esporte, machismo

Sobre machismo e a cultura que estupra mulheres na rua, no esporte, na vida

*Por Maiara Beckrich e Renata Mendonça

A história da menina de 16 anos que foi violentada por 33 homens no Rio de Janeiro tem sido um dos assuntos mais repercutidos nos últimos dias. Talvez porque ele choque, pela brutalidade do crime e pelo fato de os autores dele terem até divulgado imagens “se orgulhando” do feito nas redes sociais.

Houve quem compartilhasse fazendo piada; e quem o fizesse dizendo que: “também, ela frequentava baile funk, já tinha filho com marginal, vestia short curto, transava com todo mundo, não se dava ao respeito, blá blá blá”; houve ainda quem ficasse estarrecido com o fato e pedisse “a prisão imediata desses monstros”.

Mas aí é que está a questão. Quem são esses “estupradores”? Onde vivem, o que comem, como se reproduzem, por onde andam? A resposta é: do seu lado. Não, eles não são monstros, não são doentes, não são psicopatas. Eles são os caras normais com quem você convive. O companheiro, o pai, aqueles com quem você cruza na rua ou com quem você trabalha. E o que isso tem a ver com esporte? Tudo.

Porque o esporte, está inserido na lógica da sociedade, reproduzindo uma cultura machista que exclui e diminui as mulheres. O Machismo está presente em todas as esferas da vida. No âmbito profissional, quando uma funcionária sofre assédio dos colegas de trabalho. Nas ruas ao ser ‘cantada’ por homens como se caminhasse sem outro propósito que não ser objeto para o julgamento masculino.

Também no esporte, onde as atletas são mais valorizadas pelos seus atributos físicos do que por suas habilidades. Onde não encontram apoio, patrocínio ou estrutura para atuarem como as atletas profissionais que são. Onde recebem menos – mesmo gerando, por muitas vezes, mais dinheiro que os homens (vide seleção americana de futebol feminino). Onde são assediadas pelos seus próprios técnicos (vide a nadadora Joanna Maranhão, abusada aos 9 anos pelo treinador).

Tanto tem esse caso emblemático a ver com o esporte que um dos suspeitos de ter participado do estupro é um jogador do Boavista. Lucas Santos, meia do clube, foi preso preventivamente na manhã desta segunda-feira. Não é surpresa: o futebol é um dos esportes que mais exalta o “poder” do homem sobre a mulher. Quantos desses jogadores não postam fotos ao lado de gostosas na balada ou na piscina (lembram daquela de Ronaldinho Gaúcho com as cinco bundas na piscina?) para mostrar que são “fodas”?

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Quantos deles não abordam abusivamente essas garotas porque “como assim você não quer ficar comigo, você sabe quem eu sou?”? Alguns já foram até denunciados por abuso sexual como o atacante Robinho, com duas acusações. No ano passado no Pan Americano dois atletas da seleção de polo aquático foram acusados de abusar de uma jovem de 21 anos no Canadá.

Casos assim mostram que aqueles 33 homens não constituem exceção, mas regra. Não são 33 pessoas doentes numa sociedade sã. São pessoas comuns numa sociedade doente.

Um estudo realizado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em 2014 estima que, apesar da média de estupros reportados anualmente no Brasil ser de 50 mil, esse número poderia chegar a mais de meio milhão de casos por ano. Essa diferença gritante entre os casos ocorridos e os denunciados advém justamente do medo e da vergonha das mulheres, acostumadas a serem culpadas pela violência que sofrem.

A jovem vítima do estupro ouviu o delegado perguntar “se ela tinha costume de participar de sexo grupal”. Viu o mesmo delegado falar abertamente que “ainda estava tentando confirmar se o caso era mesmo de estupro”. Viu milhares de pessoas compartilharem seu vídeo, ouviu outras milhares de críticas de pessoas que, antes de julgarem o crime, julgaram o seu comportamento.

No esporte, teve atleta que já teve de ler que “postou foto da bunda e causou polêmica nas redes sociais”. Quem se lembra do caso da atleta dos saltos ornamentais, Ingrid Oliveira, no Pan-Americano do ano passado? Ela foi completamente assediada nos comentários ao postar uma foto de maiô (seu uniforme) durante um treino e viu muita gente – e muitos veículos de imprensa – colocarem a culpa nela pela polêmica. No Jornalismo Esportivo casos assim também são mais comuns do que gostaríamos de admitir.

A mídia elege sua bunda e rostos favoritos, as curvas que considera mais belas e estampa suas manchetes com as fotos das atletas “musas”. Não percebem que são coisas como essas que alimentam a cultura do estupro por aqui. Que fazem com que mulheres sejam vistas como objetos sexuais para satisfazer os homens (no esporte e na vida). Ouvi de uma esportista uma vez que a diferença na cobertura da imprensa de modalidades masculinas e femininas era que “o homem é visto como atleta, e a mulher é vista como objeto”. Faz sentido, não?

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Mas é aí que perguntamos: quando é que a mídia esportiva vai perceber que também é responsável por perpetuar uma cultura que estupra e mata milhares de mulheres todos os anos? Quando ela vai se tocar que sua simples “cobertura” contribui para “manter a mulher no lugar dela”, diminuída, objetificada, propriedade do homem?

O machismo é alimentado por coisas corriqueiras, que muitas vezes passam despercebidas. É bem verdade que, por vezes, até mesmo mulheres reproduzem a lógica machista que as oprime. Repetimos o que nos é dito, exigindo das outras mulheres o que também nos é indevidamente exigido. Mas a culpa não é nossa e sim dos eternizadores desse pensamento. Aqueles que realmente se beneficiam dele, abusando do nosso corpo e da nossa saúde física e mental.

É importante perceber que aquele “mas também, com um short curto desse, tá pedindo” contribui para perpetuar essa mesma cultura machista assassina; quando dizem que “mulher tem que se dar ao respeito”; ou toda vez que pensam que “mulher não pode fazer isso ou aquilo porque é coisa de homem”; ou toda vez que repetem que “mulher tem que se por no seu devido lugar”. Não. Não. E não. Mil vezes não. Nossa corrente tá ficando forte e, juntas, vamos deixar de ficar caladas para calá-los. Pelo fim da cultura do estupro – na rua, no esporte, na vida.

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