Futebol Feminino

O dia em que mulheres foram maioria em um debate sobre futebol

O palco era o estádio Mané Garrincha, em Brasília. O debate era “Futebol: para além do dos 7 a 1”. E é bem possível que quem não soubesse o que estava acontecendo ali, se espantasse com a composição da mesa. Três mulheres, um homem. Podia ser um debate sobre moda, sobre culinária – mas era sobre futebol e esporte.

Tamanha “ousadia” aconteceu na 3a Conferência Nacional da Juventude, que nos deu a honra de participar de uma das “Arenas de Debate” ao lado da jornalista (e ídola) Milly Lacombe. Um dia em que nós, mulheres, deixamos o papel de coadjuvante nas conversas sobre futebol, e fomos protagonistas. Algo que pode até causar estranhamento para quem não estava lá – mas foi um primeiro passo para que, no futuro, situações assim sejam tão naturais e rotineiras, que passem despercebidas.

O papo começou com uma pergunta do ex-jornalista do Lance! e mediador do debate, Paulo Montoryn, sobre os casos de machismo que sofremos por trabalhar com esporte ou por praticar algum esporte. Depois falamos sobre as novas arenas e a modernização do futebol brasileiro, que tenta imitar os estádios sem alma da Europa. Discutimos sobre como o esporte é tratado com desprezo pelas autoridades, que teimam em não dar a devida importância a ele como parte da educação das crianças e jovens. Conversamos sobre os casos de corrupção e sobre como a CBF tem feito mal ao futebol por aqui. Debatemos as torcidas organizadas, a importância de existirem e a falta de capacidade dos clubes, federações e autoridades para lidarem com os problemas que alguns membros delas causam.

Mas a melhor parte do debate foi ouvir a voz delas. Das mulheres, que não eram maioria no público presente, mas que se fizeram ouvir. Algumas delas contaram sobre as tantas vezes foram impedidas de participarem de discussões sobre futebol – ou que não foram ouvidas sobre esse tema, porque, né?! “vai lá ajudar a mamãe a lavar a louça”. Outras disseram que não puderam jogar futebol ou basquete na infância porque “isso era coisa de menino”. Outra contou que dos 10 aos 12 anos de idade foi privada da aula de educação física, porque a professora colocava os meninos para jogar bola, enquanto as meninas ficavam ouvindo causos da vida dela. “Não sei nada de nenhum esporte, mas sei a vida dela todinha”, desabafou a garota.

“Isso é uma violência. A mesma violência que o Cunha está tentando fazer reduzindo nossos direitos. Privar uma menina de gostar de esporte ou de praticar um esporte é uma violência que fazem contra nós” – e, nessa frase, Milly Lacombe tinha resumido tudo.

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Somos desde cedo privadas de jogar futebol, basquete, rúgbi – e eu poderia listar outras dezenas de modalidades aqui – porque “isso não é pra menina”. Nos resta o Ballet (e azar de quem não gostar dele), os brinquedos domésticos (o dia em que passar roupa for sinônimo de diversão, eu peço pra sair desse mundo), o “ajudar a mamãe na cozinha” – e, enquanto isso, o menino joga bola, vai ao estádio, brinca no autorama, no futebol de botão que ganhou de presente…

Quando contamos as histórias que ouvimos ao pedir os depoimentos na nossa página sobre casos de machismo e assédio que as mulheres sofreram por gostarem ou praticarem um esporte, a cara dos meninos da sala era de espanto – a das meninas, de “é, eu sei exatamente do que vocês estão falando”.

Quando falamos sobre o futebol feminino e como nossa seleção é desprezada pela CBF e pela mídia; quando mencionamos os erros grotescos de um repórter de TV ao entrevistar Andressa Alves no Pan e chamá-la de Alessandra por duas vezes, mesmo depois de ela ter corrigido a primeira; quando contamos sobre o deserviço de outro canal esportivo ao comentar o recorde de Marta – maior artilheira da seleção, superando Pelé – e dizer que ela “tinha mais jogos”, sem ao menos checar essa informação pra ver que ela tem bem menos jogos, na verdade; vimos, ao mesmo tempo, espanto e empatia no público que estava ali.

Foi um debate tão rico e prazeroso, que poderíamos ficar ali por horas – e ficamos, ao menos por duas. Ouvimos histórias do Rio, da Bahia, de Pernambuco, do Ceará…trocamos experiências e saímos dali com a bagagem muito mais cheia do que quando chegamos.

E ao ouvirmos o comentário de uma das meninas que estiveram na sala dizendo: “Não acompanhava futebol, mas queria acompanhar a partir de agora, porque gostei muito do que vocês disseram aqui” – ali tivemos a certeza de que tudo o que tentamos fazer esse ano tinha valido MUITO a pena.

São pequenas conquistas – e em 2016 tem muito mais 🙂 #SeguiremosDibrando

*(Agradecimentos mais que especiais a Paulo Motoryn, Tamara Terso e a toda equipe da Secretaria Nacional da Juventude pelo convite e pela honra de participar de um evento tão incrível). 

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