Futebol Feminino

Por que você precisa conhecer e admirar Marta

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*Por Juliana Arreguy e Renata Mendonça

É engraçado como às vezes parece que algumas pessoas vieram ao mundo predestinadas a mudar o curso da história. A impressão que dá é de que a função delas no planeta é essa: nascer e fazer história – transformar a história, no caso dela.

Marta Vieira da Silva nasceu no dia 19 de fevereiro de 1986. E hoje, 31 anos depois, já dá para dizer que ela dividiu a história do futebol feminino no Brasil – e até no mundo. Existe o futebol feminino pré-Marta e existirá um dia o pós-Marta. O que ela fez nesse meio tempo é inacreditável, inimaginável, insubestimável. Algo que, se não existissem vídeos (como ese aqui) para contar, dava até para duvidar.

Mas infelizmente, apesar de sua importância inestimável, a história de Marta ainda não é tão conhecida por aqui. O maior ícone do futebol feminino passou por dificuldades sem fim, da pobreza em Dois Riachos, à viagem de ônibus de mais de 20h para o Rio de Janeiro, de clubes fechando as portas e a deixando sem nada até o frio absurdo da Suécia que congelava os pés – e, mais do que adversários, Marta enfrentou todo o tipo de preconceito. E venceu.

E como homenagem a ela nesse aniversário de 31 anos, contamos aqui alguns fatos pouco conhecidos da nossa eterna camisa 10.

RIO DE JANEIRO, RJ, BRASIL, 26-07-2007: Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, 2007: Futebol Feminino: Seleção brasileira 5 x 0 Seleção dos EUA: a meio-campista Marta comemora a medalha de ouro conquistada pela seleção brasileira nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro de 2007, depois de vitória por 5 a 0 sobre a seleção dos EUA, no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro (RJ). O Brasil conquistou a medalha de ouro. (Foto: Moacyr Lopes Junior/Folhapress)
Marta celebra medalha de ouro no Pan-Americano de 2007 em casa

Infância

Dois Riachos, no interior do Alagoas, sequer constava no mapa do Brasil quando Marta veio ao mundo. Criada pela mãe e pelos irmãos, sem ter sequer uma certidão de nascimento, encarou a labuta desde cedo para ajudar em casa.

Aos cinco anos conseguiu comprar seu primeiro calção de futebol com economias que havia juntado da venda de sorvetes. Ainda criança, atuou como goleira em jogos de handebol na escola Dom José Júlio de Freitas. Mas estava destinada a brilhar com a bola nos pés.

A canhota talentosa atraiu a atenção do professor de educação física, que a levou para disputar um torneio juvenil em uma cidade próxima. Com 9 anos, Marta era a única garota na equipe local que participou da competição.

Eleita artilheira e sagrada campeã em sua segunda edição, a menina não foi vista com bons olhos por muitos dos pais e mães que acompanharam suas atuações; a diretoria do torneio recebeu reclamações sobre a participação “de uma garota”. Irmão mais velho de Marta, José a trancou em casa algumas vezes para impedir que jogasse futebol – ele temia que a caçula sofresse alguma hostilidade na rua.

No entanto, já dando mostras da forte personalidade que apresenta em campo, Marta sempre arrumava uma maneira de fugir para jogar bola. Depois de atuar por um tempo pelo CSA de Dois Riachos, recebeu um convite que mudaria sua vida. Marcos Roberto Silveira Pires, funcionário do Banco do Brasil que a viu no torneio de Santana do Ipanema e estava de mudança para o Rio de Janeiro, propôs que ela viajasse com ele para realizar um teste no Vasco.

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Início

De posse de seu primeiro documento oficial, uma RG tirada às vésperas da viagem, Marta chegou ao time feminino do Vasco em 2001. Logo em seu ano de estreia foi convocada para a Seleção de base e, no ano seguinte, aos 16 anos, terminou eleita segunda melhor jogadora do Mundial sub-19, atrás apenas da canadense Christine Sinclair.

A recepção de Marta ao retornar do Mundial não foi das melhores: a equipe feminina do Vasco anunciou que fecharia as portas por falta de apoio. Sem outra perspectiva no Rio, Marta mudou-se para Contagem-MG, na Grande Belo Horizonte, para jogar pelo Santa Cruz, equipe amadora local. Com ajuda de custo de R$200, continuou enviando parte do ordenado para ajudar a família em Dois Riachos.

Mesmo jovem, herdou a antiga camisa 10 de Sissi na Seleção principal para atuar na Copa do Mundo de 2003. O Brasil foi eliminado pela Súecia nas quartas-de-final, mas o desempenho de Marta na derrota por 2 a 1 captou a atenção dos diretores do Umea IK, que acompanhavam a partida. O que, para a Seleção, parecia uma perda, para Marta significou a maior das reviravoltas: uma proposta para atuar na Europa.

Sucesso

Foi no início de fevereiro que Marta desembarcou na Suécia pela primeira vez para jogar no Umea IK. Aquele país que ela nem sabia onde ficava, se existia, em que continente era. Mas a primeira coisa que ela definitivamente soube sobre ele foi: era um lugar frio pra c******, com o perdão da palavra.

“Cheguei lá em fevereiro, estava nevando. Eu nem tinha casaco para aquele frio todo. Eu pensei: não é possível, devem ter me mandado pro lugar errado. Não tem como jogar futebol nesse frio todo”, contou ela às dibradoras.

Tinha. E teve. Marta não demorou muito para se adaptar. Aos 17 anos, chegou, enfrentou o frio, a neve, os pés congelando na chuteira, a língua que ela não conhecia – “mas futebol é uma língua mundial, né, dentro de campo a gente se entendia”, disse ela – e logo o mundo foi descobrindo o talento daquela que um dia seria chamada “a melhor de todos os tempos”.

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Foi naquele mesmo ano, em 2003, que ela recebeu sua primeira indicação ao prêmio de Melhor Jogadora do Mundo da Fifa – outras 13 viriam em seguida.

Com o Umea IK, conquistou a Champions League feminina (2003-04), a Supercopa da Suécia (2003-04), quatro vezes o Campeonato Sueco (de 2005 a 2008), uma vez a Copa da Suécia (2007).

Foi lá também que ela desenvolveu o melhor de seu futebol para brilhar na seleção. Em 2003, já encantou a América ao ajudar a seleção brasileira a conquistar o ouro no Pan-Americano. O futebol feminino, que até então era completamente ignorado no Brasil, passou a ser lembrado por causa daquela menina que encantava os olhos de qualquer um que gostasse de futebol. E ela só tinha 17 anos.

No ano seguinte, em 2004, ela seria essencial na campanha histórica da seleção brasileira na Olimpíada de Atenas, onde veio a primeira medalha de prata do Brasil na modalidade.

Saindo da Suécia, Marta foi vive a experiência de jogar nos Estados Unidos, o berço do futebol feminino, no Los Angeles Sol, passou pelo Santos, voltou a terras americanas, viu seu time fechar as portas, jogou no Golden Pride, depois no New York Flash, depois voltou para a Europa e de lá não saiu mais – jogou no Tyreso e no Rosengard, ambos da Suécia (esse último é onde ela está até hoje).

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Mas talvez um dos jogos mais marcantes de Marta tenha vindo três anos depois, em 2007, na Copa do Mundo. Era a semifinal da competição diante dos Estados Unidos, o mesmo time que tinha derrotado o Brasil na dramática final olímpica de Atenas. Mas Marta liderou o time para uma goleada histórica: 4 a 0 em cima das poderosas americanas com direito a esse golaço que, como disse Luciano do Valle, foi de “de gênio”.

O título não veio, ficou no vice de novo, quando paramos nas alemãs na final, mas ali já era possível dizer que Marta, a artilheira da competição com 7 gols, estava quebrando paradigmas e mudando a história do futebol feminino. Vendo ela jogar, não dava para dizer que “mulher não sabe nada de futebol” – ô se sabe. E como sabe.

Auge

Uma das coisas que chama a atenção em Marta é como ela conseguiu manter seu auge por um longo período. Como ela é constante! E os anos de 2006 a 2010 provam isso. Foram cinco prêmios seguidos de melhor jogadora do mundo da Fifa conquistados com todo o merecimento. O mundo todo se curvou para Marta – nenhum homem jamais havia conseguido aquilo (hoje, Messi já atingiu o feito, mas não de maneira consecutiva).

No total, desde 2003, foram 14 indicações ao prêmio – e por 12 vezes, Marta ficou entre as três finalistas, incluindo esse ano, quando ficou em segundo lugar na premiação, perdendo o troféu para a americana Carli Lloyd.

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Fora isso, ela virou a maior artilheira da história da Copa do Mundo feminina, com 15 gols, em 2015 e, no mesmo ano, tornou-se a maior artilheira da história da seleção brasileira entre homens e mulheres, ultrapassando Pelé, que tem 95 gols em 114 jogos. Quando ultrapassou a marca, Marta tinha 14 jogos a menos. Hoje ela já tem mais de 100 gols com a camisa da seleção – e contando.

Mas a maior conquista para ela não foram os prêmios individuais, nem os títulos com clubes e seleções. Marta considera que o que de melhor poderia acontecer em sua carreira veio no ano passado, na Olimpíada do Rio de Janeiro.

“A gente foi aplaudida em todos os lugares que a gente passou. Enchemos os estádios, uma coisa de louco. Até hoje não conseguiu cair a ficha. Foi o maior prêmio que a gente podia ganhar”, disse ela.

“Me deixa muito orgulhosa ver todo esse carinho, porque tá valendo a pena tudo isso que eu passei e que eu ainda passo. Uma vida inteira dedicada a isso, vale a pena.”

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Maracanã lotado para a semifinal do futebol feminino nos Jogos do Rio

Por tudo isso, o que temos que dizer hoje – mais do que parabéns – é OBRIGADA MARTA, por ter transformado a história do futebol feminino no Brasil. Graças a você, milhões de meninas se inspiraram e passaram a jogar bola, a sonhar um dia poder vestir a 10 da seleção brasileira e representá-la tão bem quanto você. Por sua causa, elas já não têm mais vergonha de dizer que jogam bola e enfrentam quem quer que diga que isso “não é para elas”.

Obrigada, Marta por não ter desistido. Nós também não vamos.

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