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O que podemos aprender com a Champions League feminina

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Quem foi ao Parc des Princes no dia 29 de abril ver a vitória do PSG em cima do Barcelona pela semifinal da Champions League feminina deve ter se surpreendido. Não tanto com o resultado de 2 a 0, já que o time francês havia vencido por 3 a 1 o jogo de ida fora de casa – mas com certeza pela arquibancada.

Não é comum – ainda, é válido ressaltar – ver jogos de futebol feminino com um público muito grande. Até mesmo as competições de alto nível muitas vezes não conseguem encher os estádios. Mas é preciso olhar para o exemplo da Champions League.

Leia mais: A história da Champions League e os planos da Uefa para o futebol feminino

Começando justamente pelo PSG. O time feminino foi fundado em 1991, mas ganhou mais atenção e investimento nos últimos cinco anos, quando passou a se classificar para a Champions League. No ano passado, um jogo de quartas-de-final contra o Barcelona acabou com a vitória das parisienses por 1 a 0 diante de um público modesto: pouco mais de 5 mil pessoas.

Pois bem, no sábado, quem foi ao estádio de Paris comumente usado para a equipe masculina, que tem capacidade para 47, 48 mil pessoas, encontrou metade das arquibancadas ocupadas. Foram quase 20 mil pessoas lá para ver a classificação do PSG, que se vingou da vexatória eliminação dos homens nesse ano para o mesmo Barça. Poderíamos olhar o estádio meio vazio. Mas precisamos ver aqui o estádio meio cheio – 20 mil pessoas em uma partida de futebol feminino é motivo de muita comemoração.

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Do outro lado da chave, jogavam Lyon e Manchester City, com o segundo jogo também acontecendo na França. O Lyon, inclusive, é tradicional na Champions feminina, enquanto o City ainda está tentando galgar seu espaço na competição.

No Stade de Lyon, outras 19 mil pessoas foram prestigiar a classificação do time da casa para sua sexta final de Champions League feminina. Um pouco menos da metade da capacidade do estádio que vai receber jogos da Copa do Mundo de futebol feminino em 2019, mas outra conquista importantíssima para a modalidade.

Agora, as duas equipes francesas vão se encontrar em 1º de junho no Cardiff Stadium, País de Gales, onde a final da Champions feminina antecipará a masculina – os homens fazem a decisão no sábado, dia 3. Pelo público que compareceu à semifinal, pela tradição que vem sendo construída na competição, e pelos próprios preços modestos pelos quais os ingressos estão sendo vendidos – a 6 libras (cerca de R$ 25) – é possível ser bem esperançoso quanto à presença da torcida.

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Não há uma fórmula de sucesso para conseguir uma evolução assim, mas é impossível negar que alguns ingredientes dessa receita contribuem, e muito, para que os resultados esperados venham.

Listamos aqui alguns deles:

1) Investimento

A chave para o sucesso de qualquer coisa começa por aí. É preciso investir. Organizar um campeonato de qualquer jeito, sem promovê-lo direito e sem incentivar os clubes da maneira correta, seria investir nele mais ou menos – e o resultado aí não poderia ser diferente: será mais ou menos.

A Champions League não faz isso. O campeonato surgiu no início da década de 2000, mas não foi à toa que passou a alçar voos bem mais altos a partir de 2010. Porque foi nessa temporada que a Uefa passou a oferecer premiações para os clubes vencedores e para os que chegavam mais longe na competição. O incentivo fez com que mais clubes quisessem participar – e, consequentemente, ganhar o torneio -, o que também gerou mais competitividade.

Com mais competitividade, foi possível atrair mais jogadoras para disputá-lo. E foi possível ter uma competição mais organizada, com mais clubes, e que se tornou “a menina dos olhos” das jogadoras de futebol. Hoje, além de sonhar disputar uma Olimpíada, uma Copa do Mundo, as atletas sonham em um dia estar na Champions League.

“Quando eu era criança, via os jogos da Champions League masculina e pensava como seria legal se eu tivesse uma oportunidade assim, de jogar uma Champions, com jogos de ida e volta, com toda a atenção envolvida nesses jogos”, disse a melhor do mundo, Carli Lloyd

“Eu acompanhava o máximo que podia. Lembro de ver a competição masculina e pensar: isso seria uma excelente oportunidade para as mulheres também”.

E tem sido. Carli Lloyd foi uma das melhores atletas do mundo que se rendeu à Champions League recentemente e foi jogar no Manchester City. Alex Morgan, a outra craque americana, foi para o Lyon. Marta jogou por muito tempo a competição. Cristiane terá o gosto de jogar a final pelo PSG – e ainda ao lado de Formiga, que aos 39 anos poderá conquistar um título inédito na carreira.

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Time do PSG não só conquistou a torcida, como também passou a inspirar muitas meninas a jogar futebol

Com investimento, a competição cresceu. Logicamente, não adianta pensar que os resultados aparecerão de imediato – mas sem investir, aí eles realmente nunca virão.

É só pensar no Campeonato Brasileiro feminino organizado pela CBF. Até ano passado, não havia qualquer premiação oferecida aos vencedores. Essa é a primeira temporada em que o campeão levará uma recompensa para casa – de R$ 120 mil, , um valor até simbólico a ser oferecido por uma confederação que faturou mais de R$ 600 milhões em 2016.

Além de pagar premiações, a entidade também ofereceu R$ 15 mil para quem disputasse a competição, R$ 20 mil para quem chegar às quartas, R$ 30 mil para quem classificar para as semis e R$ 60 mil para o vice-campeão. Passagens aéreas, hospedagem e alimentação também são custeadas por ela.

O investimento propiciou uma participação recorde no Brasileiro feminino em 2017. E um incentivo a mais para os clubes. Agora, há também a segunda divisão, o que estimula maior competitividade e abre ainda mais espaço para o crescimento do futebol feminino no país.

Se observarmos que, no últimos dois anos, a CBF aumentou seu investimento em seleções de base e femininas em mais de 100% (passando de R$ 22,7 milhões em 2014 para R$ 48, 6 milhões em 2016) conforme divulgado no último balanço financeiro. Ainda é pouco, mas com isso é possível prever que melhores resultados virão daqui para frente.

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Nada acontece sem ela. Não adianta fazer o melhor campeonato do mundo se ninguém ficar sabendo da existência dele.

A Uefa tem feito muito bem seu papel de promover a Champions League feminina com um site inteiro dedicado só à competição. Nele, é possível encontrar entrevistas exclusivas das jogadoras, estatísticas de todos os times no campeonato, e diversos dados históricos sobre a competição e sobre o desempenho dos clubes nela.

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É claro que a organizadora do torneio “não faz mais que a obrigação” ao tentar promover seu próprio produto por meio de uma divulgação forte no site e nas redes sociais. Mas é que, apesar de parecer óbvio, isso não acontece em outras competições femininas. Até pouco tempo, era dificílimo conseguir informações, por exemplo, de resultados e tabelas de jogos do Brasileiro feminino, já que nem a própria CBF os divulgava.

Além disso, a Uefa faz também permite que clubes façam a transmissão de seus jogos pela internet. Jogos do Barcelona puderam ser vistos na TV oficial do clube, por exemplo. Outras equipes também têm feito isso. No próprio canal da Uefa no Youtube é possível ver vídeos com os melhores momentos dos jogos e até mesmo da final.

Com isso, a entidade aumenta o alcance dos seus torneios, permitindo com que pessoas do mundo inteiro possam acompanhar mesmo à distância, mesmo sem transmissões ao vivo na TV, o que está acontecendo na competição europeia.

No Brasil, poucos são os clubes que transmitem seus jogos pela internet. Com o novo Brasileirão feminino, o SporTV passou a mostrar alguns jogos do torneio ao vivo, mas o alcance da competição poderia ser ainda maior se essas transmissões se multiplicassem também online.

No Campeonato Paulista, uma parceria com um site de transmissões de jogos ao vivo agora está permitindo que mais clubes entrem nessa onda e promovam suas partidas na internet. Segundo informações do Planeta Futebol Feminino, cinco clubes já criaram seus canais para as transmissões: Embu das Artes, Corinthians, Santos, São José e Portuguesa.

A própria Federação Paulista, organizadora do campeonato, transmite os jogos no canal – é possível assisti-los aqui: https://mycujoo.tv/league/paulista-feminino

Com investimento e divulgação, a Champions League feminina já provou que dá para conquistar um público fiel ao futebol feminino, que acompanha e faz crescer a competição. Se o mesmo exemplo for seguido por aqui, o resultado também deverá aparecer.

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