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Quebrando tabus: após 30 anos, NFL finalmente terá mulher na narração

August 14, 2015; Oakland, CA, USA; Oakland Raiders preseason broadcasters (L-R) Matt Millen, Tim Brown, and Beth Mowins before a preseason NFL football game against the St. Louis Rams at O.co Coliseum. The Raiders defeated the Rams 18-3. Mandatory Credit: Kyle Terada-USA TODAY Sports
Credit: Kyle Terada-USA TODAY Sports

Não é só no futebol que o espaço destinado às mulheres ainda é marginalizado. Nos Estados Unidos, onde o futebol mais popular é o com a bola oval, elas ainda lutam para ocupar lugares que, por muito tempo, ficaram restritos aos homens.

Assim como no Brasil as transmissões futebolísticas ficam a cargo dos homens, por lá, as transmissões da NFL, a principal competição de futebol americano do país também são dominadas por eles. Ou eram. Porque nesta semana, um anúncio importante veio para quebrar esse tabu: em setembro, uma mulher se juntará aos homens na narração de uma partida da NFL na ESPN, um dos principais canais esportivos dos Estados Unidos.

Leia mais: As conquistas e lições da primeira treinadora em tempo integral da NFL

Beth Mowins, que fazia transmissões do futebol americano universitário desde 2005 e que também participou de partidas da Copa do Mundo de futebol feminino de 2011, ocupará agora um espaço vago por três décadas. A última – e única – vez que uma mulher teve participação na narração de um jogo da NFL foi em 1987, quando Gayle Sierens estve na transmissão do jogo entre Seattle Seahawks e Kansas City Chiefs na última semana daquela temporada.

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Beth Mowins trabalhou como repórter da ESPN em jogos da NBA e da WNBA

O jogo destinado a Beth Mowins será especial, em pleno horário nobre da televisão para o futebol americano. Será a segunda partida da chamada “Monday Night Football” da ESPN, a segunda-feira recheada de jogos da NFL na ESPN.

A partida será no próximo dia 11 de setembro entre Los Angeles Chargers e Denver Broncos, logo na semana 1 da temporada 2017/2018 da NFL.

Para se ter ideia do impacto que pode ter uma notícia dessas, vale mencionar os números do Monday Night Football na ESPN. Na temporada passada, 16,5 milhões de pessoas viram os jogos da NFL exibidos pelo canal, que tem uma de suas maiores audiências justamente nessas transmissões – um comercial veiculado durante o Monday Night Football custa mais de 370 mil dólares.

Isso significa milhares, milhões de pessoas até, vendo pela primeira vez em 30 anos uma mulher narrando as jogadas (o que eles chamam de “play-by-play”) de uma partida da NFL. E uma simples transmissão dessas pode inspirar meninas de todo o país a acreditarem que poderão um dia ocupar aquele mesmo lugar. Elas poderão olhar para Beth Mowins e sonhar em ser exatamente como ela no futuro – um sonho que até então parecia impossível para quem não fosse um garoto.

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Por que tanto tempo?

Se em 1987, foi possível ver uma mulher na mesma posição que Mowins ocupará em setembro deste ano, é difícil entender por que demorou tanto tempo para que pudéssemos ver isso se repetir. Àquela época, Gayle Sierens representou uma enorme conquista – porém sentiu que, junto com ela, veio também uma enorme pressão.

“Eu não tenho que ser boa. Eu tenho que ser excelente, melhor do que os melhores se isso for possível. Sim, isso é só porque eu sou uma mulher”, disse ela antes do jogo ao jornal St. Petersburg Times.

Uma sensação tão comum a milhões de mulheres em praticamente todas as áreas. A de precisarem ser perfeitas, de não poderem cometer nenhum deslize, para não dar motivo para os fatídicos comentários “olha aí, tinha que ser mulher”.

Sierens enfrentou o desafio e se saiu muito bem nele. Recebeu diversos elogios e até uma proposta para narrar seis outros jogos na temporada seguinte da NFL, a de 1988. No entanto, a oferta não era atrativa financeiramente – e incluía valores diferentes dos oferecidos aos homens para esta função. Ela não aceitou.

Será que alguma coisa teria sido diferente se ela tivesse narrado aqueles seis jogos?

“Eu não sei. Talvez eu nunca saiba a resposta para isso. Não sei por que nenhuma outra mulher chegou a quebrar esse tabu. Acho triste que não tenha acontecido antes. Espero que meu desempenho tenha sido bom o suficiente para que outras mulheres pudessem ganhar a mesma chance. Mas talvez não tenha sido. Talvez todo mundo tenha achado que foi divertido e fofo e uma ótima ideia, mas ‘não é bem isso que queremos ouvir nos nossos jogos’. Mas espero que alguém consiga uma oportunidade em breve”, foi o que ela disse em 2015 em uma entrevista ao Tampa-Bay Times.

É difícil compreender por que não aconteceu antes – possivelmente teve pouco a ver com o desempenho dela e muito a ver com o preconceito que ainda cerca as mulheres no esporte. Mas uma nova esperança se abre agora com Beth Mowins.

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Quem é ela?

Beth Mowins não entrou no Jornalismo Esportivo por acaso. Ela foi jogadora de basquete na época da faculdade, um dos destaques da Universidade de Lafayette, no estado americano de Louisiana, e está no Hall da Fama de lá.

No Jornalismo, estreou na ESPN ainda na década de 1990 como repórter e comentarista – era presença certa nas transmissões de basquete da NBA e da WNBA. Passou a narrar jogos universitários em 2005 e agora terá a chance de, ao lado d ex-treinador de New York Jets e Buffalo Bills, Rex Ryan, narrar um jogo oficial da NFL pela primeira vez.

“Essa é uma oportunidade incrível e eu estou muito animada para trabalhar junto com Rex e todo o nosso time da ESPN. Como uma fã de muito tempo do Monday Night Football, nós queremos trazer a mesma paixão para a transmissão que nossos antecessores trouxeram”, disse ela.

Não temos dúvidas de que, com tamanha experiência na área, Mowins narrará a partida de 11 de setembro com maestria. E o mais importante é que essa seja a primeira, mas não a única. Que venham mais jogos da temporada narrados por ela – e que isso abra caminho para mais mulheres nas transmissões.

Que 2017 marque o início de novos tempos no futebol americano e no esporte como um todo.

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