Futebol Feminino

Por que o futebol americano virou febre no Brasil? – e o que isso tem a ver com esportes femininos

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Milhões de pessoas no Brasil inteiro pararam para ver o Super Bowl LI na noite deste domingo. Fãs do futebol americano – e outros que nem tanto – inundaram a internet com comentários sobre a virada histórica do New England Patriots sobre o Atlanta Falcons e ficaram acordados até de madrugada esperando o resultado.

Duas décadas atrás, se alguém dissesse que o futebol americano um dia seria “febre” no Brasil ou que um dia todo mundo no país pararia para ver NFL e o Super Bowl, ninguém acreditaria. Ninguém seria capaz de apostar numa coisa dessas.

Mas a ESPN Brasil foi. Claro, com um “empurrão” da ESPN mãe, nos Estados Unidos, que tem como carro-chefe o futebol americano. Mas não deixa de ter sido um tiro quase que no escuro. Um lançamento de muitas jardas sem alvo definido. E que acabou virando um touchdown certeiro.

Hoje, a emissora acumula recordes de audiência com a NFL, um esporte que ela tem exclusividade na transmissão – e que já está sendo cobiçado agora até pela TV aberta. Quer dizer: o sucesso do futebol americano no Brasil é a prova de que há, sim, espaço para outros esportes no país. Se o produto for bom e, acima de tudo, for bem “vendido”, ele tem enormes chances de trazer excelentes resultados para aqueles que decidirem investir.

Vamos entender aqui a “receita” do sucesso:

Foi no início da década de 1990 que o recém-fundado canal de esportes da TV fechada passou a transmitir a temporada da NFL e a “doutrinar” seus expectadores sobre ela. Não foi simplesmente transmitir. Foi vender o produto  que estava transmitindo. Falar sobre ele na programação. Promovê-lo. Explicá-lo.

Sim, porque não era qualquer transmissão. Era mostrar ao vivo um esporte sobre o qual 99% dos brasileiros não tinha qualquer conhecimento sobre. Pense comigo: quantas vezes você já encontrou pessoas jogando futebol americano no Brasil? Talvez, de uma década para cá, isso tenha se tornado mais comum, mas lá na década de 1990 ainda era algo praticamente impossível de se ver por essas bandas.

Ou seja: transmitir futebol americano significaria explicar aquele esporte para um público que não fazia a menor ideia do que estava vendo. E olha que futebol americano está bem longe de ser um dos esportes mais “fáceis” de se entender. Ele é bem diferente do futebol com o qual estamos acostumadas – apesar de também ser “11 homens para cada lado” –, tem muito mais regras, muito mais detalhes, mais posições.

FILE - In this Oct. 2, 2011, file photo, taken with a fisheyelens, the Seattle Seahawks and Atlanta Falcons play during an NFL football game at CenturyLink Field in Seattle. Opened in 2002, the stadium's signature roof canopies and rainbow-like trusses hang over the field to protect most of the seats and trap in the crowd noise. (AP Photo/Elaine Thompson, File)
(AP Photo/Elaine Thompson, File)

E, para “piorar”, quase nada foi traduzido para o português. Touchdown, fumble, linha de scrimmage, quarterback, running back, full back, todos esses são nomes de eventos ou posições de um jogo de futebol americano – e não há nenhuma versão “aportuguesada” deles.

Levando-se em consideração tudo isso, seria praticamente impossível adivinhar que um esporte como esse, completamente americanizado e sem nenhuma identificação com o público brasileiro, poderia virar um sucesso por aqui.

Pois agora o impossível é negar isso. Uma pesquisa do Ibope Repucom divulgada neste ano mostrou que 15,2 milhões de pessoas se declararam fãs de futebol americano na internet – o que seria 20% dos internautas. Só de 2013 para cá, o crescimento dos fãs da modalidade foi de quase 30%.

E adivinha quem mais está ganhando com isso? A própria ESPN, que bateu recorde nos valores de cotas de patrocínio vendidas para a transmissão da NFL neste ano.

“O crescimento do interesse pelo futebol americano no Brasil é muito expressivo. A força comercial do Super Bowl, isoladamente, é muito significativa, mas nossos resultados de toda a temporada também bateram recorde”, disse Rafael Davini, diretor comercial da ESPN, ao site Meio e Mensagem.

O sucesso se reflete em audiência. De acordo com números do Ibope, mais de 500 mil pessoas acompanharam o Super Bowl em 2015 – o que representou um aumento de 84% em relação à transmissão em 2014.

‘Não tem como gostar de algo que você não conhece’

Sem dúvidas, o narrador Everaldo Marques pode ser considerado um dos grandes responsáveis pelo crescimento da modalidade. Ao explicar frequentemente e de maneira bem didática as regras do futebol americano durante as transmissões da NFL, ele e o comentarista Paulo Antunes fazem com que o público passe a entender o esporte e a se envolver com ele.

“Acho que o futebol americano passou a crescer por aqui porque as pessoas perderam o preconceito que tinham e passaram a entender a modalidade. Não tem como não gostar de algo que você não conhece”, disse o narrador ao Meio e Mensagem.

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“À primeira vista, assistir aos jogadores se trombando pode fazer parecer que é um esporte violento. Mas quando você começa a entender, vai ver como é estratégico, como é democrático.”

“Nosso papel é esse (explicar a modalidade), não adianta fazer uma transmissão muito técnica e limitar o público que vai ver aquilo.”

Everaldo está nas transmissões de NFL na ESPN desde 2006 e conta que foi mais ou menos a partir de 2009 que os números de audiência passaram a estourar.

E agora eles não param de crescer. Assim como o interesse dos brasileiros sobre o esporte. Há cada vez mais gente acompanhando NFL, adotando times para torcer e até jogando! As equipes de futebol americano têm se multiplicado no país, onde já existe até um Campeonato Brasileiro – tanto masculino, quanto feminino – para a modalidade.

Mas dá para imaginar tudo isso acontecendo se não houvesse UM CANAL DE TV ou uma mídia sequer falando de futebol americano todo ano, o ano todo? É claro que não depende só disso, o produto precisa ser atrativo para “conquistar” o público – mas sem um local para divulgá-lo, ele praticamente não existe e será fadado ao esquecimento.

Sendo assim, será que não haveria espaço para outros esportes no Brasil se eles fossem transmitidos com frequência como parte da programação de TV? Será que não haveria espaço para o futebol feminino, por exemplo? Um esporte que já é paixão nacional, que já tem milhões de adeptos no país todo, sobre o qual todos conhecem as regras – será mesmo que ele não “cairia no gosto” do público se alguma emissora lhe desse a atenção que merece?

Os números pós-Olimpíada já provaram esse potencial. O crescimento da procura por futebol feminino foi notável (como mostramos aqui), e o primeiro canal de TV que perceber isso e “abraçar” a modalidade, tende a colher muitos frutos por isso num futuro não tão distante.

A ESPN e a NFL já deram a receita de sucesso. É só seguir.

3 Comments

  1. Falou tudo, Renata. A disseminação do futebol americano e da NFL no Brasil é um bom exemplo a ser seguido mesmo. Precisamos de espaço e pessoas falando sobre futebol feminino.

  2. Temos visto que as pessoas tem buscado cada vez mais artigos esportivos de futebol americano e o nosso portfolio tem crescido, acompanhando esse movimento”, diz Marcelo Chammas, diretor comercial da Netshoes. De janeiro a dezembro do ultimo ano, entre os sete produtos mais vendidos da liga de futebol americana, cinco foram camisetas de time.

  3. “febre” ? Eu não conheço uma única pessoa que assista futebol americano, diferente de outros esportes como vôlei (que eu gosto muito) e basquete , eu tenho ESPN e já tentei assistir mais é terrível , não desce.

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