Futebol Feminino

Os planos de Marco Aurélio Cunha para o futebol feminino na CBF

Quando Marco Aurélio Cunha renunciou ao cargo de vereador em São Paulo para assumir a coordenadoria de futebol feminino na CBF, houve alguma esperança entre grande parte das ex-jogadoras, treinadores e outras pessoas envolvidas com o futebol feminino de que coisa boa viria por aí.

Mas mal ele tinha assumido e surgiu uma polêmica. As declarações dadas a um jornal canadense sobre os novos uniformes da seleção “mais femininos” e o fato de as jogadoras estarem ficando mais “bonitas”, “usando maquiagem”, etc, repercutiram de maneira muito negativa.

O tempo passou e, ao que parece, Marco Aurélio Cunha tem mostrado a que veio.

Ele pode não ser o maior especialista da modalidade, mas tem uma coisa que falta no futebol feminino há muito tempo: influência. É claro que ainda existem muitas incertezas e poucas mudanças efetivas aconteceram até agora – ele assumiu em maio, não há muito tempo para uma avaliação concreta -, mas há uma esperança: com ele, o futebol feminino pode ter visibilidade.

E o principal ponto positivo de tê-lo na CBF é que, pelo menos com ele, há diálogo. O coordenador se mostrou aberto para ouvir as dificuldades e reclamações antigas das jogadoras, se propôs a ajudar e abriu um canal de comunicação importante com a tal ‘entidade máxima do futebol’.

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As ~dibradoras aproveitaram para sabatinar Marco Aurélio Cunha em uma entrevista importante e esclarecedora sobre os rumos do futebol feminino sob essa ‘nova’ gestão da CBF. Veja os principais pontos dela aqui e ouça a entrevista na íntegra no nosso podcast.

PRÓXIMOS PASSOS

Temos amistosos contra a França no próximo mês (19 de setembro), depois vamos jogar em Seattle e Orlando em outubro, também datas Fifa, depois em novembro devemos receber Nova Zelândia no Brasil com datas 28 de novembro e 1o de dezembro. Estamos estudando onde vai ser por conta de patrocinadores, mas vou falar algo em primeira mão pra vocês:  existe a ideia de se fazer um jogo teste para os Jogos Olímpicos. Eles têm interesse em fazer um jogo no Engenhão e esse amistoso pode ser lá. Não depende só de mim, mas é uma ideia muito boa. Tem possibilidade também de fazer outra sub-sede do futebol nos Jogos Olímpicos (as outras sub-sedes são Salvador, BH, São Paulo, Brasília e Manaus).

Depois vem o Torneio Internacional, quadrangular tradicional, é possível que seja em Natal, está bem encaminhado. A SportPromotion, que é quem organiza, está vendo tudo isso. As seleções que viriam seria talvez o Canadá, talvez o México, uma seleção da Europa. O negócio está indo bem. Serão jogos bons. Não é fácil, às vezes a gente quer fazer uma coisa melhor e não consegue por causa de data, custo. Mas a gente está tentando.

CBF E O FUTEBOL FEMININO – O que pretende fazer pela modalidade?

Acho que a seleção permanente já foi um grande passo. Se você perguntar pra cada uma das meninas, vai ver que elas estão felizes. O Marco Polo Del Nero (presidente da CBF) bancou o futebol feminino de fato, ele sempre quis desenvolver a modalidade e quando me chamou disse, vai lá, você tem experiência em futebol, quero alguém que seja corajoso e sensível para entender o universo das mulheres, então você vai construir isso pra mim. Eu falei que sim e ele tem feito isso, a seleção permanente, o incentivo que ele tem dado, tudo isso tem muito custo e estamos lutando pra que isso prossiga pro ano que vem e que não termine com os Jogos Olímpicos.

Vamos fazer o Brasileiro, não basta ter uma seleção forte, tem que ter uma estrutura forte. Esse ano pela primeira vez nós vamos fazer o draft, com sorteio pras jogadoras da seleção terem a experiência de jogar em clubes também. Aí acho que a modalidade vai se afirmando como algo de interesse pra mídia e pra todos os lados.

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CALENDÁRIO

Claro que é possível repensar o calendário, mas tem que viabilizá-lo. Porque eu quero campeonato de seis meses, agora veja o Brasil, é um país continental. Você tem time no Maranhão, no Acre, custa muito caro cruzar o país. O problema do calendário é custo. A CBF é gestora do campeonato, não é patrocinadora de clube. Uma coisa que estamos debatendo é que a maioria dos times de futebol feminino não tem contato padrão anual. Como eu faço um campeonato anual se um clube não pode pagar as jogadoras o ano todo?

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Mostrando uma seleção forte, o interesse do público começa a aumentar e atrai patrocínio e tudo isso nós estamos fazendo pra que no futuro muito breve a gente tenha um campeonato maior, com mais jogos, subsidiados por TVs, à cabo. Eu conversei com algumas pessoas, SporTV, ESPN, então nós estamos tentando de toda forma viabilizar apoio pra que esse campeonato seja bem constituído.
A solução pro calendário é ter jogo o ano inteiro. O problema é a execução. Dizer o que falta é fácil, mas o problema é executar.

MP DO FUTEBOL

Pessoalmente, eu não gosto da Medida Provisória, porque acho que obrigação sempre cria algo ruim. Eu gostaria que fosse muito mais por interesse do clube do que por obrigação. Mas pelo menos faz com que os clubes passem a pensar nisso. Pode ser bom no começo até que os clubes se estruturem pra isso. O Santos tem 20 atletas com contratos assinados e pagos. O Corinthians já tá pensando em fazer futebol feminino. O meu São Paulo não quer, eu lamento muito. Tem outros clubes que não são de camisa que têm interesse no futebol feminino. Uma coisa puxa a outra, os clubes vão criando mecanismos de receita, porque o futebol feminino hoje é barato, lamentavelmente é barato. Por outro lado, é muito bom que seja barato pra disseminar isso. O que a gente quer é que seja difundido, que haja oportunidade para as meninas sub-15 e sub-17 terem seus núcleos de treinamento e aí o futebol feminino vai criando corpo.

PATROCÍNIO

Eu tenho muitos amigos, contatos, então levo o futebol feminino para essas pessoas, pra tentar despertar o interesse. Tenho feito isso sistematicamente. Na CBF não há divisão de patrocínio. Os patrocinadores da CBF são de todas as seleções. No futuro, podemos discutir se o futebol feminino não pode ter seus próprios meios de patrocínio ou acrescentar algum mais voltado pro público feminino.

Futebol feminino era a sobra do masculino. Agora é preciso trabalhar com essas marcas, isso é um caminho que vai profissionalizar ainda mais o futebol feminino.

Quer ver uma coisa, as meninas não tem direitos econômicos, como os jogadores do masculino. Elas não têm carteira assinada porque não são profissionais, mas quer ver uma contradição? Muitas não são profissionais porque a bolsa atleta do governo é melhor e anual, porque se elas forem profissionais, elas não recebem a bolsa atleta. Entre a segurança da bolsa atleta do governo federal, justíssima, elas optam pela segurança, não dá pra aceitar um contrato de 4 meses. Então olha quanta coisa a gente tem que pensar e trabalhar? Por isso que eu gosto de abrir a “caixa preta” pra vocês irem me ajudando a pensar, porque não é fácil.

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GERAÇÃO MARTA E FORMIGA

Dá pra aproveitar a geração Marta ainda, acho que a Formiga é uma grande marca de persistência e de qualidade técnica. Mas isso acontece no Brasil. Guga foi tricampeão em Roland Garros e o tênis não se desenvolveu em cima do Guga. O tênis continuou na elite. Perdemos a geração Guga de interesse, de incentivo. O futebol feminino pode avançar, é muito mais popular, muito mais praticado. O que nós temos que fazer é aproveitar isso. Como aproveita? Indo nas TVs, tenho tentado fazer isso. Estou super feliz fazendo isso.

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RELAÇÃO COM A SELEÇÃO FEMININA

Eu faço tudo que elas me pedirem, sempre que eu puder. Faço o que eu puder por elas. Eu tenho boa relação com elas, respeito, encho o saco, brinco, pergunto sobre tudo. É a mesma relação que eu tinha com os meninos. Estou transferindo pra elas tudo o que eu fazia pra eles.

O QUE FALTA PARA DESENVOLVER A MODALIDADE?

Não acho que precisa do ouro, nunca acho que uma conquista super difícil mude tudo. Acho que o que precisa é comunicação, bons jogos, talento, boa fé. Precisa a gente divulgar isso no meio masculino, que os repórteres, jornalistas vejam com bons olhos, se apaixonem pelo futebol feminino também, que discutam o futebol feminino nas mesas redondas, não na quantidade e intensidade do masculino, mas que discutam.

Falta comunicação. As meninas que reclamam com justa razão do pouco reconhecimento no passado, alguma coisa aconteceu errado. Talvez quem devia ter feito essa comunicação, não tenha feito, não tenha sensibilizado. Não tenha se comunicado com a mídia de forma convincente. Ficou uma luta de nós com nós mesmos. Meu trabalho tem sido esse desde que cheguei lá.

Sabe o que eu disse pros jornalistas sobre a cobertura da Copa do Mundo? “Vocês não viram e não gostaram”. Eu falo o que tem que falar. Não vem contar história pra mim do que não viu. Eu comunico, eu falo, eu digo da minha emoção de estar nesse processo. Eu construí uma carreira bonita, não preciso da CBF pra contar vantagem de nada.

Você viu o Romário com a camisa da seleção semana passada? Quem mandou pra ele? Ele é um inimigo da CBF. Fui eu, eu sou amigo dele. Eu não quero saber as dificuldades que ele tem com a CBF, eu quero saber o que ele pode fazer pelo futebol feminino. Vocês sabem o litígio que ele tem com a CBF, vou excluí-lo por isso? Jamais.

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Vou mostrar pra vocês um áudio: “Ô doutor, mudou de celular? Não tinha seu número novo. Deseje sorte a todas elas aí, dê os parabéns pra essas cracaças, a gente continua na torcida por elas. Forte abraço para você.”

Sabe quem é esse cara? William Bonner. É talvez a figura mais respeitável do Brasil. Ele me mandou essa mensagem. O que eu posso fazer, as pessoas vem e falam que o Marco não era do futebol feminino, se não for do futebol feminino não é justo, mas será que alguém do futebol feminino influenciou a mídia e os amigos pra que ele fosse divulgado?

VADÃO

Ele é um cara espetacular. É um professor, um educador. Tem uma paciência de Jó. As mulheres têm temperamento forte, são sensíveis, especiais, são briguentas eventualmente. Tem que compreender todos esses fatores inclusive emocionais. Um sujeito tem que ter sensibilidade, como Vadão tem, como René Simões tem. Eu trabalhei com o René na seleção da Jamaica. Ele já me ligou, já deu orientações.

COMISSÃO TÉCNICA COM MULHERES

Não tem mulheres na Comissão Técnica da seleção feminina atualmente. Eu to pensando em dar essa contribuição à seleção. Mas é preciso ter mulher preparada, capacitada. Alguém tem dúvida que a Formiga vai ser? Que a Marta vai ser? O que aconteceu é que aquelas que terminaram a carreira, salvo raras exceções, não continuaram na atividade porque economicamente não era viável. Então injustamente por uma questão de época histórica, elas não poderiam investir numa carreira que não tinha remuneração e com isso elas ficaram defasadas desse mundo chamado futebol. De fazer cursos, de frequentar o meio, ver jogos e treinamentos. Uma coisa é você dizer que não há oportunidade, outra coisa é dizer que não havia.

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Acho que sempre é bom a gente ouvir nomes importantes do meio. O trabalho feito hoje pela seleção permanente é um trabalho de atualização. Gostaria que elas (Marcia Tafarel, Sissi e ex-jogadoras) me indicassem meninas, que onde elas estão, se tem um centro de treinamento, que elas possam dar a orientação, dizer quem é que ela viu, quem deixou de ver. Desde que elas estejam envolvidas no futebol. Não dá pra pedir a opinião de alguém que parou de jogar há 20 anos e não fez mais nada no futebol.

SELEÇÃO FEMININA APÓS 2016

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Nós estamos planejando o futebol feminino dentro da CBF pós-Olimpíada, um campeonato estável com mais clubes jogando mais vezes, viabilizando recursos, nós temos o legado da Fifa que vai permitir capacitação dessas ex-jogadoras, pra que elas se preparem pra assumir esse posto que a Fifa solicita e que a gente acha que é necessário, que tenha treinadoras mulheres. Não podemos perder o que o Vadão tem feito, não é pra tirar o Vadão e colocar uma mulher, mas sim incluir uma mulher. Desde que essa mulher tenha todo conhecimento, toda ambientação, não tem nenhum problema. Até o meu lugar tem que ser exercido por uma mulher. Mas precisa ter experiência. Eu volto a dizer, tenho 37 anos de futebol. É difícil alguém ter 30 anos de futebol feminino, o que eu quero dizer é que eu não estou ocupando o lugar de ninguém, eu to trazendo a minha experiência pra outras meninas poderem aproveitar o que eu já vivi no futebol. A hora que elas tiverem 5, 6 anos de ambientação, de experiência no futebol, obviamente elas vão ocupar esse lugar.

CAMISA DA NIKE

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Eu mesmo falei pessoalmente com o presidente da Nike. Eu, Gilberto Ratto, ele, o presidente da CBF falamos com ele. A grade da Nike é feito de ano pra ano, o lançamento dessa camisa – que foi um sucesso – foi programado somente pra uso das jogadoras. Não se planejou vender. O universo de vendas do futebol feminino é ou era pequeno – não mais será comigo – para essa aventura. O lojista compra exatamente aquilo que ele sabe que vai vender, porque quando ele faz um pedido, se ficar na mão dele, ele perdeu. O lojista não arrisca. A Nike não fabrica um número de camisas fora da listagem de pedidos e isso não estava na grade de venda, estava na de vestuário. E pra eles fazerem agora não tem como porque eles estão falando da grade do ano que vem. Nós falamos até de fazer venda online pra não depender do lojista. Enchemos o saco do cara, ele não sabia mais o que responder. Ficou combinado que pra 2016 é possível que tenha a camisa pra vender durante a Olimpíada. Eu trabalho com a percepção, quando as pessoas percebem, a gente tenta trabalhar pra conseguir.

One Comment

  1. acho complicado pois sem patrocinio ñ se tem futebol e sem dinheiro ñ se tem nem mesmo atletas quem injetaria essas quantias num campeonato feminino… a copa são paulo de feminino esta morrendo o time do São Paulo já avisou q mesmo estando na final ñ jogara no proximo campeonadto precisaria de mais incentivo e investimento

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