Futebol Feminino

Por que o futebol feminino foi proibido por décadas no Brasil?

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*Por Natane Generoso, jornalista e pesquisadora do futebol feminino

Jogar ou gostar de futebol em uma sociedade machista é uma luta diária que nós mulheres temos de enfrentar. Escolher o lado do campo ou tirar o time é como ganhar uma guerra.

Para a mulher que gosta de futebol, a vida se torna um Show do Milhão: acertou o que é impedimento? Continua no jogo! É essa a sensação que sempre tenho quando me perguntam os nomes de jogadores de futebol da seleção alemã. É como se gostar de futebol fosse uma exclusividade masculina, e nós mulheres, estivéssemos “roubando” esse espaço.

O esporte que cresceu como uma prática masculina causou divisões sociais ao longo do século XX. Isso porque o futebol chega ao Brasil como uma modalidade praticada por homens brancos e abastados. Negros e pobres não era bem recebidos – mulheres, então, só na arquibancada e em companhia masculina.

Mas com o tempo, o futebol se tornou um forte elemento da cultura brasileira e se firmou como a modalidade mais popular do país – mas isso desde que suas figuras principais sejam homens. Fato que me causou vários incômodos durante a adolescência, fazendo com que eu pesquisasse mais a fundo sobre a modalidade feminina e como se deu a introdução do esporte no Brasil.

Para começar, foi preciso me situar sobre a condição social da mulher no século XX. A cada texto e artigo lido foi ficando claro para mim que a sociedade atual continua nos mesmos caminhos dos séculos passados, sempre colocando o homem como agente central. Por esse motivo, a mulher sempre foi vista como um ser reprodutor e restrito ao lar – ações públicas não eram permitidas a elas, sendo este o espaço de sociabilidade apenas do homem.

O que se percebe no contexto do futebol é que havia uma reprodução de valores que eram exercidos na sociedade, privando o sexo feminino de práticas que fossem consideradas contra sua natureza: a de ser mãe.

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Assim, as mulheres eram educadas de uma maneira que fosse “favorável” à reprodução e a um modelo de bom comportamento social. Como consequência disso, as mulheres não poderiam praticar esportes de contato físico, que pudessem prejudicar sua função social principal, que era a maternidade.

Foram utilizados vários meios para frear a prática do futebol por mulheres. Um deles foi a educação. As aulas de Educação Física, por exemplo, na primeira metade do século XX proporcionavam diferentes práticas para meninas e meninos – enquanto eles faziam atividades ligadas a forma física e autonomia, as meninas tinham aula de dança, ação que era julgada como benéfica ao seu corpo, tudo pensando apenas na reprodução.

Mas o que que mais me chocou foram as proibições legais dirigidas às mulheres contra a prática de algumas modalidades. Getúlio Vargas, então presidente do Brasil, assina um documento que restringia alguns esportes ao sexo feminino na década de 1940.

O DECRETO-LEI Nº 3.199, de 14 de abril de 1945 em seu artigo 54 dizia: “O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, usando da atribuição que lhe confere o art. 180 da Constituição, DECRETA:… Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país. (Legislação Informatizada – DECRETO-LEI Nº 3.199, DE 14 DE ABRIL DE 1941 -Publicação Original).”

Essa tal natureza conferida à mulher é a da maternidade, logo o contato físico usual do futebol poderia causar danos ao ventre. Mas essa não foi a única proibição que o futebol feminino sofreria no século XX.

O outro episódio ao qual me refiro é datado de 1965, durante a Ditadura Militar. A deliberação n° 7/65 do Conselho Nacional de Desportos (CDN) é assinada pelo general Eloy de Menezes, este aprova uma nova lei, mais específica que a anterior, em seu parágrafo 2° determinava: “Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo aquático, polo, rugby, halterofilismo e baseball” (CASTELLANI FILHO, 2008, p. 63).

Essas proibições afetam a modalidade, refletindo na prática. O futebol feminino é cercado de preconceitos, falta de investimento e recebe pouca atenção dos meios de comunicação. Enquanto o futebol masculino se profissionalizou e alcançou grandes patamares, o feminino não se desenvolveu, por conta de suas restrições, fazendo com que, nós mulheres, crescêssemos ouvindo piadas e não tendo apoio de familiares. Para o homem o futebol pode se transformar em uma fonte de renda, para a mulher são os sonhos e a vontade de jogar que farão com que elas permaneçam na modalidade.

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Mas será que a maternidade era o real motivo das proibições?

Na verdade, outro fato que percebi ao longo das pesquisas é que a real sensação que a prática do futebol feminino causava na sociedade, e principalmente nos homens, era a inversão de valores.

Durante a proibição, algumas mulheres praticavam a modalidade em clubes, contrariando as leis. O problema era quando as mulheres começavam a exercer funções administrativas, papel até então exclusivo do sexo masculino. Ao sair de sua habitação, a mulher deixava de cumprir seu papel de dona de casa, esposa e mãe, causando medo no homem, que acreditava que as mulheres lhe roubariam os espaços públicos.

A conclusão que chego é que o futebol não é apenas um esporte, é uma reprodução social, pois desenha uma desigualdade de gênero entre os sexos que está entre nós hà séculos, sendo alimentada por instituições, pela mídia e pela educação.

Em pleno século XXI, as mulheres ainda são encarregadas dos afazeres domésticos, sendo representadas como seres frágeis e delicados – e a prática do futebol segue constituída apenas como masculina. Socialmente essa imagem de “bela, recatada e do lar” ainda recai sobre a mulher limitando seus espaços e constituindo preconceitos em relação ao futebol e a outros esportes.

 

3 Comments

  1. Belo artigo. Se formos analisar nem dá para criticar a postura adota na época, pois eram outros tempos e valores. Chega a ser compreensível. O que não dá para entender é como essa visão permanece inalterada 60 anos depois, em pleno século XXI e com todas as conquistas que tivemos na sociedade brasileira. Parabéns!!

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