Futebol Feminino

Sem Vadão, é a hora das mulheres na seleção feminina: Emily Lima é a nova técnica

Brazil coach Vadao reacts on the sideline during the bronze medal match of the women's Olympic football tournament between Brazil and Canada at the Arena Corinthians stadium in Sao Paulo, Friday Aug. 19, 2016. Canada won the bronze medal. (AP Photo/Nelson Antoine)
(AP Photo/Nelson Antoine)

*Por Renata Mendonça e Roberta Nina Cardoso

(Atualizada às 15h20)

Na véspera do dia de finados, nasce uma esperança. Acordamos nesta terça-feira com a notícia de que Oswaldo Alvarez, o Vadão, não será mais o técnico da seleção feminina – a informação veio do Planeta Futebol Feminino e foi confirmada oficialmente pela CBF nesta tarde.

Depois de dois anos de um investimento sem precedentes na seleção feminina – foi a primeira vez que a CBF olhou de verdade para as mulheres, colocando mais verba do que nunca antes havia colocado -, vimos a equipe ser eliminada nas oitavas de finais de uma Copa Mundo e amargar um quarto lugar na Olimpíada do Rio.

Sim, ele ganhou o ouro no Pan – em uma competição em que os principais adversários sequer levaram suas melhores jogadoras. Um ou outro Torneio Internacional no fim do ano, em cima de seleções de pouca expressão. Empatou ou perdeu os principais amistosos. E mais alguns detalhes importantes: não deu uma cara à seleção. Não havia padrão tático, não havia mudança de sistema quando o jogo não estava dando certo, não havia espaço para novas gerações na equipe, jogadoras experientes foram deixadas de lado, não havia alterações – apesar de que, pela regra, até 3 são permitidas, não é isso produção?

De qualquer forma, quem vive de passado é museu, e Vadão irá viver agora do seu histórico de 28 passagens por clubes, sendo que a mais longeva delas não durou muito mais que dois anos.

Mas vamos pensar para frente: Olimpíada do Rio já foi e estamos perdendo uma das jogadoras que mais vestiu a camisa da seleção e que é reverenciada por todos aqueles que acompanham futebol: Formiga se aposenta no fim desse ano… o que resta, afinal? Resta começar do zero um projeto moderno e ousar para o ciclo olímpico que se inicia.

Resta finalmente fazer algo que já deveria ter sido feito há tempos: trazer para seleção alguém preparado e que, acima de tudo, conheça a modalidade a fundo. Será que não está na hora de abrirmos espaço para uma mulher no comando?

A resposta felizmente já veio: EMILY LIMA CONFIRMADA COMO A NOVA TÉCNICA DA SELEÇÃO.

Pequeno passo, grande mudança

Ainda não dá para dizer que seremos campeões de tudo daqui para frente. Mas já podemos afirmar, pela primeira vez em muito tempo, que a CBF acertou!

O que mais precisávamos agora era exatamente de uma comissão técnica competente e que TENHA MULHERES. E se temos uma certeza agora é a de que teremos tudo isso.

Pra quem argumentava que “não há mulheres competentes para tal”, já falamos disso aqui, vale se informar.

Mas o ponto aqui é: tínhamos uma comissão para a seleção feminina formada apenas e tão somente por homens. Já imaginou uma seleção masculina sem nenhum homem na comissão técnica? Jamais aceitariam isso, né? Então por que aceitamos a seleção feminina sem nenhuma mulher na comissão técnica como se fosse “normal”?

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A comissão técnica do Vadão: só homens

Se ainda duvidam da competência feminina, olhem para a Copa do Mundo e para a Olimpíada, as principais competições de futebol feminino. Na Copa do ano passado, os Estados Unidos foram campeões em cima do Japão e quem estava no comando? Uma mulher, Jill Ellis, que conduziu a formação feminina dos EUA ao título de campeão do mundo de 2014, ao bater na final o Japão, com sua equipe marcando 4 gols em apenas 15 minutos de jogo (o resultado final foi 5×2). A treinadora ganhou a Bola de Ouro da FIFA como melhor treinadora de 2015, desbancando dois ótimos treinadores: o galês Mark Sampson, da seleção de Inglaterra e Norio Sasaki, da seleção do Japão.

Nos Jogos Olímpicos deste ano, Alemanha e Suécia foram as finalistas. As alemãs levaram o título inédito sob o comando de Silvia Neid, ex-camisa 10 da mesma seleção que fez parte da conquista de três  títulos continentais, em 1989, 1991 e 1995. Como treinadora da equipe desde 2005 (por longos 11 anos!) levou a seleção alemã às suas maiores conquistas: o bicampeonato da Copa do Mundo em 2007 e a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos Rio-2016. 

Silvia Neid of Germany, left, and Pia Sundhage of Sweden, right, nominees for the World  Soccer Coach of the Year for Women's Football, listen to journalists questions during a press conference at the FIFA Ballon d'Or awarding ceremony in Zurich, Switzerland, Monday, Jan. 13, 2014. (AP Photo/Keystone,Steffen Schmidt)
Silvia Neid, da Alemanha, e Pia Sundhage, da Suécia, finalistas da Olimpíada e indicadas a prêmio da Fifa de melhor técnica de 2016

Sua rival na final olímpica era Pia Sundaghe, sueca, bicampeã olímpica com a seleção americana (2008 e 2012) e vice campeão mundial em 2011. Desde 2012 é treinadora da Suécia e levou sua equipe à final olímpica, no Rio, eliminando os EUA nas quartas e o Brasil nos pênaltis na semifinal.

Estes dois nomes (entre tantos outros) são bons exemplos de que mulheres competentes entendem do jogo tanto quanto os homens – mas, mais do que isso, mulheres entendem de mulheres. Entendem as nuances do futebol feminino. E isso faz diferença.

Nos últimos anos, a CBF apostou em técnicos que são refugos do masculino para comandar a seleção feminina e que não tinham nenhuma ligação com a modalidade. O Vadão era mais um exemplo de treinador que não havia conquistado espaço e títulos de grande expressão no futebol masculino e sequer conhecia o feminino.

Além disso, trazendo técnicos e comissões inteiras do masculino, perde-se algo essencial na hora de formar uma seleção: o conhecimento de quem vive a modalidade, entende as deficiências, conhece as jogadoras e o estilo de jogo. Esses treinadores – até mesmo Renê Simões, que hoje é reverenciado, mas quando veio do masculino, aprendeu os nomes das jogadoras lendo a convocação que foi dada a ele – não sabem o que acontece no futebol feminino. Não conhecem o real valor que uma jogadora como a Formiga exerce dentro de campo. Nunca ouviram falar de Andressinha e Gabi Nunes, os novos talentos do futebol brasileiro. Não fazem ideia de quem são as melhores jogadoras, equipes e ligas do mundo, de como elas jogam, das dificuldades que enfrentam, das qualidades e fraquezas. Como, então, podem ser capazes, sozinhos (de novo, sem nenhuma mulher na comissão técnica atual), de comandar uma seleção sobre a qual não conhecem nada?

É claro que técnicos bons podem fazer um bom trabalho sempre – eles só precisam ter a humildade de buscar o conhecimento que não têm com quem tem. Mas quando os técnicos que já têm qualidade questionável no masculino são chamados para comandar o melhor do feminino, já se pode entender um pouco o desprezo com o qual a seleção delas tem sido tratada. Para elas, o “mais ou menos” do masculino já está de bom tamanho. 

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Emily Lima foi a primeira mulher a trabalhar como técnica na CBF – comandou as seleções de base em 2013

Importante frisar que há treinadores competentes e que poderiam também fazer um bom trabalho na frente da seleção feminina. Arthur Elias, treinador do Audax/Corinthians e atual campeão da Copa do Brasil Feminino é um exemplo de competência, que trabalha com a modalidade por mais de uma década. Além dele, Jonas Urias do Centro Olímpico é um bom nome quando o assunto é base. Jonas tem 27 anos e comanda as equipes mais jovens do Centro Olímpico desde 2010. O treinador já trabalhou com as equipes do Sub-13, Sub-15, Sub-17 e Sub-20, e é o único profissional que já passou por todas as categorias formadoras no clube. Neste ano, foi eleito como o melhor treinador do Campeonato Paulista pela Federação Paulista de Futebol.

Mais do que isso, temos uma mulher fazendo história e provando sua competência já há algum tempo – e que finalmente ganhou a chance que merecia. Emily Lima foi a primeira mulher a comandar as seleções de base (sub-15 e sub-17) na CBF em 2013, viajando e fazendo testes para encontrar as melhores meninas de cada canto do país. Agora, temos a honra de dizer que ela SERÁ A PRIMEIRA MULHER TÉCNICA DA SELEÇÃO PRINCIPAL.

Comandando o São José, ela foi vice do Brasileiro no ano passado, campeã paulista, vice da Copa do Brasil neste ano.  É uma mulher que estuda, faz cursos de treinadores pela CBF, visita técnicos do masculino (esteve com o Cuca no Palmeiras recentemente), se atualiza sobre tática, além de ser ex-jogadora (atuando no Brasil e Europa) e conhece muito bem a modalidade com que trabalha. Ou seja: estamos muito bem servidos.

Há também mulheres como Sissi, ex-craque do Brasil e que há 12 anos trabalha como técnica nos Estados Unidos, onde a nata do futebol feminino está e Marcia Tafarel, que também está há uma década em solo americano trabalhando com o futebol feminino.

Está na hora de uma comissão técnica cheia delas – trabalhando com eles também. Com Formiga junto, para auxiliar, aprender, reforçar. Cheia de gente competente e que queira trabalhar com o feminino.

E não adianta convidá-las e oferecer a elas um salário que vale um décimo do que ganhava a comissão técnica do Vadão. Mulheres (e homens) competentes merecem ser valorizadas. Vadão e cia ganhavam muito bem, obrigada, para comandarem a seleção feminina. Nada mais justo do que, quem substituí-los no cargo mais alto do futebol feminino, ganhe o mesmo.

PS: Coincidentemente hoje, a Fifa divulgou a lista de indicados ao prêmio de melhor técnico do futebol feminino. Vadão está nela. Mas pelo menos temos cinco representantes femininas na lista (metade dos 10 nomes que ela traz) – e vai ser difícil uma delas não levar, já que a campeã e a vice olímpica são mulheres.

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