Futebol Feminino

Os velhos caminhos da representação da mulher na mídia esportiva

 

Para quem não sabe o Pelado Real é um projeto, concebido e gerenciado por mulheres, que cria espaços exclusivamente femininos para a prática do futebol.

Jogo toda semana nas turmas do Pelado há dois anos, conheço de perto o trabalho da Bibi e da Júlia, sócias nessa empreitada, além de ter um carinho imenso por ambas. O trabalho que fazem é importantíssimo, além de ser de excelente qualidade e o fato de ele ter crescido a ponto de ser tema de reportagem do programa mais importante de esporte da emissora mais poderosa do país é sim um grande motivo de orgulho. Às meninas, meus maiores parabéns!

Dito isso, não posso dizer que gostei do que vi na reportagem dessa sexta-feira (assista abaixo). Confesso que nutria certa esperança de que a matéria feita pelo Globo Esporte hoje fosse se esforçar para não ser aquele clichê que conhecemos tão bem quando homens falam sobre o esporte feminino. Assim que dei play percebi que minhas esperança eram vãs. Os mesmos velhos estereótipos foram reforçados, conforme meus temores.

Aponto aqui alguns dos problemas dessa reportagem na minha percepção, como feminista, praticante do esporte e admiradora do Pelado.

– Machismo – Apenas homens assistem ao Globo Esporte e eles devem estar cansados de ver apenas outros homens suados no programa. Em nenhum momento se considera que mulheres também podem consumir e se interessar por aquele conteúdo.

– Objetificação da mulher – Cansados de ver os ‘cuecas’ jogando, os homens serão agora agraciados pela beleza da mulher (que, por acaso, joga futebol). Pouco importa o jogo em si, o que importa é o tamanho dos shortinhos que elas usam e saber se elas usariam aquele ‘modelito’ para ir para a balada, afinal o campo não é verdadeiramente o lugar delas.

– Heteronormatividade – os homens que assistem ao programa só podem mesmo ser hetero e seguramente vão adorar ver as mulheres bonitas da reportagem. Afinal, homens gays não gostam de futebol, já que futebol é coisa de macho.

– Condescendência – ‘Mas se você acha que elas são apenas bonitas, espere! Elas realmente conseguem fazer passes e gols. IN-CRÌ-VEL.’ Até que são boas para meninas.

Haters me chamarão de chata, mas estou mesmo é cansada de nos ver sistematicamente retratadas dessa maneira machista pela mídia. A abordagem está embebida na noção tão profundamente arraigada na nossa sociedade de que futebol não é mesmo coisa de mulher e é por causa da naturalização dessa cultura que as nossas atletas ainda são tão desvalorizadas e marginalizadas no dito ‘país do futebol’.

Espero que aprendamos a enxergar os modos em que a opressão sobre nós mulheres opera, pois somente assim conseguiremos, enfim, romper com estas e alcançar igualdade de tratamento e direitos na sociedade.

Às mulheres que jogam futebol, no Pelado ou em qualquer outra parte, meu mais sincero respeito por não se resignarem e ocuparem os campos de futebol aos quais temos tanto direito quanto os homens.  À essa mídia viciada em nos retratar como adereços engraçadinhos nos campos, meu mais sincero repúdio.