Futebol

Quem é a primeira mulher a apitar jogos masculinos da 1ª divisão na Europa

bibi
Foto: Hannibal Hanschke/Reuters

Era outubro de 2014, o início de mais uma temporada do futebol alemão, quando o consagrado técnico Pep Guardiola, então no Bayern de Munique, foi conversar com a arbitragem para fazer mais uma reclamação corriqueira. Que só não seria mais corriqueira porque o treinador optou por colocar suas mãos sobre os ombros do alvo da reclamação – que, no caso, da maneira menos corriqueira possível, era uma mulher.

Bibiana Steinhaus era a quarta árbitra daquele jogo contra o Borussia Monchengladbach e não hesitou em rejeitar o gesto pouco respeitoso de Guardiola no segundo em que os dedos dele a encostaram. Na hora, ela arrancou a mão dele do ombro e sequer encarou seus olhos, como quem diz, sem precisar de palavras: “mais respeito, por favor”.

Ali Steinhaus começaria a chamar a atenção do mundo para o que já fazia muito bem, obrigada, há mais de 10 anos. Árbitra de futebol desde 1999, ela sonhava com o dia em que estaria no centro do campo apitando os jogos mais importantes do futebol alemão. E agora, reunindo a experiência de anos na segunda divisão, além de uma final de Copa do Mundo em 2011, uma final olímpica em 2012 e uma final de Champions League em 2017 (essas todas no futebol feminino), Steinhaus finalmente conseguiu chegar à Bundesliga – e será a primeira mulher a apitar jogos de primeira divisão do futebol masculino nas principais ligas europeias.

Uma conquista imensa – e tardia – que, para nós, brasileiros, já veio há mais tempo, quando Silvia Regina assumiu o apito em jogos do Brasileirão masculino no início da década de 2000. Mas que precisa ser valorizada para que não aconteça o que aconteceu por aqui – afinal de contas, depois dela, nenhuma outra mulher teve a mesma chance na primeira divisão, a não ser como bandeirinha (e mesmo essas já estão cada vez mais escassas).

“Sempre foi meu sonho apitar a Bundesliga. Essa é a confirmação de anos de trabalho duro e, ao mesmo tempo, um incentivo para seguir trabalhando firme e forte”, disse Bibi Steinhauss.

Ao contrário de muitas meninas – e de um sem número de meninos -, o sonho da pequena Bibi quando criança não passou muito por ser jogadora de futebol, mas sim pela área do apito. Seu pai era árbitro e foi nele que ela se inspirou para começar a exercer essa função no campo ainda aos 16 anos de idade.

bibi_guardiola

bibi_guardiola1

Policial por formação, a alemã de 1,81m de altura nunca deixou de lado a arbitragem e seguiu em frente com as duas profissões. Agora, aos 38 anos, ela ganhou os holofotes por uma conquista mais do que pessoal – e, principalmente, de igualdade. Uma consequência da outra.

“Eu nunca planejei quebrar barreiras de emancipação e igualdade. Eu só estou fazendo o que eu amo”, afirmou.

O anúncio de que Steinhauss ganharia a chance de apitar jogos da Bundesliga na temporada 2017-18 (que começou no último fim de semana) veio em maio e logo teve um impacto em toda a Alemanha.

O presidente da Confederação de Futebol do país (a DFB), Reinhard Grindel, comemorou o avanço já torcendo para que Steinhauss seja a primeira de muitas outras.

“Eu acompanho a carreira dela há anos e fico muito feliz. Parabéns aos responsáveis pela arbitragem pela decisão que mostra que, se você trabalhar forte e tiver bom desempenho, não importa de qual gênero você seja. Espero que esse seja um bom incentivo para muitas meninas no país que queiram se inspirar nela.”

Preconceito

A vida de qualquer árbitro de futebol não é fácil, por toda a pressão que o jogo (e a torcida) colocam nele(a), mas para quem é mulher nesse território ainda extremamente masculino, o trabalho é ainda mais ingrato.

Os árbitros homens são sempre “burros”, “cegos”, “ladrões” quando cometem um erro ou tomam uma decisão que desagrada aos jogadores e a torcida. Mas se quem estiver com o apito for uma mulher, aí ela “tem que voltar para a cozinha”, porque “isso não é lugar de mulher”.

Foi o que Steinhaus ouviu de um jogador em fevereiro de 2015. O meio-campista Kerem Demirbay, do Fortuna Düsseldorf, disse a ela que “mulheres não pertencem ao jogo dos homens” quando recebeu seu segundo cartão amarelo na partida.

bibi3

O caso ganhou grande repercussão, e o jogador acabou punido. Ele chegou a ligar para a árbitra para pedir desculpas, foi suspenso por cinco jogos e teve de apitar uma partida de meninas em um campeonato de juniores.

Agora, no auge de sua “fama”, Steinhaus sabe que terá de enfrentar uma pressão ainda maior dentro de campo por ser mulher – e por ser a primeira.

“Com certeza, por eu ser mulher, vou estar na mira de todo mundo nesta temporada, especialmente da mídia”, disse ela, pontuando que suas decisões dentro de campo (e eventuais erros) terão uma repercussão muito maior do que a de qualquer outro juiz da Bundesliga. “Mas eu não estou em busca de atenção, nem do público, nem da mídia, e quem me conhece sabe disso. Só quero fazer o meu trabalho”.

Ainda não há data certa para a estreia de Steinhaus na Bundesliga, mas a repercussão do feito dela já ganhou o mundo. Manchetes de jornais na Inglaterra, Espanha, Itália, etc, foram tomadas pela notícia “da primeira mulher a apitar na primeira divisão de uma competição masculina na Europa”. Quem sabe agora, com o exemplo dela, outras mulheres conquistem o mesmo espaço no futebol europeu e façam desse fato algo tão corriqueiro, que sequer precise mais ser noticiado.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *