Futebol Feminino

O equilíbrio entre pressão da torcida e tática: o que esperar de Iranduba x Santos

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Por Camila Lima*

Esta quinta-feira (29 de junho) será uma data especial para o futebol feminino brasileiro. Após recorde de público na competição, com mais de 15 mil pessoas assistindo ao empate entre Iranduba e Flamengo, o Hulk encara o Santos pelo jogo de ida da semifinal do Brasileirão 2017. A expectativa é de mais um excelente público na Arena da Amazonas e o Iranduba vem investindo forte na venda de ingressos para mais uma vez fazer bonito.

Para além de público, resultados e estatísticas, preparamos uma prévia tática do que podemos esperar das duas equipes para este confronto.

IRANDUBA

O Iranduba é um time de forte campanha quando joga em casa. Na primeira fase do Brasileirão somou 36 pontos com um aproveitamento de 85% e teve a difícil missão de encarar o atual campeão brasileiro, o Flamengo/Marinha, na fase seguinte. Com dois empates, recordes de público e o carinho da torcida a equipe do Amazonas busca chegar pela primeira vez a uma final de brasileiro. Taticamente falando, é um time com consciência tática nas diferentes fases do jogo.

Defensivamente se posta com duas linhas de 4 bem compactadas, de maneira zonal, que negam espaços aos seus adversários e os forçam a explorar os flancos do campo (os corredores laterais), além de realizar pressões constantes na portadora da bola (um conceito de ‘’bola coberta’’ bem aplicado).

Também tem sido característica do time amazonense pressionar a saída de bola de seus adversários para uma rápida recuperação da posse de bola (início da fase de transição ofensiva). Nesta fase, o Hulk busca acelerar o jogo por meio de passes diretos e mais longos, para aproveitar a desorganização da defesa adversária.

No ataque, o Hulk inicia sua organização a partir da defesa, valorizando a posse de bola, com circulações para achar espaços e verticalizar o jogo (progredir para o campo defensivo do adversário). Explora bem os flancos através de triangulações e tabela ganhando tanto em amplitude, quanto em profundidade.

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Além disso, no último terço ofensivo da equipe (mais próximo do gol do adversário), a equipe busca criar infiltrações no centro de jogo para quebrar linhas de marcação – muitas vezes, essas infiltrações ocorrem em diagonais (saindo dos corredores laterais para o meio). Quando não chega por meio de passes, cria situações de 1×1 apostando na qualidade individual de suas jogadoras.

Outra movimentação importante se dá por parte de suas atacantes, que realizam trabalho de pivô (de costas para o gol adversário) e aplicam o princípio da mobilidade (movimentação de jogadoras sem a bola em busca de posições ótimas para recebê-la). Com isso, também geram espaços para suas companheiras progredirem e buscarem o objetivo final, o gol.

Uma equipe bem organizada taticamente, consciente do seu modelo de jogo, com conceitos e princípios estruturados e que também utiliza as jogadas de bola paradas para chegar ao gol. Uma preocupação a mais para as Sereias da Vila.

Destaques do Iranduba

A goleira Rubi, que vem sendo cotada como uma das melhores do campeonato e é peça fundamental no sistema defensivo. Kamilla, atacante com 6 gols marcados, uma das artilheiras da equipe e também líder de assistências para gols. Também atacante e com boa média de gols, Dany Helena é destaque do Hulk, além de Djeni, peça fundamental na construção ofensiva. Ambas convocadas para seleção brasileira para amistoso contra a Alemanha na terça-feira, dia 4 de julho.

SANTOS

A equipe do Santos fez uma bela campanha na fase de grupos, com 34 pontos e 80% de aproveitamento. Nas quartas-de-final, encarou a equipe do Audax sem maiores dificuldades. Impôs seu modelo de jogo, venceu a primeira partida fora de casa por 3×0 e empatou sem gols na Vila em um jogo que poderia ter vencido, mas não foi efetivo.

O sistema defensivo que o Santos costuma utilizar em suas partidas é bem semelhante ao do Iranduba. Duas linhas de 4 bem compactadas, de maneira zonal, com pressão na portadora da bola e negando espaços para infiltrações no centro de jogo. O equilíbrio defensivo das Sereias da vila chamou atenção durante a última partida da equipe por sua solidez e criação de superioridade numérica nos setores em que a bola se encontrava, assim dificultava as ações ofensivas do Audax.

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Arena da Amazônia teve recorde de público nas quartas contra o Flamengo, com mais de 15 mil pessoas no estádio

Ofensivamente, é uma equipe que também gosta de jogar construindo a partir de sua defesa e tem as participações incisivas de Maurine e Brena no seu terço mais defensivo (próximo de sua própria baliza) para organização e distribuição das ações.

Com circulação de bola, a equipe paulista busca triangular pelos corredores laterais do campo com apoios das laterais e aproximação das meias e atacantes para assim progredir no campo. Inversões de bola para o lado oposto à pressão adversária também são constantes no time do técnico Caio Couto, gerando desequilíbrios na defesa adversária.

O Santos ainda conta com a vice-artilheira da competição: Sole Jaimes tem 14 gols marcados (ficando atrás de Byanca Brasil, do Corinthians, com 15 gols), além de uma agilidade em campo para participar das ações ofensivas e criar espaços para suas companheiras. Mais do que isso, ela tem um excelente posicionamento dentro da área. Com certeza, uma jogadora que necessitará de atenção especial das defensoras do Iranduba.

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O Santos possui como característica uma transição defensiva – sair do ataque para defesa – eficiente ao perder a bola, com marcação sob pressão em quem está com ela e uma boa recomposição de suas linhas defensivas. Nos contra-ataques (transição ofensiva), explora a velocidade de suas jogadoras, como Ketlen e Sochor, além da boa visão de jogo de Brena e Maurine para aproveitar os momentos de desorganização da defesa adversária e assim chegar ao gol.

Destaques das Sereias da Vila

Sole Jaimes (vice artilheira da competição), Maurine (experiente jogadora que já foi de seleção) Brena (boa distribuição ofensiva e forte marcação são suas principais características) e Ketlen (participação constante no jogo, com velocidade e individualidade).

Pelas características das duas equipes, os jogos tenderão a ser bastante equilibrados e bem disputados taticamente. Vencerá aquele que se mantiver concentrado e com seu plano de jogo (estratégicos e táticos) bem executado durante os 180 minutos dessa grande semifinal. O jogo de ida promete casa cheia na Arena da Amazônia nesta quinta-feira às 20h, e na volta, a Vila Belmiro também deverá ter bom público no sábado, dia 8 de julho, às 15h.

Rio Preto e Corinthians se enfrentam na outra semifinal, com o primeiro jogo acontecendo nesta quinta às 17h em Rio Preto, e o segundo em Barueri no domingo, dia 9, às 15h.

Quem é Camila Lima: Chamo-me Camila Lima, tenho 22 anos, sou formada em bacharelado em Educação Física e fui por muitos anos atleta de futsal e futebol, chegando a disputar campeonatos estaduais e universitários. A paixão por futebol começou desde pequena, e o fato de não ter sido bem-sucedida como atleta me fez, nos dois últimos anos, assumir o comando técnico da equipe de futsal, tendo como referência um professor, que também é treinador e, para mim, o melhor de Pernambuco, Fabiano Chokito. Comecei, então, a trilhar meus passos e me descobri com o desejo de ser treinadora de futebol. A graduação foi uma grande aliada no meu desenvolvimento.

Através de estudos para meu TCC (relacionado a criatividade e inteligência tática de atletas) e para ministrar os treinos e organizar o planejamento da equipe de futsal feminino da UPE, descobri uma paixão pela tática. A partir disso, aprofundei meus conhecimentos através de artigos científicos, livros, blogs e sites relacionados ao conteúdo. Fato esse que só aumentou a paixão. Neste ano, decidi me dedicar exclusivamente ao futebol e, assim, acompanhei todas as partidas da equipe feminina do Sport Clube do Recife pelo Brasileirão e decidi realizar análises táticas (até então só pra mim).

Nada sofisticado, apenas uma prancheta, papel e caneta. Além disso, analiso jogos da equipe do Corinthians (profissional masculino) e os comentava no Twitter, acompanhando e dialogando com análises de outros profissionais. Com isso, aliado aos estudos, percebi meu crescimento profissional e inspirada por Eduardo Cecconi, analista de desempenho do Grêmio, depois de uma conversa sobre a modalidade, decidi publicar uma de minhas análises e tenho obtido muitas mensagens positivas a respeito do trabalho.

Almejo ser treinadora de futebol e essas análises táticas, além de fazer um trabalho pioneiro no futebol feminino, é a minha forma de mostrar ao mundo que estou aqui e aguardo ansiosamente por uma oportunidade.

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Camila Lima era atleta e agora trabalha para ser treinadora profissional de futebol (ela é quem está com a bola no pé)

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