Futebol Feminino

São José x São Paulo, 26 anos depois

Por Leandro Iamin

A igreja de São Judas Tadeu é a princesinha da praça Capitão Pedro Pinto, no bairro do Jardim Paulista, São José dos Campos, meu canto afetivo de desaceleração no mundo. Um pouquinho mais pra lá, a rodoviária. Do ladinho mais pra cá, o estádio Martins Pereira, primeiro túnel bonitão de vestiário que desbravei graças ao primo mais velho. Sou apaixonado por este estádio.

Como também era apaixonado pela Maria, a moça da rua Ceará com quem noivei sem casar. Por ela saí da rodoviária do Tietê às 4h30, e, 91 quilômetros depois, vi amanhecer em São José dos Campos. Era preciso entrar na igreja, surpreender Maria e sua família e dizer vejam, eu corri para estar com vocês na hora da missa, mesmo detestando missas e sem entender por que não pegar a cerimônia das onze.

Noventa e poucos améns depois, o domingo, a despeito do sono que sentia, se abria em sonho. A praça tinha sorvete e artistas, crianças e passarinhos. Eu tinha história pra contar. E o São José jogaria às 10h, ali do lado. Vamos? Vamos. Em troca de dormir a tarde toda e acordar com a sogra sorrindo desapontada, assistimos um delicioso 0x0 da Águia do Vale, com xingamentos curiosos, contágio espontâneo, tudo numa boa, aquilo não era tão importante assim para ninguém. Era mais que importante: era gostoso.

Mais um santo

Fui criado em São Paulo. As primeiras – e boa parte das melhores – lembranças da infância estão em São José dos Campos. O pacote de figurinhas do paulistão de 89, o primeiro que tenho vagas lembranças, era vermelho queimado, não vi na internet nem tenho foto refrescando a memória, mas lembro. A final daquele campeonato foi São Paulo x São José.

As duas finais aconteceram no Morumbi, por força política do Tricolor. Os passarinhos da praça agradeceram, mas o São José perdeu com um golzinho bem vagabundo e um pênalti a reivindicar. Minha cabeça de criança tinha certeza que o São José era um dos grandes times do Brasil. Se estava no meu álbum de figurinhas, estava na elite. Se jogava a final, era gigante. Não era, nem nunca foi, e fui entender isso sujando os pés de terra na cidade ao longo dos anos 90, de modo que São José dos Campos é uma porção imensa de saudades, cheiros, primos, astrais e silêncios, mas a primeira informação que tive da cidade foi que o São José era grande.

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E quem pode dizer que não é, em setembro de 2015? Entre todos os times de futebol do mundo, só dois são campeões mundiais. O São José é o campeão feminino. Não é pouca coisa. Não é fácil nem manter o time em uma cidade forte no rúgbi, no basquete e na politicagem clássica que não sustenta o que não dá lucro. É uma história de resistência, como quase todas na modalidade são, com a particularidade de ser, este São José, tudo que o time masculino não conseguiu ser. Quase campeão, quase estável na elite nacional, quase forte, a águia, artigo feminino, encontrou-se no jogo delas.

São José e São Paulo, 26 anos depois, se enfrentam em uma decisão estadual. Desta vez o elo forte do embate veste azul. É quem consegue mudar mandos e horários de jogos, é quem tem história recente maior, é quem tem garrafa velha para vender. Me parece apropriado e deve haver uma metáfora que não enxergo nessa coisa do futebol feminino inverter a força entre os santos finalistas, entre o caipira e o urbano.

Não, a cidade não trata a final como revanche por 1989. Não, a casa não estará cheia. Mesmo assim eu viverei um pouco do que achava ser o mundo lá atrás, quando o time de azul goleou o Corinthians na semifinal e encarou o tricolor da capital de igual pra igual. Talvez encontre meu ex-cunhado, sãopaulino que alimentava o sonho de ser presidente do São José. Talvez o maqueiro ainda seja o mesmo e a Margarida ainda faça superlanches por micropreços fora da cancha.

É curioso. O futebol masculino tal qual vemos e vivemos esgota nossa tolerância. Distancia os laços, é mais impessoal e menos sincero a cada dia. Pontos de fuga são necessários, e tenho os meus. Quando canso do ritmo poluído de São Paulo, tenho São José dos Campos para ir. Quando estou saturado de meu time do coração e sua vidinha tão rica e plastificada, tenho o São José para curtir. Quando o futebol masculino me enfia Neymares aleatórios em todas as refeições do dia e me cansa a pouca beleza, é o futebol feminino que me enternece e o basquete que me aquece – duas atividades fortes em SJC. Em suma, os pontos de fuga às vezes são tão legais que deveriam ser mais do que apenas pontos de fuga. De certa forma, já são.

Esta cidade parece que gosta mesmo de mim. E eu gosto muito dela.

Crédito fotográfico: Arquivo Museu de Esportes de São José dos Campos (time de 1989) e Pedro Ivo Prates.