Futebol Feminino

“Quando eu pedia pra jogar, eles faziam rodinha para ver se iam deixar”: a saga de uma menina para jogar futebol

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Assim que Elizabete Kittler soube que a criança que estava esperando era menina, ela começou a fazer mil planos. Já sonhava com as roupinhas rosas, o vestido de bailarina, a sapatilha delicada, a filha fazendo “Plié” e sorrindo para a foto.

Até talvez pouco tempo atrás, era esse o imaginário de quase todas as mulheres quando pensavam nas suas filhas meninas dentro daqueles padrões que a gente simplesmente aprende e aceita, sem perguntar por quê.

Mal sabia ela o tanto que a pequena Isabella iria ensiná-la poucos anos depois de nascer – e, assim, meio sem querer.

A garota ia ao Ballet e vestia o colant rosa, mas nunca se empolgou com isso. Pelo contrário: o que ela gostava mesmo era de correr no quintal atrás da bola com os meninos. Nem toda menina nasceu pra ser bailarina, afinal.

“Eu sonhava em ter uma menina, mas toda de rosa. Eu consegui isso até ela fazer 3 ou 4 anos. Mas hoje ela tem pavor a rosa. E eu enchia ela de rosa, tadinha”, confessou a mãe, Beth, às dibradoras.

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Isabella não gostou muito do Ballet, como queria a mãe

“No começo foi muito difícil para mim, achava que ela tinha que ser toda princesa. Ela começou a jogar na escolinha, tinha educação física, e aí ela começou a querer saber mais sobre futebol, queria estar com os amigos. Aí um amiguinho a chamou para jogar. E ela queria ir. Ela não queria saber mais de sandália, só chuteira. Foi complicado. Mas aos poucos eu fui curtindo.”

Isabella, literalmente, trocou as sapatilhas pelas chuteiras e passou a jogar numa escolinha com os meninos. Mas quando mudou para outro colégio, não foi tão bem recebida assim.

“Ela foi pra uma escola maior, era o primeiro ano, e a gente queria deixá-la ali até terminar. Aí ela começou a se enturmar, só que ela pediu pra fazer atividade extra, que era esporte. Só tinha menino – e ela de menina”, contou a mãe. A saga de Isabella para jogar futebol estava só começando.

“As meninas iam pro jazz, pro balet, outra coisa. Então os meninos não queriam deixá-la jogar. Mas ela não contava pra mim que estava sofrendo. As meninas não deixavam ela ficar na turma no recreio porque ela jogava bola, não tinha perfil de sentar, brincar de boneca, de casinha, sempre quis fazer esporte”, disse.

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“E os meninos também não era sempre que a aceitavam no meio deles. Então ela pediu pelo amor de Deus para mudar de escola. Chegou a ter febre até, porque não queria ficar ali.”

Isabella não se encaixava no que esperavam dela. Nem para ser menina, brincando com as coisas que diziam ser “de menina”, nem para estar no meio dos meninos, sendo “a diferente” do grupo. A história poderia, inclusive, ter acabado ali, com a garota desistindo da bola e aprendendo a gostar do jazz, da sapatilha, do colant rosa.

“Quando eu pedia para jogar, eles faziam uma rodinha para conversar e decidir se iam deixar ou não. E às vezes eu era deixada de lado, sem fazer nada”, conta ela.

Com autorização ou sem autorização dos meninos, porém, Isa persistiu e foi atrás do que gostava. Mudou de escola e, sem encontrar categoria feminina para a sua idade, foi jogar no time dos garotos. Se ela se intimidou? Que nada, em pouco tempo, virou a craque do time.

“Ela não tem medo. Ela enfrenta, pra ela não tem problema nenhum se vai jogar com menino ou com menina”, disse a mãe.

E enfrenta mesmo. Tanto é que no campeonato que sua escola, o Santa Amália, disputou, só de meninos, ela acabou entrando para substituir um dos jogadores na disputa pelo terceiro lugar e fez um dos gols que garantiu a vitória e a medalha.

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Como tantas meninas que querem jogar futebol, Isa teve que resistir, provar sua capacidade milhões de vezes e insistir para conseguir um espaço que deveria ser garantido a ela, como é garantido a qualquer menino que se arrisca com a bola por aí. E foi assim que ela conseguiu mudar a cabeça da própria mãe sobre um preconceito que já não deveria existir há muito tempo.

“Hoje eu vejo a felicidade dela e isso é a coisa mais importante pra mim. Isso não é algo prejudicial para ela, pelo contrário. Ela está se desenvolvendo muito melhor por causa do futebol. Eu vi que era um preconceito bobo mesmo.”

Aos 12 anos de idade, Isa já sabe como ~dibrar o tal preconceito que, infelizmente, ainda é realidade. “As pessoas que ainda acham isso (que menina não pode jogar futebol)… no fundo eu acho que elas são ignorantes. Porque elas não sabem do que eu sou capaz.”

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Futuro?

A mãe da Isa já até imagina sua filha virando jogadora profissional. Ainda é cedo para saber, mas ao menos nesta semana, a menina já ganhou uma excelente notícia caso escolha percorrer esse caminho.

A Federação Paulista de Futebol, sob a coordenação da ex-capitã da seleção brasileira no futebol feminino, Aline Pellegrino, anunciou a disputa da primeira edição do Campeonato Paulista Sub-17 neste ano. Uma competição pensada para desenvolver a modalidade entre as mulheres e fortalecer as categorias de base.

Serão 16 times participando e pouco mais de dois meses de competição – começando em 11 de março e terminando em 28 de maio.

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“É fundamental para a modalidade ter um campeonato de base feminino. Esse é um desejo antigo das entusiastas do esporte e que, com certeza, elevará o patamar da modalidade no país. Queremos revelar novas Formigas, novas Martas, Cristianes para manter o Brasil como referência do futebol feminino”, disse Aline.

O futuro, agora, já começa a parecer promissor para o futebol feminino. Tantas meninas, como Isabella, que passaram a infância e adolescência tendo que jogar campeonatos masculinos apenas, porque os femininos não existiam; tendo que cavar espaço nas equipes de meninos, porque as de meninas não completavam; tendo que caçar clubes, times, ao redor do país que as acolhessem, porque a maioria não tinha categoria feminina; tendo que estrear no profissional com 15, 16 anos, sendo jogadas ali sem qualquer preparo físico e técnico anterior.

Quantos talentos não foram desperdiçados desde então? Agora, ao menos, Isabella já tem o que almejar. Ela já pode sonhar um dia estar disputando o Campeonato Paulista Sub-17 para começar a carreira como tem que ser: pela base.

4 Comments

  1. Minhas filhas também gostaram mais de futebol. Cheguei a colocá-las numa escolinha mas depois seguiram suas vidas. Noto que existe um interesse crescente do futebol pelas mulheres! Onde trabalhava as meninas até faziam jogos regularmente. Parabéns pelo site.

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