Futebol Masculino, machismo

Precisamos falar sobre ‘a filha de Renato Gaúcho’

Por Juliana Arreguy

Não gosto de textos que iniciam com a frase “precisamos falar sobre”. Mas abro uma exceção para Carol Portaluppi: precisamos conversar sobre o papel dela no futebol.

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Carol dispensa apresentações. Corrigindo: Carol precisa de melhores apresentações. A busca por seu nome no google aponta “idade”, “gremio”, “instagram”, “altura”, “namorado”. Apenas Grêmio faz menção ao futebol. Nas notícias principais, destaque para o link “Carol Portaluppi comemora título do Grêmio em campo e ganha medalha”. A foto, no entanto, mostra a garota na praia, de biquini. Não entendi. Que eu me lembre (e minha memória é maravilhosa), Carol entrou no gramado do pós jogo de quarta inteiramente vestida. Qual o motivo de ilustrar uma notícia sobre ela com sua foto na praia? O seu Instagram, com mais de mil publicações, mostra muitas fotos na praia. E é um direito seu postar o que quiser, não quero entrar nesse mérito. Mas existe um oportunismo em torno da figura da moça que chega ser a deprimente.

Carol atrai cliques, já me disseram mais de uma vez. Carol ganha galerias de fotos em inúmeros portais. O que Carol não ganha é uma chance de opinar sobre futebol diante dos microfones. Não digo que a moça não dê entrevistas, pelo contrário. Mas me refiro ao teor das perguntas direcionadas a ela: seus atributos físicos, sua relação com o pai, se o pai recebeu proposta de outro clube, se jogador X, de quem é amiga, voltaria a jogar no Brasil.

O roteiro é tão previsível que me pergunto se ela já não tem uma resposta pronta para tudo. Sinto que já conheço tudo sobre Carol. O meio privilegiado que ela ocupa no esporte, sem dúvida, é chamariz para que muitos repórteres a procurem como fonte. Mas é apenas isso. Seu papel no esporte, como o de muitas mulheres, é relegado ao de enfeite ou ao de intermediária. Nunca protagonista de si mesma.

Renato Portaluppi, conhecido pelas muitas namoradas quando jogador, mostra muito respeito pela filha. Quis Carol ao seu lado na final da Copa do Brasil e ofereceu pagar do próprio bolso a multa que o STJD quis infringir ao clube por sua presença no gramado no jogo de volta da semifinal. Na finalíssima, em casa, circularam de mãos dadas o tempo todo. O técnico fez questão de tê-la ao seu lado e de seu apoio durante a coletiva. E mostrou que futebol é uma paixão compartilhada com a filha, seu “talismã”. Salvo imprensa, era a única mulher em campo durante a comemoração do título. Poderia ter ficado na tribuna, em algum camarote, ou até mesmo em casa. Mas, ao lado do pai e à vista de todos, mostrou que seu lugar também é no gramado.

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Pensem no acesso que ela tem no meio? Eu gostaria muito de conhecer a Carol torcedora. Saber o que ela tem a dizer sobre o Grêmio na Libertadores do ano que vem. Quem ela acha que o clube deve manter para a próxima temporada. Se teria liberdade para pedir ao pai que trouxesse esse ou aquele jogador para reforçar a equipe. Quem ela votaria para craque do Brasileirão. Ela costuma dar pitacos na escalação do pai? Será que já reclamou com ele de ter deixado alguém no banco? E, amiga de tantos jogadores, não teria alguns palpites diferentes sobre o mercado da bola? Quem é Carolina Portaluppi torcedora e não apenas beldade? Esta, sim, eu gostaria de conhecer.

(Foto: Wesley Santos / Agência PressDigital)

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