Futebol Feminino

Sobre a primeira competição de base para o futebol feminino em São Paulo – e as sementes que ela plantou

spfc_campeao
Lauren Leal, capitã do time, levanta a taça do Paulista sub-17

Aos 13 anos de idade, Isabelle Caroline, mais conhecida como Isa, ainda não sabe responder com certeza “o que quer fazer quando crescer”. Talvez, a resposta mais simples para ela agora seja o que já faz com frequência – gols.

Mas até pouco tempo atrás, era difícil para uma menina como ela sonhar que isso poderia um dia lhe dar uma perspectiva de vida, de futuro. Hoje, campeã e artilheira do time no primeiro torneio de base de futebol feminino realizado no Estado de São Paulo, Isa já pode se permitir sonhos ainda mais ousados.

Junto com a equipe sub-15 do Centro Olímpico, ela fez parte do time que entrou no Campeonato Paulista Sub-17 – o primeiro de futebol feminino da categoria já organizado no Estado – com uma parceria com o São Paulo Futebol Clube. A ideia era dar mais experiência de competição desde cedo às meninas, que chegaram até mesmo a ter de enfrentar suas companheiras de clube do Centro Olímpico, o time “oficial” sub-17, que também disputou a competição.

isa_spfc
Aos 13 anos, Isa foi a artilheira do time na competição com 6 gols

Mas a estratégia deu tão certo, que foram elas, a equipe de 13, 14, até 15 anos, que venceram o torneio organizado para meninas de 16, 17. O São Paulo/Centro Olímpico venceu por 2 a 0 o primeiro jogo da final contra o São José (com Isa marcando um deles) e sagrou-se campeão mesmo com a derrota por 1 a 0 no segundo jogo da decisão.

Para Isa e suas companheiras de time, foi a primeira competição oficial de federação que elas participaram. Não é nem um pouco comum, infelizmente, ver campeonatos de base no futebol feminino organizados pelo país. E isso faz com que o sonho de ser jogadora para elas fique mais distante – faz até mesmo com que muitas acabem desistindo no meio do caminho, pela falta de perspectiva.

Mas em 2017, essa realidade começou a mudar. Sob a coordenação de Aline Pellegrino, ex-capitã da seleção brasileira, a Federação Paulista de Futebol organizou pela primeira vez um torneio para a base. E já na primeira edição, 17 equipes se inscreveram para participar. Foram três meses de disputa, muitos jogos, muitas descobertas e, principalmente: muitas “sementinhas” sendo plantadas.

“A maior lição é que, mesmo com pouco tempo de mapeamento, estudo, conversa com os clubes pra chegar no formato ideal, conseguimos já nesse primeiro momento 17 equipes”, disse Pelle às dibradoras.

“E não é que a gente fez milagre, esses clubes tinham essas jogadoras, tinham atividades, campeonatos menores para jogar, então a Federação só cumpriu um papel dela para a modalidade, que já cumpre bem no principal, fazendo também a base, e aí a resposta que a gente tem do contexto é essa: equipes existem, o que não tinha era campeonato.”

Lá no início do torneio, havíamos conversado com a coordenadora de futebol feminino sobre os objetivos do campeonato e ela havia ressaltado que o maior deles era fomentar a modalidade e colocar o futebol feminino na perspectiva de futuro dessas atletas.

spfc

“Queremos que as meninas possam nessa idade olhar para o futebol feminino e perceber que ele tem um peso grande na vida. É aquele momento que você está escolhendo, terminei o colégio, o que eu vou fazer? Vou fazer faculdade, curso técnico? Queremos que o futebol feminino tenha um peso na balança legal”, disse Pelle à época.

Não há dúvidas de que o objetivo foi atingido. Para as meninas de 13, 14 e 15 anos que conquistaram o torneio, o futebol feminino não é mais só uma diversão – ele é uma realidade.

“Esse grupo tem meninas muito valorosas, muito profissionais, muito dedicadas no que fazem. A experiencia delas, a dedicação, o compromisso, o trabalho em equipe, a união e o esforço, tem que ser muito valorizado isso, elas disputaram um campeonato com meninas 2 ou 3 anos mais velhas”, afirmou Thiago Viana, técnico campeão com o São Paulo.

“Tem gente até de 13 anos jogando contra meninas de 17, isso é uma diferença gigantesca, que elas conseguiram superar com muita vontade de vencer no jogo e na vida. Acho que é um detalhe que tem que ser bem valorizado. Primeira campeã do Pauista sub-17 é uma equipe sub-15.”

As meninas campeãs com o São Paulo, apesar da pouca idade, têm acumulado uma boa experiência no futebol. No ano passado, elas disputaram a Copa Moleque Travesso, competição masculina sub-13 realizada em São Paulo. Com a permissão para entrar com uma equipe feminina com até sete atletas de 14 anos para superar as diferenças físicas com os meninos, foram elas que se sagraram campeãs vencendo a final por 3 a 0.

“Esse grupo é o grupo que venceu a Copa Moleque Travesso, a base dele é a mesma da que venceu o torneio masculino, são meninas que já tinham disputado grandes jogos, criado uma casca e chegaram nesse campeonato como uma quinta, sexta força e conseguiram se sagrar campeãs pela entrega. A aplicação tática e qualidade técnica dessas atletas precisa ser destacada, elas têm um futuro muito promissor se continuarem nessa dedicação”, afirmou o treinador.

isa_spfc2

Agora, a expectativa é de que haja mais e mais competições de base para fortalecer a base do futebol feminino no país – e para fortalecer as próprias seleções de base.

“Um campeonato de federação tem outro peso em relação à mídia, aos grandes clubes, em relação às atletas, à divulgação e à própria seleção brasileira. As atletas entram num patamar um pouco mais profissionalizado, um pouco mais próximo do que a gente busca, que é a preparação para uma profissionalização”, pontuou Viana.

“Então é muito importante que um campeonato de base não pare no 17, a gente sabe que é um passo de cada vez, o primeiro passo foi dado, e a gente espera que o segundo passo seja dado também com campeonato sub-15, sub-13, igual existe no masculino. De passo em passo, a gente chega lá.”

Os resultados já começaram a vir. Lauren Leal, capitã do São Paulo campeão paulista sub-17, já chegou a ser convocada para a seleção brasileira de base. Outras atletas que disputaram a competição também estão sendo observadas pela comissão técnica da seleção.

pelle_paulsita
Aline Pellegrino, coordenadora de Futebol Feminino da FPF, entrega as medalhas ao time campeão

Esse era outro objetivo de Aline Pellegrino com a competição. “Eu posso estar falando uma grande besteira, mas quero de repente daqui 4 anos estar vendo a seleção brasileira sub-17 sendo campeã do mundo e pensar que a Federação Paulista teve um papel importante nisso. Tudo é a longo prazo. Não tenho dúvidas de que ano que vem a competição vai estar de pé de novo”, disse ela em março.

Para tudo é preciso o primeiro passo – e é importante reconhecer que, agora, ele finalmente foi dado. Há coisas ainda a serem melhoradas. A própria coordenadora da FPF reconhece que alguns dos gramados onde a competição foi realizada não eram tão bons, que esse é um ponto a melhorar. O treinador do São Paulo pede também mais apoio financeiro da FPF para equipes que não podem se bancar na competição. Mas não dá para negar que o futuro do futebol feminino, com essas iniciativas, se torna bem mais promissor.

One Comment

  1. Excelente Matéria!

    Matérias como essa devem rechear cada vez mais a mídia, pois sabemos como ainda o futebol feminino precisa evoluir em nosso país.

    O potencial é imenso e temos um caminho promissor pela frente.

    Acompanhei vários jogos deste campeonato sub-17 e é notório quantos talentos estão disponíveis e prontos para aproveitarem uma oportunidade !

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *