Futebol Feminino

‘Quero torcer, mas não me deixam’: a saga de quem tenta acompanhar de perto o futebol feminino

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Virgínia Martins relatou sua saga ao tentar acompanhar o Cresspom-DF no futebol feminino

Ainda pode parecer cedo para avaliar qualquer legado da Olimpíada do Rio de Janeiro, mas nós das ~dibradoras notamos uma diferença importante de lá para cá: têm sido frequentes as mensagens que recebemos de pessoas querendo saber e acompanhar de perto o que acontece no futebol feminino para além dos Jogos Olímpicos.

Temos tentado ao máximo trazer informações completas aqui – como fizemos nesse debate mesa-redonda sobre futebol feminino no podcast #52 e na última semana com o podcast sobre o novo time do Santa Cruz.

Mas o problema é que, quanto mais as pessoas procuram saber sobre o futebol feminino, mais elas encontram obstáculos para isso. A gente costuma dizer que vida de torcedor não é nem um pouco fácil quando nos referimos ao futebol masculino, porque são tantos momentos de aflição, tristeza e decepção, para outros tão escassos de alegria, que aqueles que não acompanham futebol não entendem por que insistimos nisso. Mas vida de torcedor do futebol feminino é imensamente mais difícil. Quase impossível, podemos dizer, até.

Primeiro porque não há campeonato para acompanhar o ano todo. Aliás, acompanhar? Como acompanhar se ninguém fala dos campeonatos? Não tem na TV, não tem nos principais jornais, não tem – muitas vezes nem mesmo nos sites dos organizadores dos campeonatos ou dos clubes que os disputam.

Aí você vai atrás, encontra páginas alternativas, caça informações, liga no clube, na federação, consegue descobrir o dia do jogo e… é numa quarta-feira, às 3 da tarde. Quem consegue ir a um jogo nesse horário?

quartas

E é exatamente isso que a brasiliense Virgínia Martins, que entrou em contato conosco pelo Facebook, está sentindo na pele. Depois da Olimpíada, ela decidiu acompanhar de perto o futebol feminino e se apaixonou pelo Cresspom, time do Distrito Federal que está indo muito bem, obrigada, na Copa do Brasil – atualmente, a equipe está nas quartas-de-final, naquela que já é a melhor campanha do clube na competição.

Aí ela foi tentar organizar uma turma toda para prestigiar as meninas no jogo de volta, quando elas só precisam do empate em casa para garantir a vaga na semifinal. Mas qual não foi a sua surpresa quando soube: a partida será a portas fechadas. Por quê? O clube alega que não pode arcar com os custos de um jogo aberto para a torcida.

Depois vão dizer que futebol feminino não desperta interesse do público. Mas como isso poderia acontecer se, quando desperta, o público não tem acesso ao futebol feminino? Não tem na TV, não tem nos sites, não tem nos jornais, nem mesmo no estádio, porque não nos deixam entrar.

O apelo agora é esse: deixem as meninas ~dibrarem, deixem as meninas (e os meninos) torcerem. Deixem o futebol feminino existir!

Vejam o relato da Virgínia Martins, engenheira de 26 anos e moradora do Distrito Federal:

“Acompanho a seleção feminina há pelo menos 10 anos, mas assistindo aos jogos especialmente de grandes campeonatos, como as Oimpíadas e a Copa do Mundo. Via poucos jogos locais na TV (até mesmo pela quase ausência de transmissão).

Futebol (masculino) nunca foi muito minha praia, gosto mais de acompanhar basquete. Mas nessas Olimpíadas, depois do pedido da Marta, tive um “estalo”. Eu não posso reclamar que o esporte não tem apoio sendo que eu mesma quase não assistia.

Resolvi tomar uma postura ativa e protagonista nessa história: fui buscar informações sobre o que estava acontecendo no esporte, se havia um time local, quem eram as melhores jogadoras, etc. Foi aí que eu conheci, em agosto deste ano, o Cresspom-DF e me apaixonei.

No jogo da primeira fase (da Copa do Brasil) não pude ir, fiquei doente, mas vibrei bastante com a vitória. Já no outro jogo dentro de casa, eu me desloquei 40 km para ver o time e não poderia ter valido mais a pena: gol de cabeça aos 45min do segundo tempo!

Só que agora, nas quartas-de-final, a diretoria do time optou por deixar os portões fechados. Cheguei a entrar em contato com eles, mas me disseram que será assim porque “os custos eram altos”. Mas como eles querem que a torcida apoie o time assim? O horário já não colabora muito para atrair o público (15h de uma quarta-feira), nem com as jogadoras (aqui tem muito sol e é muito seco). Além disso, não há divulgação dos jogos de uma forma eficiente. Só que mesmo assim o clube já tinha conquistado uma pequena torcida que iria ao jogo mesmo com todos esses contras. Estamos muito decepcionados.

Aqui em Brasília, o basquete também não tinha tradição alguma e, hoje, anos depois, temos um time vencedor, com eventos de basquete durante o ano, camisas profissionais, torcida organizada, cheerleaders. Tradição é construída e estou tentando junto com pessoas muito boas que estão determinadas a fazer o futebol feminino ser tradição aqui, como fizeram com o Iranduba, o Hulk do Amazonas. Mas assim fica quase impossível.”

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