Futebol Feminino

Quanto vale um uniforme?

Duas pratas olímpicas, um vice-mundial, a melhor jogadora de todos os tempos, e nenhuma camiseta para contar história.

Ano olímpico, os jogos serão realizados no Brasil, o nosso futebol nunca ganhou uma medalha de ouro, e a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) lançou recentemente, em parceria com a patrocinadora Nike, os novos uniformes que a seleção brasileira usará neste ano.

Seleção brasileira (virgula), seleção brasileira de futebol MASCULINO, apenas. O motivo desse lançamento exclusivo ao time dos homens (ou exclusão à equipe feminina) ninguém sabe explicar. Pode ser cultural, pode ser por “falta de interesse do público”, pode ser pelo alto custo de se produzir camisas femininas… tudo pode ser, segundo as mesmas justificativas dadas pelos dirigentes da entidade, sempre. Mas o fato é que isso é vergonhoso.

brasil masculino

Afinal, quanto vale um uniforme? Duas medalhas olímpicas? Um vice-campeonato mundial? Os cinco títulos de melhor jogadora do mundo – daquela que, na verdade, é a melhor de todos os tempos? Quanto vale? Aparentemente, qualquer conquista dessas é irrelevante para a CBF, que é responsável tanto pela seleção masculina, quanto pela feminina – mas as mulheres sequer foram convidadas para fazer parte da festa. É como se não existissem.

Marta é idolatrada no futebol mundial em todas as partes do planeta, menos no país onde nasceu. A melhor do mundo – por CINCO VEZES CONSECUTIVAS – não tem uma camisa com seu nome para seus torcedores vestirem ou para inspirar tantas meninas que buscam espaço na modalidade. Mais do que títulos, o talento dela poderia conquistar uma legião de crianças, o futuro do futebol feminino no país. Mas se nem tudo isso vale uma camisa, o que mais é preciso?

Todo mundo sabe que o futebol feminino não tem o mesmo apoio que o masculino e não é sequer incentivado a ser consumido – vide o caso das camisas, sequer a melhor do mundo tem espaço nesse mercado. Logo, não há interesse. Não se recebe nem metade da atenção, espaço, dinheiro e holofotes que recebem os meninos.

Para aqueles que comandam esse esporte no país, as jogadoras não são consideradas profissionais, mesmo que defendam o Brasil em Mundiais e edições olímpicas. Mesmo que saiam de casa ainda meninas para tentar a sorte em qualquer campo por aí. Não importa se você enfrenta os preconceitos de família, amigos, sociedade pra poder jogar uma bola. Você é uma amadora!

E aí que no meio disso tudo, dos Jogos no Rio de Janeiro, do lançamento do uniforme masculino, você recapitula a história da modalidade nas Olimpíadas. Percebe que as mulheres começaram a disputar o torneio apenas em 1996 (o masculino disputa desde a primeira edição da Era Moderna, em 1920, na Antuérpia). Os homens já conquistaram duas medalhas de prata e três de bronze em toda a história. As mulheres, em apenas 6 edições (sem nenhum apoio e pouco fomento para a modalidade por aqui), conquistaram duas quartas posições e duas medalhas de prata heróicas. Acho que não ficam nem um pouco atrás deles.

Para retratar o valor dessas mulheres em campo, podemos começar falando da atleta Formiga, que no futebol, é a única (entre homens e mulheres) a vestir a camisa da seleção por seis ciclos olímpicos seguidos (fato que nossa “menina” de 37 anos alcançará em agosto).  Também podemos destacar Cristiane, que em 2012 se tornou a maior artilheira da história dos Jogos Olímpicos com 12 gols.

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E mais: se eles têm Neymar, um garoto de 22 anos que ainda sonha com o título de melhor do mundo, as mulheres têm Marta, com 30 e dona por cinco vezes desse título que o jovem ainda sonha. Uma das melhores jogadoras de futebol do mundo veio de Dois Riachos (Alagoas) e recentemente bateu o recorde que era de Pelé e se tornou a maior artilheira (entre homens e mulheres) da história da seleção brasileira – com menos jogos, no comparativo. Uma mulher é a responsável por mais balançar as redes na história do futebol brasileiro, meus amig@s!

E aí chega a hora de torcer por essa mulherada que vai entrar em campo, jogando em casa, mais uma vez buscando o primeiro lugar no pódio e sabe o que acontece? Não é possível comprar uma camiseta de nenhuma delas por aqui. Sério, é uma profunda falta de respeito ver uma segregação como essa.

Os apaixonados por futebol têm o direito de escolher seus ídolos e vestir a camisa com o nome de quem quiserem. E posso afirmar que muita gente admira essas garotas e deseja ter uma peça delas no armário. Me custa crer que um esporte que prega união e espírito de equipe não abra espaço no Brasil para que homens e mulheres possam vencer as desigualdades que ainda dominam a sociedade diariamente.

O lançamento da Nike contemplou uniformes para Brasil e Portugal (masculinos) e para Estados Unidos e Inglaterra (foto abaixo, respectivamente), neste dois últimos, com roupas para homens e mulheres. Os atletas posaram juntos para divulgação de suas camisas, nada mais justo.

USA misto inglaterra misto

A seleção feminina tem seu uniforme próprio, bem diferente do atual modelo que será usado pelos homens em 2016. O uniforme número 2 das meninas é lindo e desperta louco desejo de consumo para quem acompanha a modalidade. Ele existe, é exclusivo, porém não é comercializado. Alegam alto custo para fazê-lo e “empacamento” da mercadoria nas lojas de materiais esportivos. Será que é impossível fazer um e-commerce para produzir e vender apenas aquilo que se pede? Ainda sim haveria prejuízo? Seria uma forma da CBF ou da Nike mostrarem um tiquinho de respeito com a história das mulheres, não?!

O futebol brasileiro, instrumento político, de manifestação popular, de fair play, ainda nega a presença de suas mulheres em campo. Não se acredita nelas, não as expõe não as inclui. A CBF é a grande responsável por vender seu produto (o futebol feminino) e tem resultado satisfatório para fazê-lo. Há anos Marta vem se destacando, brilhando, ganhando prêmios e títulos e só se fala de Neymar. Perdemos a grande oportunidade de inspirar outras garotas por meio de nossa camisa 10 e também de ganhar dinheiro com isso.

Em destaque no site da CBF, a matéria: “Neymar e 10 imagens do nova camisa da Seleção” – http://selecao.cbf.com.br/noticias/selecao-masculina/neymar-e-10-imagens-do-novo-uniforme-da-selecao#.VuxgHvlViko

Neymar (2)

Uma camiseta oficial, ao menos em ano olímpico, seria exigência mínima perto de todos esses anos em que elas foram ignoradas. Mas, diferente de outras seleções e países do mundo, elas seguirão sem visibilidade, afinal, o futebol delas, por aqui, não passa de amador. Mas se a medalha vier, quem sabe, elas poderão ser reconhecidas como filhas da pátria mãe gentil.

Merece destaque

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Pela primeira vez na história, a seleção feminina de futebol do Afeganistão ganhou um uniforme que busca aliar a performance esportiva às tradições do país. Lançada no Dia Internacional da Mulher, a nova camisa da equipe tem a opção de integrar uma hijab, a vestimenta usada pelas mulheres muçulmanas para cobrirem o corpo dos pés à cabeça.

Segundo o dono da Hummel (marca dinamarquesa), Christian Stadil, a ação é mais um passo da missão da empresa de “mudar o mundo através do esporte”. “Não patrocinamos os maiores times do mundo, mas fazemos parcerias com times e clubes que têm uma história pra contar, como o Afeganistão. Tentamos atender às necessidades atuais das pessoas e agora uma delas é ajudar as mulheres a jogarem futebol com ou sem hijab”, explica.

4 Comments

  1. Excelente texto, parabens ! Nosso site é sobre lancamentos de uniformes e notamos isso tambem da falta das mulheres na divulgacao das novas camisas da CBF. E essa camisa azul feminina é a mais linda que a selecao ja teve de todas que a Nike já fez e nunca colocaram para vender. PArabens pelo trabalho de vcs.

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