Futebol Feminino

Precisamos falar sobre musas

Aconteceu na Copa do Mundo feminina, depois no Pan-Americano de Toronto. Agora nos Jogos Mundiais Indígenas (!). E, infelizmente, vai acontecer na Olimpíada do Rio no ano que vem. A abordagem da mídia esportiva tradicional com relação às mulheres no esporte sempre parte da perspectiva das “musas”.

Muitas vezes – ou na maioria delas -, pouco importa o desempenho esportivo das atletas mulheres. Ou, quando importa, ele é sempre um atributo secundário – como nessa matéria sobre a zagueira canadense Lauren Sesselmann: “Musa da Copa feminina joga (oh, really? Ela JOGA???), é atriz e fatura ensinando a malhar”. Sesselmann não era a melhor jogadora do Canadá e até foi criticada por um erro que colaborou para a eliminação do time da casa no Mundial diante da Inglaterra.

Mas quem se importa com as habilidades esportivas quando a atleta em questão é loira, tem olhos azuis e estampa uma foto bem sensual de biquíni nas redes sociais?

Agora, a “musificação” da vez veio na primeira edição dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, que começou no último final de semana em Palmas. “’Índias gatas’ fazem desfile especial nos Jogos Mundiais de Palmas”, dizia a manchete da Folha de S.Paulo. E a matéria ainda foi escrita por uma mulher! [Algumas horas depois de ter publicado a matéria, a Folha retirou o termo “gatas” da manchete].

MUSAS_CERTO

“Que SPFW, que nada! Pelo menos na noite deste sábado, o destaque dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas foi a beleza de 60 mulheres brasileiras e estrangeiras”, era o lide da matéria.

Engraçado que, quando se fala de mulheres, o destaque é sempre a beleza. E quando não há “beleza” segundo os critérios das redações esportivas, não há, naturalmente, destaque. Pode reparar. Quando uma mulher estampa os principais espaços da home dos portais brasileiros, é sempre acompanhada da manchete “musa” de alguma coisa. Ou então, ao menos a foto é sensualizada.

O tênis feminino que o diga. As fotos sempre mostram Serena Williams abaixando para pegar a bolinha, Maria Sharapova e sua saia curtinha levantando durante o jogo, Caroline Wozniacki esticando suas pernas para salvar uma bola. O apelo está em todo o lugar.

musas2

E nas competições esportivas, como Olimpíada ou Pan-Americano, parece que é regra: tem que ter a “eleita musa da competição”. No último Pan, a “escolhida” foi Ingrid Oliveira, uma grande promessa dos saltos ornamentais, que foi fisgada pelos portais após ter postado uma foto nas redes sociais em que apontava para o telão que anunciava os Jogos.

Um dos portais chegou a noticiar: “Musa do salto ornamental publica foto da bunda e gera polêmica nas redes sociais” – oi? Publica foto da bunda? A foto de Ingrid nada mais mostra do que ela própria vestida com seu uniforme – pra quem não sabe, atletas do salto ornamental usam maiôs como uniforme – e sentada sobre a plataforma onde treinava para a competição em Toronto.

O suficiente para ter virado “Musa do Pan”. Em todas as manchetes que se seguiram, esqueceu-se o nome da atleta. “Musa do Pan erra e cai”, “Musa do Pan fatura medalha”, “Musa do Pan isso”, “Musa do Pan aquilo”.

musa3 read more at

E eu sigo me perguntando: até quando?

O curioso é que quando comentei sobre a minha revolta com homens – jornalistas e outros que estão envolvidos no meio esportivo -, alguns deles rebateram questionando: “Mas por que incomoda tanto a vocês mulheres serem chamadas de bonitas? Vocês não gostam de ser elogiadas?”.

Eles não entendem.

Não é questão de elogio. Não é questão de beleza. É o fato de SÓ sermos lembradas e destacadas por esse aspecto. Não interessa quem está por trás disso, não interessa a jogadora, a atleta, a índia. O que importa é se ela é “gata” ou não, se ela é “musa” ou não. O resto é sempre secundário, sempre um detalhe. O que importa é atrair cliques.

Mas aí eu pergunto à imprensa esportiva: será que não está na hora de pensar no seu papel como a tal “formadora de opinião”? Que opinião essa mídia quer formar ao estampar nas manchetes a erotização da mulher e a cultura machista, que já é tão dominante na sociedade – e que leva o país a ter 500 mil mulheres estupradas por ano? (Dados do Ipea, aqui)

Por essas e outras, precisamos falar sobre musas.

4 Comments

  1. Renata, vejo isso em meu blog sobre futebol feminino. As vezes quero fazer uma matéria sobre alguma jogadora e a primeira coisa que eu escuto é “nossa, como ela é bonita !”, não seria nada demais se as habilidades dela em campo não ficassem em segundo plano. Isso quando eles não fazem alguma piada ofensiva ou machista…Infelizmente a sociedade brasileira ainda está longe de ser a ideal e o machismo sempre imperará entre nós.

  2. Engraçado que as próprias mulheres citadas não reclamam nenhum pouco do fato de serem consideradas musas, pelo contrário, usam isso ao seu favor e através da própria imagem ganham mais dinheiro que a atividade esportiva principal. O esporte sozinho não gera dinheiro, isso só acontece quando o mesmo está na mídia e vende produtos, e isso vale para homens e mulheres. Neymar não ganha rios de dinheiro e é endeusado porque sabe chutar uma bola, mas sim porque sua imagem vende carros, roupas, celulares, etc. O dia que o futebol feminino e outros esportes pararem de choramingar e souberem trabalhar a si mesmos como produtos rentáveis a situação vai começar a mudar, e explorar a beleza física das atletas não tem nada de errado.

  3. Parabéns pelo seu trabalho e pelo artigo. Essa exposição desnecessária em competições esportivas chega a ser exaustiva. É impossível entrar nos portais mais famosos sem se deparar com “as 10 musas do torneio tal”. Para mim, é um misto de falta de profissionalismo com exploração da figura feminina.

Comments are closed.