Futebol Feminino

O que falta para o Brasil ganhar dos Estados Unidos?

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Crédito: CBF

Final da Olimpíada de 2004, semifinal da Copa do Mundo de 2007, final da Olimpíada de 2008, quartas-de-final da Copa do Mundo de 2011…Brasil e Estados Unidos sempre fizeram grandes jogos em todas as situações em que se enfrentaram. Mas, de todos esses encontros “oficiais” em competições importantes, a seleção brasileira venceu apenas um deles: aquela inesquecível semifinal no Mundial de dez anos atrás, 4 a 0, show de Marta, e o resto ficou na história.

Neste domingo, não era competição oficial, era torneio amistoso. Mas Brasil x Estados Unidos no futebol feminino sempre será clássico, não importando a circunstância – mal comparando, é como Brasil x Argentina no masculino. Ninguém gosta de perder um jogo desses.

Pausa. Observação importante:

É importante ressaltar aqui que, antes de entrar em campo, de pisar o gramado, as americanas já chegam para um jogo desses ganhando de goleada. Não, não é pelo histórico favorável a elas, mas principalmente pela estrutura, atenção e investimento que o país dá ao futebol feminino há muito tempo – algo que o Brasil nunca teve, infelizmente. Essa é uma vantagem que só pode ser amenizada com muito trabalho a longo prazo (e a gente realmente espera que um dia possamos entrar em campo de igual pra igual nesse aspecto).

Mas então Brasil e Estados Unidos entraram em campo neste domingo, em San Diego, na Califórnia, com o estádio cheio e a promessa de um grande jogo. A seleção tinha alguns desfalques – como a zagueira Rafaelle e a atacante Cristiane, que não foram liberadas pelo clube na China -, mas vinha de um jogo equilibradíssimo contra o Japão (1 a 1) e estava pronta para enfrentar as atuais campeãs mundiais de igual para igual na casa delas.

Foi o que se viu já desde o início. Em menos de dois minutos, já tínhamos aberto o placar. Contando com a ajuda da goleira americana, é verdade, mas Andressinha arriscou de fora – um pedido especial da técnica Emily Lima para ela – e colocou o Brasil na frente.

Esse era apenas o início de um jogo que seria eletrizante do início ao fim. Logo as americanas passaram a pressionar e fizeram o delas com Mewis, também de fora da área, aproveitando o desvio do chute no pé da zagueira Bruna Benites.

Jogo equilibrado, ora avançávamos, ora defendíamos, mas sem perder a proposta de jogo – de bola no chão, construção da jogada e ofensividade. Foi assim que, aos 25 minutos do segundo tempo (e os minutos serão importantes aqui), o escanteio de Marta encontrou Bruna Benites – agora de atacante – e ela empurrou para as redes.

Aí o Brasil já pressionava e, aos 32 (de novo, fiquem atentos aos minutos), Andressinha foi sozinha para a cobrança da falta na entrada da área sofrida por Marta como quem já sabia o que iria acontecer. Caixa. O placar aos 33 minutos do segundo tempo, faltando 12 para acabar, era de 3 a 1 para nós.

Eu cheguei a tirar foto do computador – onde acompanhava a transmissão da CBF pelo facebook. Estava pronta para postar aquela imagem e guardá-la para a posteridade: o dia em que vencemos os Estados Unidos por 3 a 1 na casa delas. Seria histórico – se não fosse se tornar trágico depois.

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Crédito: Fernanda Coimbra/CBF

Após 34, vacilamos na defesa, e Press achou o espaço que precisava para diminuir: 3 a 2. Me veio imediatamente um frio na espinha. No dia anterior, eu havia visto uma história parecida – só que ao meu favor -, quando Botafogo vencia o São Paulo por 3 a 1 também faltando 10 minutos para acabar o jogo.

Aí veio Rapinoe pela esquerda, avançou com liberdade e chutou no canto. Eram 39 minutos do segundo tempo, 3 a 3 e eu parecia já prever o que viria. Minha euforia do dia anterior, comemorando uma virada improvável do meu time na casa do adversário nos 10 minutos finais se tornaria a decepção do domingo, vendo o mesmo acontecer com a seleção feminina (só que ao contrário.

44 minutos do segundo tempo: Ertz vira para os Estados Unidos. E tudo o que todos nós conseguíamos pensar era: de novo, não.

De maneira inacreditável, perdemos aquele jogo que chegamos a liderar por duas vezes – e com folga até. Perdemos quando faltava só 10 minutos para segurar o resultado. Mas acima de tudo: perdemos quando podíamos perder – e essa é a parte importante disso tudo.

O que faltou

Conversamos à distância com a técnica da seleção brasileira, Emily Lima, sobre os motivos que nos levaram a essa derrota – e o que temos que fazer, afinal, para ganhar dos Estados Unidos e deixar as derrotas para elas enterradas no passado.

“É difícil falar o que falta. Porque mesmo não tendo no Brasil toda estrutura que os Estados Unidos têm para o futebol feminino, nós estávamos ganhando de 3 a 1, por duas vezes estivemos à frente no placar”, afirmou a treinadora.

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Crédito: CBF

Emily apontou como principal motivo para o “apagão” da seleção brasileira nos minutos finais uma desestabilização emocional, influenciada também pelas decisões polêmicas da arbitragem, sempre favoráveis às americanas – houve um gol brasileiro anulado, inclusive.

“Acho que a arbitragem influenciou um pouco no resultado, em relação a nós não termos uma frieza para lidar com isso. Mas é claro que essa vai ser nossa busca agora. Do equilíbrio, da frieza, da concentração que nada pode tirar isso de nós. E acho que aqui a gente poderia ter perdido. Pra que lá na frente a gente consiga ganhar delas – hoje deu pra perceber e mostrar pra elas que, se elas quiserem elas conseguem.”

É importante ressaltar que, apesar do desequilíbrio no fim, a seleção brasileira ontem enfrentou o tempo todo, de igual para igual, a melhor seleção do mundo, que jogava em casa e com mais de 20 mil pessoas na torcida a seu favor. E que essas atletas americanas são preparadas desde o início da infância para jogar futebol. Elas são incentivadas a isso, disputam campeonatos nacionais desde cedo, contam com uma estrutura de base – e de competição – de alto nível desde muito cedo. Não é à toa que elas conseguem essa frieza dentro de campo, que parece inabalável mesmo quando o placar aponta 3 a 1 para as fortes adversárias brasileiras.

Mas o jogo deste domingo provou que, ainda assim, elas não são invencíveis. E que hoje a nossa seleção tem força e qualidade para ganhar delas. Perguntamos, então, à Sandra Santos, a coach da seleção feminina, se faltava acreditar mais nisso.

“Faz parte do nosso trabalho desenvolver uma inteligência emocional, mas isso leva um tempo pra se fixar. A gente já teve vários avanços com o grupo. Então eu tenho plena convicção de que não faltou o acreditar. Pelo contrário. Sobrou raça, superação”, afirmou Sandra às dibradoras.

“O que faltou foi calma e tranquilidade para administrar um placar. E essa situação é nova. Acho que agora temos que continuar o trabalho e focar na solução. A cada cenário novo, vai vir uma situação nova. A gente está exatamente numa fase de construção e isso faz parte.”

Diante de um jogo tão intenso como o de ontem, a maior certeza que fica é que falta muito pouco para ganharmos dos Estados Unidos. E que as jogadoras têm plena consciência do que precisam fazer para conseguirem a vitória. Uma derrota assim dói e deixa marcas – mas deixa também um aprendizado imensurável, um sentimento de “nós não podemos deixar isso acontecer nunca mais.”

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Crédito: CBF

Bruna Benites deixou claro isso em sua entrevista à CBF após o jogo: “O sentimento é de muita frustração. Chegamos a ganhar o jogo de 3 a 1 e tomamos 3 gols em 10 minutos. São aprendizados, é sempre frisado que não podemos perder a concentração. A gente aprende bastante quando perde.”

De resto, o que podemos fazer é seguir o exemplo do futebol feminino nos Estados Unidos. Dar mais estrutura às garotas, oferecer o investimento que elas merecem, a cobertura de mídia que elas merecem, os estádios cheios que elas já fazem por merecer há tempos. Porque talento nós temos de sobra – falta “abraçarmos” a modalidade de verdade.

Sempre acreditei no futebol feminino. Sempre acreditei que a gente pode chegar onde elas estão. A ideia é fazer sempre com que a seleção brasileira faça esse jogo vistoso. Isso quebra o preconceito, você assistir a um jogo desses..a intensidade que foi, um jogo muito rápido. Tudo serve pra que a gente aprenda e leve algumas coisas daqui para o Brasil e tente implantar isso lá. Vejo as coisas evoluindo, devagar, mas evoluindo. Acho que a gente pode chegar no topo do mundo”, finalizou Emily.

Quinta-feira, tem mais. Brasil x Austrália, o último jogo do Torneio das Nações, às 20h15, com transmissão da CBF pelo Facebook.

One Comment

  1. Muito bom o site de vocês, é muito bom ter um site voltado para o esporte feminino e as suas realidades. Parabéns!

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