.

Mas elas não se intimidaram. Levaram a transmissão com tranquilidade e muita emoção, sem se abalar com o que estava ao redor. “Petros dá o toquinho, ooooolha o gol! GOOOOOOOOOOOL, explode o Morumbi! Eu já dizia o nome dele, Brenner, o menino prodígio do Morumbi!”, descreveu com maestria Elaine Trevisan no microfone.

Ouça a narração de Elaine Trevisan aqui:

Ela que nunca havia sonhado em ser narradora – até pela falta de referências femininas nessa área -, descobriu essa vontade pelo incentivo de dois ídolos da narração e hoje afirma convicta que é isso que quer seguir na carreira.

“Eu nunca pensei, não cresci com a ideia nem pensei nisso depois da faculdade. Essa ideia foi sendo cultivada em contato com alguns profissionais que eu tive e que acabaram me incentivando. O Luiz Carlos Fabrini, que é um narrador que já passou por Radio Globo, Gazeta, falou pra mim um dia na Rede Vida: ‘sua voz é grave, por que você não experimenta um dia narrar? E aí tentamos fazer isso um dia, foi em outubro de 2016 num jogo do Paulista sub-17 pra celebrar o outubro rosa”, contou às dibradoras.

“Aí depois disso eu acabei conhecendo Deva Pascovicci, ele também elogiou minha voz, perguntou se eu narrava e eu disse que narrei uma vez. E me falou: você vai narrar! Aí quando ouvi isso de um ídolo, já pensei: se o Deva falou, eu vou narrar!”

Infelizmente, a tragédia do voo da Chapecoense não permitiu que Deva estivesse vivo para ver a estreia de Elaine nos microfones narrando a Série A do Brasileiro. Ainda assim, ela conta que treinava com ele, mandando áudios de narrações e pedindo dicas – que nunca foram negadas pelo ídolo. Hoje, ela reconhece que muito de sua evolução veio por conta dos incentivos dele.

“Comecei testando, depois aprofundei um pouquinho mais. Hoje eu tenho isso como pretensão na carreira, quero um dia, quando as pessoas perguntarem ‘o que você faz’, poder dizer: eu sou narradora esportiva.

Preparação

Elaine passou os últimos cinco meses se preparando para a narração deste domingo. Na Rádio Poliesportiva, ela teve a oportunidade de narrar vôlei, basquete e futebol feminino ao longo desse tempo para poder ir se aperfeiçoando até chegar ao último domingo.

Transmissão de vôlei, que fez parte da preparação de Elaine e Juliane para a do último domingo

Na véspera da partida no Morumbi, ela recebeu o último incentivo que faltava. Ao encontrar Galvão Bueno em uma festa da Associação dos Cronistas do Estado de São Paulo, Elaine pediu para que o narrador global gravasse um vídeo de incentivo para divulgar a transmissão 100% feminina que ela comandaria no dia seguinte.

“Que vocês tenham grande sucesso, que vocês façam uma grande transmissão! Essa questão de sexo não é importante, importante é capacidade, talento, vontade, trabalho e caráter”, disse Galvão em apoio a elas.

Antes do jogo, tanto Elaine, quanto Juliane e Natália receberam muitas outras mensagens de apoio. Isabelly Morais, prestes a narrar seu segundo jogo em Minas, enviou seus votos de boa sorte à nova narradora paulista no domingo e recebeu outra resposta de incentivo. Eram as mulheres se unindo pela mudança que está mais do que na hora de acontecer no futebol.

“Quando o nervosismo bateu antes da partida, eu disse a elas que deveríamos parar de nos cobrar tanto e fazer o que já estávamos acostumadas a fazer. Óbvio que era uma transmissão diferente, mas eu senti que deveríamos agir o mais natural possível, ser nós mesmas. Falei que deveríamos fazer aquela partida exatamente como nós queríamos. Narrar do jeito Elaine de narrar. Reportar como a Natália gosta de reportar e comentar da maneira que a Juliane se sente bem em comentar”, contou Natália.

“Foi uma responsabilidade grande, mas junto conosco estavam todas as mulheres, estávamos fazendo por todas. Foi marcante pro jornalismo esportivo e pra mulher na comunicação. A Isabelly está fazendo um ótimo trabalho, dá pra sentir a segurança dela, ver que é isso que ela quer fazer. E está sendo bom demais poder fazer pare disso e ver outras mulheres fazendo o mesmo”, afirmou Elaine.

Para ela, uma nova era na narração esportiva está começando e não terá mais volta: mais e mais mulheres aceitarão esse desafio e ocuparão esse espaço.

“Acho que agora é um momento crescente de isso acontecer, de ter mais narradoras. Já tem a Isabelly em Minas, eu estou narrando desde agosto outras modalidades, existem outras narradoras espalhadas pelo Brasil que a gente não tem conhecimento porque elas não têm espaço. Mas acho que agora algumas estão ganhando espaço na mídia e é o momento de uma ajudar a outra e fazer isso crescer para esse espaço ser ocupado, sim”, pontuou Elaine.

Isabelly Morais narrando o primeiro jogo dela em Minas

Mudança

Ainda não é comum ver uma transmissão de futebol 100% feminina, nem ouvir um gol narrado por uma mulher ou um lance de impedimento comentado nas vozes delas. Mas um dia também não foi comum ver uma mulher como repórter no campo – Germana Garilli, a Gigi, que o diga, quando ouviu de um jogador importante do Palmeiras na beirada do campo que “o lugar dela era no fogão”. Hoje, elas já são muitas ocupando os microfones na reportagem. Mas é possível ir além disso. Para Elaine, Natália e Juliane, a união feminina será essencial para transformar essa realidade.

“Nós temos a certeza que foi mais uma quebra de tabu, em um ambiente muito machista e hostil para mulheres. Demonstrando que estamos vivenciando tempos diferentes”, afirmou Juliana.

“É só o início, vamos continuar fazendo. Acho que o que fica é que sozinha, eu não vou conseguir mudar a realidade do jornalismo esportivo, esse machismo que existe e está enraizado. Mas a gente pode fazer essa mudança se unindo, todas juntas. Porque não é uma que marcou a história, que narrou, que fez alguma coisa. São todas. A gente pode construir e mudar essa história, conquistar nosso espaço juntas.

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