Futebol

O jornalismo esportivo precisa parar de “brincar”: assédio é coisa séria

Uma torcedora de 15 anos festeja seu time na entrada do estádio prestes a presenciar  um dos jogos mais importantes da história do seu clube. O repórter está ao vivo para fazer o aquecimento da partida. Ele a chama para a entrevista e, ao ouvir o nome e a idade da adolescente, diz:

“Qual é o teu WhatsApp?”. Pausa e depois emenda: “Não, tô brincando.”

O repórter pede para a menina mandar um beijo para o apresentador, ela o faz e ele reforça que o chefe “está com moral com a mulherada”. “Já eu…quase sujou minha barra”, finaliza.

O repórter tem 37 anos. A torcedora entrevistada, menos da metade disso. Ele segue a chamada ao vivo rindo, assim como boa parte dos torcedores que assistiam ao programa.

Era uma brincadeira, ele se justificou. Concordaram com o repórter tantos outros homens espectadores do ao vivo, e algumas mulheres também.

Mas é exatamente aí que começa o problema.

É “engraçado” ver uma menina de 15 anos sendo “cantada” pelo repórter na entrada do estádio em rede nacional. Era só uma “piada”, vamos ter mais senso de humor né?

Vou colocar aqui o meu ponto de vista (sob o aspecto da minha experiência) da “piada”.

Sempre treinei vôlei, desde a infância. Um dia, aos 12 anos, estava indo a pé para o treino, de short e joelheira (o uniforme de treino), quando um homem que andava atrás de mim começou a dizer: “quero chupar essa buceta todinha”. Eu não sabia o que era buceta. Não sabia o que ele queria dizer com isso. Mas morri de medo, atravessei a rua, apertei o passo, fechei os olhos e desejei que a entrada da quadra estivesse logo ali.

Eu não contei isso pra minha mãe, nem para o técnico, nem para ninguém. Me guardei naquele medo e, a partir daquele dia, aprendi que minha rotina teria de ser sempre assim. Que eu teria de ouvir homens repetindo essas coisas – esses “elogios” como alguns chamam – todos os dias e tudo o que eu poderia fazer era apertar o passo e rezar para que eles ficassem apenas nas palavras.

Desde os 12 anos, ou até antes, minha vida foi assim. A vida da sua irmã foi assim. Da sua mãe. Da sua futura esposa. De todas, absolutamente todas, as mulheres ao seu redor.

Conviver com isso é entender desde sempre que seu corpo é um objeto público na rua que está lá para ser comentado, elogiado, muitas vezes tocado sem a sua permissão.

Isso te faz crescer com medo. Te faz mudar a roupa pra evitar os comentários (que, ainda assim, vêm). Te faz até não sair de casa às vezes.

E aí você vai se perguntar: o que tudo isso tem a ver com a “brincadeira” do repórter com a torcedora?

A situação que a menina passou em frente ao estádio com o repórter é a mesma que eu e todas as mulheres passam todos os dias na rua: o “elogio” que você não quer, a opinião que você não pede, a proposta que você não deseja. E quando você ri dessa situação, você a trata como piada – não como problema.

Muita gente trata como “brincadeira” um homem fazer um comentário sobre o corpo de uma mulher, sua aparência, seu estado civil na rua sem que ela lhe desse qualquer abertura para fazer isso. E não se dá conta que isso constrange, intimida, dá medo. Isso vai um dia fazer com que elas pensem duas vezes sobre a roupa com a qual vão sair de casa. Isso faz com que elas repensem se vão mesmo sair de casa. Tenho amigas que até hoje colocam uma calça em cima do short quando vão treinar para evitar os comentários indesejados no transporte público. Vocês, homens, já pensaram em fazer isso alguma vez? Em se agasalhar para não mostrar o corpo por medo do que poderia acontecer na rua?

E a questão aqui é que, quanto mais “rirmos” de situações assim, mais elas serão naturalizadas como piadas e menos serão encaradas como problemas – que efetivamente são. Mais meninas, como eu, aprenderão a conviver com comentários no dia a dia  sobre seu corpo – porque “é normal”; aprenderão que ouvir do chefe uma cantadinha ou outra é “ok”; que sentir olhares devoradores na sua direção “faz parte”. Tudo é só brincadeira, é só elogio, é só uma piada.

Mas as estatísticas contrariam a graça dela por enquanto. Uma pesquisa da ONG Think Olga mostra que 99,6% das mulheres já foram assediadas na rua. Mais de 80% delas muda de rota ou de roupa para fugir do assédio. São 135 estupros registrados por dia em todo o país. Nada disso é piada, nada disso é risível.

Então está na hora do Jornalismo Esportivo também parar de “brincar”. Não foi um elogio, foi um assédio ao vivo, em um programa esportivo no meio da tarde, com uma menina de 15 anos. Fosse mulher a repórter e um menino o entrevistado, a piada jamais aconteceria – a graça nem iria existir. As pessoas olhariam para TV com cara de interrogação, tentando entender por que a repórter estaria pedindo o whatsapp do entrevistado. E se ela tivesse feito algo assim, na certa levaria uma bronca do editor por não estar levando a sério seu trabalho. Percebem a diferença?

Essas “brincadeiras” são grandes responsáveis por casos de assédios (moral ou sexual) que mulheres (nesse caso, meninas) sofrem todos os dias. Naturalizar isso em forma de piada é ignorar a violência que isso representa para nós.

Esse tipo de “jornalismo esportivo” nos objetifica e nos afasta de muitas atividades que ainda são consideradas apenas para meninos/homens, como o futebol. As mulheres não são só um corpo no estádio, elas são torcedoras tanto quanto os homens. Podem perguntar para ela sobre a escalação, o esquema tático, se Geromel merece uma chance com Tite. Jornalismo Esportivo é falar sobre esporte – o resto é outra coisa.

Importante: O repórter Vagner Martins admitiu o erro na abordagem com a torcedora e pediu desculpas por isso. É importante também reconhecer os deslizes e se permitir aprender com eles.

3 Comments

  1. Ah, não é a primeira vez que os “analistas esportivos” ( como se auto definem) e os repórteres desse programa tem esse tipo de atitude com entrevistadas. Objetificam de forma escrota e deprimente a mulher que torce, entende e enfrenta qualquer tipo de adversidade pra estar perto do seu time.

  2. Lembro da única vez que assisti a um jogo no estádio. Antes de começar a partida umas 3 mulheres passaram na frente das arquibancadas e os homens ficaram insandecidos, gritando, xingando e falando todo tipo de coisa pra elas, só porque ousaram transitar nesse ambiente. Fiquei chocada.

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