Futebol Feminino

O que me diferencia dos homens que gostam de futebol? NADA

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*Por Bruna Pires, especial para a coluna ~dibres na Arquibancada

Na minha infância, lembro que morava numa casa bem humilde, quando meu pai ainda era vivo. Dentre todos os brinquedos que tive, faltava o que eu mais queria: uma bola. Mesmoque fosse aquela “dente de leite”.

“Mamãe, compra uma bola pra mim?”
Dias depois eu ganharia a pelota.

Minha mãe sempre gostou e jogou futebol, até hoje conta que em sua adolescência era chamada de “Romarinha” pelo fato de ser pequena e pelas confusões que causava em campo. No ano de 2002 antes da copa no Japão, falecia meu pai. Então, junto com minha mãe fui morar com minha avó, numa roça que ficava há um quilômetro da cidade. Aquela copa de 2002 foi na “Japéia”, os jogos aconteciam pela madrugada. Minha mãe sempre acordava pra ver os jogos e eu fazia questão de assistir junto com ela.

Acompanhei toda aquela copa, ainda hoje tenho lembranças do Ronaldo com aquele cabelo despojado na final.

Nessa roça, onde passei minha infância, havia um campinho de areia e posteriormente um de grama foi arquitetado também. Moram muitos primos lá e sempre vinham outros de fora em feriados. Nos dias normais, a rotina era sempre esta: chegar da escola e ir jogar bola no campo. Passávamos toda a tarde ali, debaixo de um sol que ardia a cabeça, sempre nos esquivávamos na lateral do campo, onde ainda tem varias arvores que fazem sombra. Só íamos embora quando escurecia porque lá não tinha luz.

Não me lembro de ter torcido pra outro time além do Cruzeiro, tenho nítida a imagem daquela carreata da tríplice coroa, no já distante 2003. Lembro que acompanhei aqueles campeonatos em uma anteninha rural que passavam quase todos os jogos, ou até mesmo, pela rádio. Cresci ouvindo Pequetito narrar.

Tempos se passaram e eu fui morar no interior do Espirito Santo. Na aula de educação física eu queria jogar futebol com os meninos, nem sempre eles deixavam… lá, a grande maioria é Flamengo ou Vasco, vemos ainda, uma massa corintiana, mas não tinha nenhum cruzeirense e por conta disso, eu brigava com todo mundo da escola, batia o pé pra falar que o MEU CRUZEIRO era o melhor time. Mesmo não sendo na época…

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Em 2006, eu me lembro bem de uma entrevista do Ronaldinho dizendo que queria muito aquele Mundial, mas também me lembro de Gabiru e Perdigão. Aliás, quem era Gabiru até aquele jogo? Sinceramente, eu não lembro, porém sei que a partir daquele jogo ele se tornou o cara que quebrou o Barcelona. Um dos melhores times da história. E foi ali que começou meu interesse pelo futebol internacional, mesmo não admirando, até então, algum time.

Vi Aquele time arrasador do Milan, com Kaká levantando a bola de ouro e comecei a acompanhar Messi, um dos três melhores de 2007. Na temporada seguinte, me lembro que eu estar de joelhos torcendo para que o time do United fosse campeão, tinha um cara lá, que jogava muito, o tal Cristiano Ronaldo. Ele driblava e finalizava com uma facilidade incrível. O jogo foi para os pênaltis, o Cris errou, eu lacrimejei, mas logo o Manchester se consagrou campeão. E por volta dessa mesma época, o Cruzeiro fazia uma dobradinha de duas goleadas em cima do rival que comemorava o centenário.

Depois da final da Champions de 2008 comecei a acompanhar todos os jogos do Barcelona, um time que me atraía pelo futebol – impossível não torcer – que e não demorou muito para eu ser feliz com o mesmo. Em 2009 o Barça derrotara o Estudiantes no mundial, aquele time maldito que venceu o Cruzeiro numa final de Libertadores, na qual eu chorara rios de tristeza. Desde então, nunca mais parei de acompanhar, tanto o Cruzeiro, quanto o Barcelona. Sem contar meu amor pela seleção brasileira. Ainda lembro com dor do que Zidane, Robben e o que indestrutível Alemanha fizeram.

Minha primeira chuteira foi cinza com azul, treinei por um ano num time de Três Lagoas-MS, cidade que vivi pelo mesmo tempo. Eu dizia que seria a segunda Marta, mas pela falta de times femininos no país, logo desisti. Quando voltei pra Minas Gerais,em 2013, já não havia mais interesse na prática do esporte.
Hoje, acompanho o futebol sul-americano, o futebol espanhol, a champions e criei um interesse pelo futebol inglês.

Em 2015, tive minha primeira experiência no estádio. Era Cruzeiro e São Paulo pelas oitavas de final da copa Libertadores. Fui com a camisa do Damião. A arquibancada tinha muitas mulheres e isso me deixou bem contente. Eram quase 40 mil pessoas. No gol do Damião o estádio balançou, eu abracei todo mundo que estava em minha volta. Parecia não ser verdade, éramos muito limitados.

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Esse jogo acabou indo para os pênaltis e a cada cobrança eu me arrepiava por inteira, eu me ajoelhei, orei e pedi aos céus aquela classificação e ela veio.

Quando nos classificamos, todo mundo se abraçou no Mineirão, alguns choravam, outros riam, outros estavam incrédulos. Sentir o calor daquela torcida pela primeira vez foi algo que me deixou realizada.

Não esqueço que naquele mesmo jogo, um cara, que nem me lembro o nome me deu a camisa que ele estva usando da torcida organizada Máfia Azul. Fiquei muito feliz. Ele disse que sempre que eu fosse em jogos era pra ficar perto deles que íamos cantar os 90 minutos e mais as prorrogações se precisasse. Aquilo foi incrível. Um dos melhores dias da minha vida.

O futebol, sempre foi presente na minha vida e sempre será.

Essa história poderia ser de qualquer moleque do Brasil, mas é minha, que sou mulher.

Queria mostrar a vocês que minha história não se diferencia muito dos meninos de qualquer lugar do mundo, mas infelizmente, nós, mulheres, ainda sofremos preconceito no mundo do futebol.

A atitude da torcida do Lyon foi de partir, estraçalhar meu coração. E o pior: eles tem o apoio da direção do clube. Estou muito revoltada. E até vale lembrar que o time feminino da Lyon é o atual vencedor da Champions League, coisa que o time masculino nunca alcançou.

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E sabe o que me difere dos homens que também acompanham futebol? NADA.

Porque se quiserem discutir sobre qualquer assunto relacionado, estarei aqui. Sempre estarei aqui.

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