Futebol Feminino

Pra voltar a torcer pelo Corinthians

Não é segredo para ninguém o quanto eu amo o futebol, uma paixão que me acompanhou a vida inteira. Mas devo dizer que esse último ano, mesmo vendo meu time ser campeão brasileiro e jogando em alto nível, gastei pouco do meu tempo vendo o Corinthians jogar.

É que por maior que seja o amor que tenho pelo meu time, já não consigo mais não me incomodar com o fato de o futebol por aqui ser tratado como algo exclusivamente masculino. Como se só eles pudessem jogar, comentar, ganhar em cima disso – como se elas não tivessem vez (e não têm mesmo).

Comemorar o Corinthians campeão com os salários milionários (fora os prêmios) pagos aos jogadores me faz pensar nas oportunidades que foram negadas a elas, às mulheres que praticam o mesmo esporte e ganham tão pouco (ou nada) por isso.

Mas agora, em 2016, tenho motivo para voltar a acompanhar o Corinthians como antes – e a comemorar com ele como nunca. Isso por causa da confirmação de que agora teremos um time feminino, o que permite que demos os primeiros passos no resgate do sentido de “nação”. Mesmo com esse avanço, sabemos que o abismo entre a equipe masculina e a feminina ainda é gigantesco, razão pela qual se deu meu afastamento desse ano.

Porque eu realmente não consigo deixar de lado o descaso com o futebol feminino, ao mesmo tempo em que os jogadores ganham dinheiro e prestígio muito além do necessário. Dói saber que tem tanta jogadora talentosa por aí que nem ao menos tem um time para jogar e, quando tem, encontra equipes mal-estruturadas (que por vezes duram apenas uma temporada) e oferecem condições precárias para suas atletas.

O campeonato brasileiro feminino desse ano foi um exemplo disso. Jogos que nem ao menos contavam com uma ambulância no local para atender as atletas; estádios sem água, luz ou segurança; jogos em horários completamente impróprios, com um calor de 39 graus. Atletas desmaiadas, com os joelhos feridos por causa da grama sintética dos campos em que jogaram. Física e emocionalmente esgotadas. Um desrespeito sem tamanho.

Ao mesmo tempo vejo Guerreiro trocando o Corinthians, time que o consagrou e onde o atleta viveu a melhor fase de sua carreira, pelo Flamengo por causa de alguns milhões de reais que não lhe fazem falta. Vejo Vidal, jogador de seleção chilena, no meio da disputa da copa América em seu próprio país, batendo sua Ferrari depois de dirigir embriagado. E mesmo com a demonstração de que não tinha qualquer respeito pelo seu país ou pelo esporte, lá estava ele disputando a final do torneio, livre de punição e aclamado pela torcida.

Vejo Neymar e Messi (os melhores do mundo, dizem por aí) sofrendo investigação por sonegação de impostos. Vejo Neymar, nosso grande ídolo e exemplo para nossas crianças, agredindo a troco de nada um atleta, quando seu desempenho e o do seu time não são o esperado. Ou Suarez que MORDEU outro atleta em campo e segue ídolo no Barcelona.

Por que são ídolos? Merecem esse lugar? São grandes jogadores, sem dúvidas. Mas temos uma vasta gama de atletas mulheres tão talentosas quanto eles, ou ainda mais, que nem ao menos tem a oportunidade de viverem como profissionais do esporte. E que se tivessem, com certeza, não fariam esse papelão que os ditos ídolos fazem.

O futebol masculino virou um espetáculo de cartolas, corrupção, dinheiro, glamour e preocupação com venda de camisas. Para os homens, tudo. Para as minas, nada.

Hoje em dia, uma menina sonhar em ganhar a vida jogando futebol no Brasil é utópico.

Uma mina sonhar em defender as cores do seu time do coração então, ainda mais! Se tiver uma filha (e ela há de ser corinthiana!) espero que ela possa sonhar em defender a camisa do Timão. E pra isso, torço para que esse projeto do time profissional feminino que começa em 2016 tenha vida longa. É o primeiro passo para a nação corinthiana ser de fato uma NAÇÃO.

E aí sim, vou ao estádio gritar ‘Vai, Corinthians!’ como nunca gritei na minha vida.

Colaboração: ~dibra Renata Mendonça