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‘Tifanny representa a luta pelo mundo que estamos tentando construir há muito tempo’, diz ativista trans

Entrevista com Amara Moira, travesti, feminista, ativista LGBT e doutoranda em teoria literária pela Unicamp.

1) Como foi o processo de entender sua identidade de gênero?

A vida inteira me disseram que eu era homem, que eu tinha de ser homem, e junto me ensinaram a ter medo de me imaginar (ou mesmo deixar que me imaginassem) outra coisa que não isso. Passei anos então tentando ser essa pessoa que me disseram que eu era, me escondendo inclusive de mim e me esforçando ao máximo para fazer com que acreditassem que eu era de fato homem.

Eu sabia o que me esperava se eu não fosse, eu via em todo lugar o inferno que era a vida de homens entendidos como afeminados, mulheres entendidas como masculinas (homens e mulheres que sequer é possível saber se eram mesmo LGBTs ou se só “pareciam”, o que só mostra o quanto aparência é mais importante do que o que a pessoa é, como ela se entende). Sobretudo eu sabia da brutalidade que estava reservada para as pessoas trans. Tentei de todas as formas me adequar e quase acreditei que eu era aquela máscara que, quando nasci, me enfiaram na cara, aquela máscara que queriam que eu fosse.

E assim fui vivendo, sem muita consciência do peso que era existir dessa forma, até enfim ver pessoas trans surgindo ao meu redor, na faculdade, na mídia, nas redes sociais, pessoas trans conseguindo se firmar em seus espaços, abrir brechas, se fazer ouvir, respeitar, admirar. Eu precisei, em boa medida, que antes essas pessoas surgissem e me mostrassem que havia mundo possível para gente como elas, para só então me sentir no direito de começar um processo de descobrir o que, em mim, era eu e o que máscara. A existência de pessoas trans é um convite para as demais pessoas se perguntarem se elas são mesmo o que são ou se elas apenas foram criadas para existir daquela forma. Há algo de libertador em conviver com a gente. Hoje tenho 32 anos e faz só quatro que pedi pela primeira vez que me chamassem de Amara, mas há trajetórias e trajetórias e a minha é só uma delas.

2) Você poderia nos contar um pouco sobre a relação que as pessoas trans mantêm com o próprio corpo? Por que pessoas trans recorrem a cirurgias, hormônios, tratamentos estéticos?

Ninguém nasce querendo fazer cirurgia, importante pontuar isso. O que acontece é que a sociedade nos ensina, lá na infância, que o nosso corpo é o problema e depois não aceita quando nos vê fazendo de tudo pra transformar esse corpo. Exemplo? A criança que com cinco anos diz aos pais que é menina e que ouve, em resposta, “você é menino, porque tem pipi”. Criança nenhuma sai convencida de que é um menino por conta desse argumento… ela pode, no máximo, acreditar que precisa (ou que seria prudente, por conta da violência) ser menino, não que de fato é.

O que a gente não se dá conta, no entanto, é que esse argumento faz a criança perceber que o que a impede de ser para o outro o que ela já é para si é o genital que ela tem no meio das pernas. E é nesse momento que começam a nos ensinar a odiar nossos corpos, a querer transformá-los a qualquer custo. Gosto muito de lembrar do relato de uma feminista que tinha aversão a pessoas trans até que a sua filha chegou em casa contando duma criança de nove anos que, por não se entender como menino, tentou cortar fora o próprio pênis com um canivete.

Quem trabalha com crianças sabe que esse tipo de situação não é tão raro quanto se imagina, mas com o passar dos tempos vamos aprendendo a nos esconder, dos outros e de nós, para nos sentirmos seguras. Até nos vermos em condição de nos assumir. Por isso a militância trans trabalha em duas frentes, frentes aparentemente contraditórias: de um lado, lutar pelo direito das pessoas trans poderem transformar seus corpos (para que a sociedade, assim como elas próprias, seja capaz de vê-las da forma como elas se entendem), mas de outro lutar para que as expressões “mulher de pênis” e “homem de vagina” comecem a fazer sentido, o que possibilitaria pensarmos outros modelos de homem e de mulher, modelos mais próximos dos corpos que temos e que não implicassem obrigatoriamente intervenções radicais nos nossos corpos para fazermos sentido, para podermos nos ver e ser vistas da forma como nos entendemos.

Numa sociedade que acredita e que nos cria para acreditar que “ser mulher” é “ter vagina”, qual a surpresa ao ver mulheres trans querendo fazer cirurgia de redesignação sexual (a famosa “mudança de sexo”) para poderem se entender e ser entendidas dessa forma? No entanto, já temos décadas de movimento feminista propondo a desbiologização da mulher (“não se nasce mulher, torna-se mulher”), defendendo que “mulher” e “homem” não são meros desdobramentos do genital com que se nasce, o que leva o movimento trans a querer, junto, propor que é possível, sim, ser homem sem pênis e mulher sem vagina.

3) Por mais complexas que sejam as terapias hormonais e as cirurgias de redesignação sexual, ainda existe gente que acredita que pessoas podem se aproveitar disso para poder competir em categorias femininas. Como você vê essa questão?

A primeira coisa que nos dizem, quando falamos que desejamos fazer essa cirurgia, é que isso é loucura, que podemos nos arrepender, que isso não faz sentido. Ou seja, vê-se que a sociedade tem uma imaginação bastante fértil para pensar as consequências dessa cirurgia e a vida após ela. No entanto, essa mesma sociedade parece convenientemente esquecer toda essa imaginação ao lidar com as nossas existências concretas ocupando espaços de prestígio e aí começam a fantasiar que é possível aproveitadores, isto é, pessoas não trans, se submeterem a cirurgias mega invasivas como essa, lançarem mão de um tratamento hormonal que abala as suas estruturas e transformarem completamente a própria identidade apenas para poderem se beneficiar de vantagens em competições esportivas femininas. Quem seria capaz disso? Já alegaram coisa similar para tentar impedir que acessássemos o banheiro feminino (“estupradores podem se vestir de mulher para abusar de mulheres nesse espaço”), já vislumbraram a possibilidade de pessoas mudarem de nome pra fugir de dívidas e crimes, agora essa questão com o mundo dos esportes, e o que se percebe, no final das contas, é que ainda hoje a sociedade só sabe nos ver com desconfiança, como fraudes, pessoas que ou tentam passar pelo que não são ou que representam perigo por abrir brecha para aproveitadores.

E a realidade que encaramos é bem distinta disso. Resistência e mesmo exclusão familiar, perseguição brutal nas escolas (muitas vezes acompanhada de abuso sexual, pois corpos que não se enquadram nos padrões de gênero são entendidos como corpos que pedem por sexo, corpos que podem ser abusados), a garantia de portas fechadas no mercado formal de trabalho… numa sociedade transfóbica como a nossa (Brasil, o país campeão mundial de assassinatos de pessoas trans), assumir-se trans pode em alguma medida ser até entendido como uma atitude suicida, o que não impede que mesmo assim a sociedade continue a nos ver e a nos entender como pessoas que tentam ou querem o tempo todo levar vantagem.

4) Na minha percepção, o preconceito contra transexuais é muito grande na sociedade e o esporte é ainda mais fechado, então não vejo muitos casos de mulheres ou homens trans que pratiquem esportes coletivos, ainda mais em alto nível. Você pode comentar um pouco sobre sua percepção e sobre as discussões do caso Tifanny?

O esporte é um dos espaços mais machistas e LGBTfóbicos que existem, principalmente as competições masculinas. Atletas homossexuais são obrigados a se manter no armário pra conseguir atuar (e nem é preciso ser de fato homossexual, basta desconfiarem que você é), então imagina o caso de uma pessoa trans.

Quantas a gente conhece disputando qualquer modalidade que seja, masculina ou feminina? Dá pra contar nos dedos, todas surgindo exatamente agora, momento em que a sociedade não tem mais conseguido ignorar nossa existência, momento em que estamos conseguindo ter voz. Enquanto estávamos completamente marginalizadas, pouco importava que esse mundo dos esportes existisse sem a nossa presença, mas quanto mais vamos ocupando espaços e nos fazendo ouvir, mais fica impraticável que sigamos excluídas do mundo dos esportes… e uma consequência direta é que suas regras, que não previam a existências dos nossos corpos, precisarão ser revistas.

Revistas como? Estão implicando com a possibilidade da Tifanny disputar as modalidades femininas, já que ela nasceu com pênis, mas tendo feito a cirurgia de redesignação sexual e fazendo tratamento com bloqueador de testosterona é óbvio que ela não é mais páreo para as modalidades masculinas. Do mesmo modo, os homens trans (ou seja, homens que nasceram com vagina, como Thammy Miranda, Tarso Brant, Buck Angel, João W. Nery) que fazem uso de testosterona levariam vantagem brutal se disputassem nas categorias femininas e, ao mesmo tempo, não se sabe ainda das chances que teriam se disputassem nas masculinas. Pela primeira vez estão tendo que pensar critérios para nos incluir no mundo dos esportes, critérios que levem nossa existência em consideração e nosso direito de participar dessas disputas. Tifanny é uma cobaia, nesse sentido.

Como disse o médico João Grangeiro (da comissão nacional de médicos do vôlei), o critério que existe é a testosterona, e ela está dentro desse critério, mas faltam estudos que demonstrem se mulheres trans de fato levam alguma vantagem. Talvez precisarão rever essas regras, mas de uma forma que seja justa também para nós, ou seja, que não inviabilize a nossa presença nesses espaços. O que não é possível é essa decisão, que tem implicações políticas, uma mensagem para a sociedade, ser tomada com base em achismos e transfobia.

5) Acha que deveria haver uma discussão sobre vantagem esportiva em casos como o dela? Por quê?

É preciso pensar, sim, de que maneira pessoas trans poderão se fazer presentes no mundo dos esportes, o que implica discutir não só as vantagens mas também as desvantagens que a gente vai enfrentar. O Comitê Olímpico Internacional (COI) determinou, por exemplo, que a cirurgia de redesignação sexual não é mais necessária, pois entende que cobrar que uma pessoa trans se submeta a essa cirurgia é determinar que ser mulher ou ser homem é, antes de mais nada, o genital que você possui.

Outra questão importante com relação a isso é o acesso à cirurgia… pensando no Brasil, quem tem décadas à disposição, em especial no mundo dos esportes, para poder realizar essa cirurgia no SUS ou algumas dezenas de milhares de reais para fazê-la no particular? Exigi-la seria então um critério elitista, pois autorizaria apenas pessoas trans de uma determinada classe social a participarem de modalidades esportivas. Não é mais essa a visão do COI, que exige tão somente a autodeclaração e que esta não mude nos últimos quatro anos, além de, no caso das mulheres trans, que a taxa de testosterona esteja há mais de um ano num nível xis estipulado (no caso de homens trans que se hormonizem com testosterona, não há nenhuma regra especial para que disputem as modalidades masculinas). Esses são os critérios que até o momento foram concebidos para fazer com que os esportes de alto rendimento não sejam esportes apenas de pessoas cis, mas contem também com a nossa presença.

Importante perceber, no entanto, que esses critérios levam mulheres trans que não usem bloqueador de testosterona a só poderem competir nas categorias masculinas e homens trans que não façam uso de testosterona a poderem escolher em qual preferem disputar. O próximo passo, quem sabe, é alterar a nomenclatura oficial e chamar as modalidades de, não mais feminina e masculina, mas modalidade de corpos que possuem testosterona e de corpos que não possuem (ou algo parecido). De qualquer forma, para além de discutir hipotéticas vantagens ou desvantagens, é importante que se discuta também formas concretas de eliminar o machismo e a LGBTfobia do mundo dos esportes.

6) Qual é a importância da Tifanny para a inserção da comunidade LGBT no esporte?

Acho importante que se discuta “comunidade LGBT”, mas que se perceba também que o caso Tifanny é importante sobretudo para a população trans. Sua presença nesses espaços mega excludentes é indicativo de que nós podemos estar lá também, de que também podemos nos imaginar atletas. Antes, não importava o que imaginássemos como futuro, astronomia, advocacia, medicina, docência, a prostituição precária e mal remunerada seria praticamente a única possibilidade de você continuar subsistindo.

Veja bem, nem é qualquer prostituição a que estou falando, pois se fosse a que nos paga R$300,00 a hora nós comprávamos a nossa cidadania, o nosso lugar na sociedade. Não é, é aquela que paga migalhas, nas esquinas, onde estamos mais vulneráveis, justamente onde acontecem metade dos assassinatos de pessoas trans. Tifanny poder ser jogadora de vôlei, ser contratada, ter torcida a seu favor, ser temida pelos times rivais, isso diz muito do mundo que estamos lutando para construir há tempos, mundo que só começa a se transformar hoje. Mas essa presença de Tifanny tem significados para a sociedade como um todo também, fazendo com que as pessoas cada vez mais se deem conta de que não é o genital com que nascemos que diz o que somos ou deixamos de ser.

7) Quais você diria que têm sido os principais erros no tratamento desse tema? Quais as principais coisas a aprender para tratar com respeito as mulheres e homens trans?

Três anos atrás seriam impensáveis matérias como as que estamos vendo agora, matérias que entendem a necessidade de tratá-la no feminino e de respeitar seu nome, Tifanny. Houve então melhoras, com certeza, melhoras que se devem sobretudo ao fato de estarmos nos mobilizando e protestando contra quem ainda se sente no direito de nos desrespeitar.

No entanto, parece-me que para parte considerável da mídia a presença dela nas modalidades femininas é ainda controversa, discutível, quando não um completo absurdo, o que faz com que o tempo inteiro sintam a necessidade de sublinhar, nas entrelinhas, que ela não é mulher ou, pelo menos, não tão mulher quanto as que competem nessa modalidade. É o que se vê quando se referem a ela como “homem biológico” (2018 e a mídia segue tratando homem e mulher como meras decorrências da biologia), quando sentem a necessidade de revelar seu nome de nascimento, quando, ao remeter à época em que ela jogava nas modalidades masculinas, tratá-la no masculino ou, então, quando perguntam se o protagonismo das mulheres não será ameaçado com a presença de transexuais, forma sutil mas bastante contundente de dizer que não somos mulheres.

Não há qualquer necessidade de usar pronomes masculinos para se referir a ela, mesmo quando estivermos falando do passado. Nome de registro, esse fantasma que nos persegue e que muitas vezes é usado para nos ofender, humilhar, tampouco deve ser trazido à discussão. Uma última coisa que acredito necessária é conduzirem o debate sobre vantagem/desvantagem levando em consideração também a nossa perspectiva, o que seria justo para os corpos que temos, não apenas a perspectiva cisgênera, não trans.

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