esporte

Roller Derby saved my soul: os neologismos que empoderam

ladies_helltown

*Por Laís Montagnana

Xa.pu.le.tar. É um neologismo que surgiu no meu time de Roller Derby, as Ladies Of Helltown. É quase uma palavra de ordem, um grito de guerra, um verbo transitivo direto que significa sentar o sarrafo, baixar o cacete e atropelar em sexta marcha. É que o Roller Derby é praticamente uma escola de desprincesas que ensina, dentro das regras do jogo, que você é capaz de chutar bundas ou desferir hits violentos. Porque dentro da quadra, não vemos apenas jogadoras, e sim heroínas empoderadas sob patins quad.

Para quem não conhece, uma boa definição de Roller Derby é essa dada por Tati Lopatiuk no blog Lugar de Mulher.

“Cinco meninas em cada time, de patins quad (aqueles antiguinhos, sabe?), em uma pista oval. Dessas cinco meninas, uma tem a estrela no capacete e é a jammer. Ela tem a função de ultrapassar o bloqueio do time adversário – e cada adversária que ela ultrapassa é um ponto pra sua equipe. E como ultrapassar? O bloqueio formado pelas outras quatro meninas (wall ou pack) esta lá para segurar a jammer, que se defende correndo muito, dando alguns hits (ombradas ou “bundadas” nas áreas legais do corpo) e tendo muito jogo de cintura e conhecimento das regras. Assim é o Roller Derby, um esporte de contato, de explosão física e de estratégia.”

É muito comum você escutar das adeptas do esporte que “o roller derby salvou a minha alma”. E isso não é exagero. O esporte por si só é um instrumento de transformação, que traz autoconfiança, disciplina e autoconhecimento capazes de mudar sua vida. E o Roller Derby juntou tudo isso de uma maneira potencializada, pra mim, já que é um ambiente diferente de todas as outras atividades físicas que já pratiquei.

Como todo esporte, as meninas são supercompetitivas, mas de uma maneira saudável: sinto uma sororidade muito grande dentro e fora da quadra. Por ser um esporte coletivo, você depende das suas companheiras – e elas de você. Então ele me fez perceber que eu não preciso ter a melhor performance do mundo em tudo para ajudar o meu time. E sim focar nas minhas qualidades, dar o melhor e confiar nas coleguinhas!

roller_derby

Acho que a principal transformação que o Roller Derby provocou na minha relação com o esporte foi o empoderamento. De me sentir capaz de fazer o que eu me propuser a fazer. “Ah, mas não é violento demais pra você?”. Se eu fosse homem, será que eu teria que ouvir essa pergunta? Parece que sempre somos vistas como intrusas no esporte. Mas, no Roller Derby eu tenho o meu espaço. Como o esporte é essencialmente feminino, é Roller Derby e ponto. A prática dos homens que é chamada de Roller Derby masculino. E, infelizmente, não me recordo de ver isso em nenhum outro esporte. A sensação é de que ficamos sempre às sombras dos homens. No Roller Derby, não.

Você pode até achar que é uma bobagem eu me importar com esse “detalhe” na nomenclatura, mas isso é um ato político, uma luta por visibilidade, por igualdade de gêneros, para termos mais mulheres praticando esporte. E nós precisamos de representatividade, precisamos desse incentivo em um país machista como o nosso. No qual o esporte mais popular é majoritariamente praticado por homens, comandado por homens, narrado por homens e comentado por homens.

A gente precisa abrir o nosso espaço. Segundo pesquisa encomendada pela Always, até 17 anos, 53% das meninas terão desistido do esporte por medo ou falta de confiança. Não dá mais pra aceitar essa realidade que cria meninos pra dominar o mundo e domestica as nossas meninas. O Roller Derby tá aí pra quebrar com esses paradigmans de que “tal esporte não é coisa de menina” e mostrar pras nossas ‘princesas’ que, se elas quiserem, elas também podem xapuletar!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *