Futebol Feminino

Título da Champions é tudo o que eu preciso agora, diz Cristiane

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Foram 32 jogos nesta temporada – e 30 gols marcados. Nem precisa de muita conta para saber que Cristiane é artilheira do Paris Saint-Germain mais uma vez. Mais do que isso, além de matadora, a atacante brasileira também é generosa com as companheiras de clube – já são 16 assistências nesse mesmo período. Uma atacante completa, para ninguém colocar defeito.

Mas apesar do currículo recheado de títulos – duas medalhas olímpicas de prata, outra prata na Copa do Mundo, duas Libertadores pelo Santos, uma Copa da Uefa pelo Potsdam…-, ainda falta uma taça que ela sonha em conquistar nesta quinta-feira, em Cardiff: a tão cobiçada orelhuda.

“Para mim, seria tudo o que eu precisava durante todo esse tempo. Eu joguei a Copa da Uefa, tenho um título quando eu joguei com o Potsdam, quando ainda era Copa da Uefa. Mas a Champions League te dá uma coisa a mais na carreira, que é o que a gente sempre busca”, disse ela em entrevista exclusiva às ~dibradoras.

Disputando a final da Champions League pela primeira vez pelo PSG, Cris encontrará um adversário conhecido na decisão: o Lyon. Time que, em dois anos de Paris, já está engasgado para ela – no ano passado, sua equipe acabou eliminada pelas rivais por goleada – 7 a 0 na ida e 8 a 0 no agregado – nas semifinais do torneio europeu e, neste ano, duas semanas atrás, as parisienses perderam a final da Copa da França para elas nos pênaltis (com direito a esse golaço de Cristiane).

Para a decisão na quinta, Cris espera que a história seja diferente e já tem parte da receita para isso: “A equipe delas é muito rápida, mas não é para ficar recuada, esperando momento. Elas gostam de abrir bem a zaga para receber bola, quando elas abrem o time elas acabam querendo abrir a tua equipe junto. Se você não está bem compactada taticamente, elas abrem teu time todinho e colocam a bola pras meninas rápidas. Mas é final, não dá para ficar ali o tempo inteiro com receio de não sair pra jogar. Temos que jogar de igual para igual, como jogamos na final da Copa da França.”

Cristiane falou ainda sobre sua parceria com Formiga no PSG, sobre seus planos para o futuro e suas expectativas sobre a evolução do futebol feminino no Brasil.

Veja a entrevista completa:

~dibradoras: Como você avalia esses dois anos no PSG?

Cristiane: Bom, meu primeiro ano acho até que eu me adaptei um pouco rápido, fui artilheira da equipe nos campeonatos disputados, vice-artilheira da Champions League, um resultado até bacana pra mim. Claro que não foi o esperado por conta dos campeonatos que a gente não conquistou, mas já deixei uma boa impressão e foi aí que eles quiseram renovar comigo. E esse ano pra mim e o ano passado, mesmo com dificuldades depois dos Jogos Olímpicos, que eu fiquei ainda quase 3 semanas parada por conta da lesão e toda aquela coisa de você ter que esquecer como foram os Jogos, pra mim foi bem complicado. Um ano que minha avó também faleceu..e eu tive que lidar com várias coisas e seguir jogando bem e eu consegui fazer isso né.

Então é um ano que eu estou sendo bem abençoada, estou bem feliz com isso e conseguindo fazer bastante coisa. Às vezes eu sinto um pouco de cansaço, porque esse ano a gente está com um grupo muito reduzido comparado a 2015, então eu acabo jogando até 3 jogos na semana, fica até um pouco pesado. Mas eu estou conseguindo fazer o máximo que eu posso nas partidas.

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~dibradoras: Quais são as diferenças do futebol europeu e o daqui – pricipalmente em termos de tática?

Cristiane: Com a comissão passada nós não tínhamos muito trabalho tático. Era um grupo muito forte, com várias meninas de seleções. Esse ano, nosso grupo comparado ao ano retrasado não é tão forte, mas temos uma diferença muito grande de jogar como equipe, como grupo. A comissão técnica de agora tem bastante trabalho ligado a isso. Mas não são todas as equipes que têm tanta qualidade assim no Campeonato Francês. Europeu é mais jogo de força, de velocidade, é muito o que eles usam aqui.

~dibradoras: O técnico que vocês estão agora era o do Lyon, certo?

Cristiane: Foi técnico do Lyon durante um tempo (de 2010 a 2014) e assumiu aqui em 2016.

~dibradoras: Existe uma rivalidade acirrada entre o PSG e o Lyon na França, né?. Como é isso?

Cristiane: Eu acho que acaba sendo uma coisa até engraçada. Eles têm muito isso, uma competitividade muito grande com elas e sempre brigando no Francês, na Copa da França. Acho que pro clube, pras jogadoras, pra torcida, seria maravilhoso a gente conseguir ganhar uma Champions League jogando contra o Lyon – nas duas últimas partidas elas acabaram se dando bem.

~dibradoras: No ano passado vocês enfrentaram o Lyon na semifinal da Champions – e elas golearam, né?

Cristiane: É, ano passado foi complicado. Porque foi um resultado que ninguém imaginava. Principalmente porque o time que a gente tinha no papel era um baita time. Foi até desanimador, uma coisa que pegou todo mundo de surpresa.  

~dibradoras: Aí teve a final da Copa da França, um jogo parelho, que acabou nos pênaltis, com a vitória delas de novo. Qual é o segredo para vencer esse Lyon que já está engasgado para vocês?

Cristiane: Eu acho que é jogar futebol, a equipe delas é muito rápida, mas não é pra ficar recuada, esperando momento. Acho que você tem que tentar jogar de igual pra igual, porque assim como elas têm qualidade, elas têm defeitos e pontos fracos.

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Elas gostam de abrir bem a zaga pra receber bola, quando elas abrem o time elas acabam querendo abrir a tua equipe junto. Se você não está bem compactada taticamente, elas abrem teu time todinho e colocam a bola pras meninas rápidas, as meias.

É final, não dá para ficar ali o tempo inteiro com receio de não sair pra jogar “Ah, é o Lyon, se eu sair pra atacar, vou tomar gol”. Não. É um risco que pode acontecer, mas acho que tem que jogar de igual pra igual como jogamos na final da Copa da França. Nós jogamos bem, tivemos um volume bom de jogo, acho que tem que fazer da mesma maneira, principalmente se tratando de final da Champions League.

~dibradoras: Queria que você falasse sobre a torcida do PSG feminino. Na semifinal 20 mil pessoas foram ao Parc des Princes. Como tem sido essa relação?

Cristiane: Depois dos jogos que a gente fez no Parc des Princes, a gente acabou tendo um pouco mais de  torcida. A organizada deles também acompanhou a gente. Eles foram em peso, foram acompanhar, fazer barulho. Foi bem bacana.

A gente ainda sente um pouco de falta de ter bastante torcida para acompanhar, tem um número pequeno, mas depois desses jogos que a gente fez em casa, que a gente jogou bem, ganhou, acho que isso fez com que eles começassem a comparecer mais. E é diferente quando você joga no estádio da equipe masculina, chama mais a atenção do público. E a divulgação também conta muito.

~dibradoras: No Brasil, a gente vê clubes de camisa que fazem o feminino e não divulgam tanto. Como é no PSG?

Cristiane: É uma coisa que a gente cobra, porque é o PSG, um time de camisa, a gente sempre espera um pouco mais. Acho que isso faz um pouco de falta aqui ainda pra gente, a gente cobra de ter divulgação, fotos de treino, vídeos, porque não tem muita coisa. As pessoas perguntam se a gente não tem vídeo, foto de treino, isso é algo que foi colocado pra eles aqui e não sei se eles vão começar a ter mais atenção quanto a isso na próxima temporada. No momento deixou um pouco a desejar.

~dibradoras: Falando de Champions League, qual é o sentimento de disputar uma final? No masculino, todo mundo sonha com isso, no feminino ela também já é o torneio mais cobiçado?

Cristiane: Acho que é o campeonato máximo do futebol, toda atleta quer disputar, é importante para a carreira, é um campeonato muito forte, porque você enfrenta as melhores equipes com as melhores jogadoras. As meninas saíram dos Estados Unidos, a (Alex) Morgan, (Carli) Lloyd, para poder jogar aqui. Toda atleta quer ter isso no currículo. É jogar em alto nível. Tem isso no masculino e acredito que no feminino seja o mesmo.

~dibradoras: Queria que você falasse sobre a Formiga, que justamente depois de aposentar da seleção foi jogar com você ai no PSG. Como é jogar com ela aí?

Cristiane: A Fu a gente brinca que ela corre e continua correndo mais do que o time inteiro. Ela tem uma vontade muito grande, é sempre uma alegria, um orgulho poder jogar com ela, porque é uma excelente atleta, excelente pessoa, ajuda o tempo todo em campo. Acho que pra mim e pras outras meninas está sendo uma alegria poder jogar com ela mais uma vez. Achei que não fosse ter essa chance de novo. E o legal é o espírito que ela tem ainda, ela acaba incentivando as meninas mais novas a enxergarem que ela se dedica demais – e se a Fu com essa idade se dedica, aí que eu tenho que correr o dobro. Então ela é bem importante pro grupo.

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~dibradoras: A Formiga pode ser um diferencial por ela ser boa de marcação e tem toque de qualidade no ataque?

Cristiane: É que aqui a Fu tá jogando numa posição que tecnicamente não é dela, ela está jogando de primeira volante, então acaba tendo que ficar muito presa. Não sai muito pra jogar e acaba não podendo sair pra armar essa bola pro ataque. É até um pouco ruim porque a Fu tem um passe muito bom, mas são as peças que ele não tem, então tem que improvisar.

~dibradoras: O que a final promete?

Cristiane: Vai ser um jogo muito duro, muito bom. A gente vai tentar fazer um jogo muito páreo, porque se abrir o time pra elas é o que elas querem. Tentar jogar o mais próxima possível e marcando o tempo todo, porque jogar com o Lyon é sempre a marcação entra muito. E ao mesmo tempo atacar, elas sobem muito, então deixam a equipe meio aberta e a gente tem que aproveitar bastante.

~dibradoras: O que o título da Champions representaria?

Cristiane: Pra mim seria o que eu precisava durante todo esse tempo. Eu joguei a Copa da Uefa, tenho um título quando eu joguei com o Potsdam, quando ainda era Copa da Uefa. Mas a Champions League te dá uma coisa a mais na carreira, que é o que a gente sempre busca. E pro Paris então seria ótimo, já que a equipe chegou uma vez na final e perdeu e definiria o futuro de como seria aqui. Porque como nós ficamos em terceiro no Campeonato Francês, tecnicamente é obrigação ganhar a Champions League, porque se não ganhar não disputa a Champions na próxima temporada, então isso acaba ficando ruim e você não consegue trazer tantas jogadoras para cá, porque hoje o que as atletas procuram são as equipes que vão jogar a Champions.

~dibradoras: Você já sabe o que você vai fazer após um eventual título? Se vai ficar no PSG ou partir para a China?

Cristiane: Eu tenho uma proposta da China que é muito boa, então vai depender muito do que o Paris conversar comigo. Ainda não tenho nada definido, meu contrato vai até 30 de junho, e aí está aberto pros dois lados, tanto para a equipe chinesa, quanto para o Paris. Só aguardar e vou definir com a minha família, com meu empresário para ver o que é melhor.

~dibradoras: Como você vê a evolução do futebol feminino nos últimos 2 anos? Com Emily treinadora, com duas divisões no Brasileiro…

Cristiane: Acho que isso é importante, estava mais do que na hora de acontecer. Lá atrás a gente cobrava muito isso de ter o tratamento igual para o feminino como é no masculino, por conta de tudo o que nós fizemos. Acho que a Olimpíada deu um up para as pessoas conhecerem mais, terem mais gosto com o futebol feminino, acho que isso ajudou bastante. A gente só espera que não vire um ou dois anos aí e comece a regredir de novo, porque nós já vimos isso antes, tivemos experiências assim, de equipes de camisa começarem a montar times femininos e de repente começar a desandar tudo de novo.

Acho que tem que ter uma continuidade, porque hoje você tem a grande maioria jogando fora, é um reconhecimento muito grande, você vê que a gente está com uma quantidade de atletas com qualidade jogando fora, tendo hoje a Emily como treinadora acaba motivando outras meninas, outras ex-jogadoras também a brigarem por um cargo que teoricamente deveria ser nosso. Mas eu defendo muito que se tenha o estudo, que você corra atrás para poder se informar, para ter um crescimento, não de você só se basear no conhecimento como ex-jogadora. É importante esse conhecimento fora porque todo mundo tem a ganhar.

Pretendo ir até a última Copa e Olimpíada, depois disso daí vou assistir de casa.

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~dibradoras: O que você gostaria de ver na próxima Copa e Olimpíada para o futebol feminino?

Cristiane: Olha, muitas vezes eles passam algumas equipes de camisa, mas tem muita equipe, se você rodar o Brasil, tem muita equipe que não tem a menor estrutura. E isso ainda é triste. Eu tenho amigas que tentaram trabalhar com o futebol feminino em algumas regiões e tiveram que largar porque eles não davam alimentação pras meninas, não tinha dinheiro…tem alguns lugares que a realidade é muito distante. Então a minha torcida e minha vontade é que se tenha tratamento com todo mundo, independente se você conseguir uma equipe de camisa que vem do masculino, que tudo acaba sendo mais fácil, claro, mas você também conseguir dar uma atenção para outros lugares, que precisam, mas estão escondidos.

~dibradoras: Você é a favor da regra da Conmebol que obriga times masculinos a manterem equipes femininas para poderem disputar a Libertadores?

Cristiane: Sim, porque se não, se partir de boa vontade deles, a gente sabe que não vai partir. Infelizmente, deveria ser natural, vir de boa vontade, de querer fazer com que a modalidade cresça, até porque para eles não é muita coisa né. Só que já que obrigaram, então que eles façam direito, não de qualquer jeito, que isso acaba ficando ruim. Que façam de bom gosto e que com isso outras equipes tenham vontade de querer divulgar, de querer ajudar.

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