Futebol Feminino

Paulista Sub-17: “Nosso objetivo não é técnico. É fomentar o futebol feminino”, diz Aline Pellegrino

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Toda menina que começa a jogar futebol já costuma lidar desde cedo com mais portas fechadas do que abertas. São os pais dizendo que “aquilo ali é coisa de menino”, que “não é pra ela”. São os campeonatos da escola que só permitem meninos. São os clubes, que não têm futebol feminino ou que não têm categoria de base. São muitos “nãos” e uma perspectiva difícil pela frente, que traz diversas dúvidas e quase nenhuma certeza.

Mas, ainda bem, há gente muito boa hoje em dia tentando mudar essa realidade. Gente que já está calejada com os obstáculos e quer torná-los menores, mais leves, para as próximas gerações que virão. Gente como Aline Pellegrino, ex-capitã da seleção brasileira, e atual coordenadora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol.

Sob sua coordenação, a entidade lançou pela primeira vez o Campeonato Paulista Sub-17 para o futebol feminino da região. Os objetivos, ao menos por enquanto, não são revelar a melhor jogadora ou apresentar a melhor tática, a melhor técnica, o melhor futebol. A meta aqui é, em primeiro lugar: “fomentar, fomentar, fomentar”, repetiu a ex-zagueira, como um mantra.

“Nosso objetivo aqui é FOMENTAR. Isso que temos frisado desde o início. São 17 equipes, se cada uma tiver 15 meninas aí, vamos fazer uma conta: quantas meninas estão praticando?”, disse a Pelle às dibradoras após o primeiro jogo da competição, Juventus x Centro Olímpico, na Mooca.

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A gente fez as contas. Só nessa média aí, seriam pelo menos 255 meninas praticando o futebol periodicamente, treinando, competindo, se preparando para, quem sabe um dia, seguir essa carreira profissionalmente. Para Pellegrino, nada é mais importante do que isso.

“São mais meninas praticando, é massificar, desenvolver. Queremos que as meninas possam nessa idade olhar e o futebol feminino ter um peso grande na vida. É aquele momento que você está escolhendo, terminei o colégio, o que eu vou fazer? Vou fazer faculdade, curso técnico? Queremos que o futebol feminino tenha um peso na balança legal”, pontuou a ex-atleta.

“A ideia é colocar o futebol feminino na vida dessas meninas que praticam E também na vida da sociedade, para que possam olhar com o peso tão grande como olham pra qualquer profissão.”

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Iniciativa

Não faz um ano que Aline Pellegrino deixou o Corinthians para assumir o novo desafio na FPF e, de cara, ela já conseguiu atingir sua primeira meta: realizar um campeonato na base. A expectativa é de que São Paulo, que é um dos Estados que mais tem times de futebol feminino, sirva de modelo para outras regiões e que o modelo daqui seja replicado em todo o país.

Os planos iniciais eram colocar o campeonato de pé com “oito ou dez times”, ela conta. Vieram 17. “E eu não paro de receber ligação de outros clubes dizendo que não ficaram sabendo, que ano que vem querem participar..”

Entre as equipes que estão na disputa, até mesmo times grandes, de camisa, resolveram se aventurar, como São Paulo e Corinthians. O time alvinegro já tem um projeto feminino profissional e agora testa a base na competição. Mas a equipe tricolor, que não tem qualquer desenvolvimento do futebol feminino profissional, foi uma das grandes surpresas.

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“No caso do São Paulo, foi interessante porque conversei com o Marquinhos, técnico do futebol social do São Paulo, falei que teria o sub-17 e disse: ‘escutei que você tem time’. Ele tinha as sócias, tinha juntado umas argentinas e não tinha todas as meninas, mas de repente começou a dar uma olhada nas equipes, trouxeram umas meninas e aí vão jogar”, explicou Pelle.

“Na hora que confirmou o São Paulo eu pensei: poxa, que legal. Dá pra fazer. Esse processo do futebol feminino dá pra fazer. Fico mais feliz do São Paulo fazer a base agora do que se estivesse disputando Paulista principal. É importante começar, vai engajando clube, diretoria, os pais participando. O futebol feminino principalmente nessa categoria abre uma imensidão de possibilidades.”

Oportunidades. É exatamente isso que essas meninas que sonham um dia poderem jogar futebol precisam. Precisam de time para jogar, de campeonato para disputar, de torcida para apoiar. A ideia do Paulista Sub-17 é desenvolver tudo isso. Para, no futuro, colher os frutos – quem sabe até na seleção brasileira.

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“Eu posso estar falando uma grande besteira, mas quero de repente daqui 4 anos estar vendo a seleção brasileira sub-17 sendo campeã do mundo e pensar que a Federação Paulista teve um papel importante nisso. Tudo é a longo prazo. Não tenho dúvidas de que ano que vem a competição vai estar de pé de novo.”

O torneio

Em uma manhã ensolarada e quente de sábado, lá fomos nós acompanhar a estreia do Paulista Sub-17 na Mooca. Um programão para qualquer paulistano, poder ir à rua Javari acompanhar o futebol por essência – e, de quebra, ainda comer uma Esfiha Juventus para forrar o estômago na hora do almoço.

Mas qual não foi a nossa surpresa quando demos com a cara no portão. O jogo mudou para a sede, nos informou um homem do lado de dentro. A mudança foi de última hora, não checamos o Facebook do Juventus na sexta à noite e acabamos por não saber. Acontece, coisas do futebol – seguimos até a rua Juventus, onde fica o clube.

Entrando lá, vimos um jogo interessante – um pouco desequilibrado, já que as meninas do Centro Olímpico, mais experientes, impunham seu futebol de qualidade enquanto as donas da casa tentavam se encontrar. O resultado nem refletiu o domínio que as visitantes tiveram em campo: 2 a 1 para elas, sem sufoco.

Do alto da portaria, literalmente, Aline Pellegrino e a equipe da Federação faziam a transmissão da partida via internet. Torneio feminino com transmissão e ainda comentários de uma mulher do nível da capitã da seleção brasileira de 2008? Tamanha raridade merece ser prestigiada – e Pelle já avisou que isso será a marca do campeonato.

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Bastidores do Paulista Sub-17: a escada para chegar ao local de transmissão

“É simples, né, você tem uma câmera e aí você já consegue jogar o sinal..não sei se a Federação vai conseguir fazer todos, mas vamos tentar, principalmente os que tiverem mais próximos. É algo simples, os clubes podem participar desse processo se quiserem, a gente consegue subir até 7 links ao mesmo tempo”, pontuou.

“Vão ter algumas transmissões pontuais e, caso os clubes queiram fazer também, a gente põe no site. Aqui é visibilidade, visibilidade, visibilidade”, repetiu.

 

CAMPEONATO PAULISTA SUB-17

De quando a quando? 11 de março e 18 de junho de 2017

Quem disputa? AAEC Guarulhos, Juventus, Centro Olímpico, Tiger, Guarujá, Suzano, Atlético do Jaçanã, Ferroviária, Bonfim Recreativo, Francana, Embu das Artes, Audax, Rio Branco, São José EC, Taboão da Serra e São Paulo.

Como acompanhar? Site e Facebook da Federação Paulista de Futebol

Veja também o vídeo maravilhoso de lançamento da competição.

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