Futebol Feminino

Estreia, goleada e nova fase: a seleção sob o comando de uma mulher

 

O Torneio Internacional de Manaus começou ontem (07/11) e o Brasil venceu a Costa Rica por 6X0. A vitória já era esperada, o que nos deixou empolgadas foi poder presenciar um momento único: ver, pela primeira vez na história, uma mulher comandar a seleção principal feminina de futebol. Some a este fato o possível adeus de uma das jogadoras mais lendárias da história do Brasil. Formiga, que defende a seleção por mais de 20 anos, deve encerrar sua carreira ao término do torneio de Manaus.

Manaus_equipe

A chegada necessária de uma mulher no comando da seleção e a despedida de nossa fonte de inspiração faz com que essa competição seja especial – mesmo enfrentando adversários fracos e com pouca expressão na modalidade.

EMILY LIMA

Em entrevista para a CBFTV, a treinadora afirmou que sua ideia era montar um time com a defesa bem organizada e obediente, com as laterais avançando e virando alas, uma volante aparecendo do lado oposto, duas meias e duas atacantes, para que ofensivamente elas pudessem “brincar com a bola”.

Elas têm que se divertir, a gente não pode tirar isso de nossas atletas, afirmou Emily. Eu achei lindo isso, ouvir uma técnica mulher propor diversão para as jogadoras de uma seleção nacional.

Confesso que conheci o trabalho e a história da Emily tardiamente. Foi fazendo pesquisas sobre a participação da mulher no futebol que me deparei com uma treinadora. “Epa, peraí, existe uma treinadorA na CBF? Mas quem é ela?”. Na internet, descobri um pouco sobre sua trajetória de jogadora e sua breve iniciação – até aquele momento – no comando técnico. O ano era 2013 e eu fui atrás de um contato para conhecer um pouco mais sobre essa mulher.

Escrevi pra ela e a resposta veio rápido: topou me dar uma entrevista e me convidou para ir até sua casa. E foi assim que a conheci, ela tinha acabado de chegar às seleções de base da CBF e tinha mil sonhos pela frente. Batemos um papo gigantesco, ela vestia a camisa da seleção, me falou sobre sua trajetória no futebol, sobre seu estilo de jogo e até mesmo sobre seu pai, de quem sente muita falta.

EMILYDesde então, comecei a prestar mais atenção em seu trabalho e em sua postura como treinadora. A admiração só aumentou. Não é preciso ficar aqui relembrando suas conquistas e seu modo eficiente de comandar uma equipe, mas o fato é que a seleção brasileira precisava dessa mulher para evoluir em diversos aspectos.

Em sua estreia, o time goleou e tocou a bola com tranquilidade como há anos não fazia. As jogadas ensaiadas, os avanços das laterais e a bola área apareceram. A treinadora se manteve em pé, na beira do gramado, instruindo suas jogadoras. A cada gol marcado, o abraço em sua comissão era sincero. E até mesmo as substituições puderam ser vistas ao longo dos 90 minutos. Parece até que são coisas simples de se aplicar, mas a realidade recente foi outra e bem diferente.

A treinadora exigente, estudiosa e apaixonada por tática (e por José Mourinho), terá pela frente mais um grande desafio. Não é o próximo jogo de domingo (11) contra as russas, mas sim o poder de convencer Formiga a não se aposentar no final deste ano.

FORMIGA

Ela, a mutante, a Highlander, o motor e o coração da seleção, já afirmou que se aposenta no final de 2016. Como imaginar esse momento? Como entrar em campo sem a presença constante da camisa 8 em todos os cantos do gramado? São 22 anos servindo a seleção em seis ciclos olímpicos e seis mundiais.

Formiga

A torcida de Manaus entendeu o privilegio que está vivenciando e fez questão de ovacioná-la a cada toque que dava na bola. Faixas de agradecimento e gritos da arquibancada também apareceram, apesar do pouco público. O que será oferecido para essa mulher no momento de seu adeus? Será que a entidade máxima do futebol já pensou nisso?

Troco tudo que conquistei e o que posso conquistar pela implantação do profissionalismo no Brasil. Sem pensar um momento. Eu não teria medalha, mas o Brasil ganharia muitas. Basta profissionalizar para que venha o ouro muitas vezes, afirmou a própria antes dos Jogos Olímpicos deste ano.

Formiga merece todas as honras possíveis e, mais do que isso, ela precisa fazer parte dessa evolução que o futebol feminino tanto precisa.

Teremos mais três oportunidades únicas de apreciá-la com a bola no pé e defendendo nosso país. Assim como confio na inteligência tática da Emily pra comandar essa seleção, também acredto em seu poder de persuasão para, quem sabe, nos dar um pouco mais da enorme honra de ver a Fu dentro das quatro linhas.

FUTURO, PRESENTE E PASSADO

Andressinha foi a primeira jogadora a marcar um gol sob o comando de uma mulher na seleção brasileira. Ela, tão pouco e mal aproveitada pelo ex-comandante do Brasil, simboliza o futuro do time que, em breve, deverá passar por uma renovação seguindo a ordem natural das coisas.

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Emily é o nosso presente, no duplo sentido da palavra. A grata surpresa que o time tanto precisava e a responsável por preparar hoje o que a seleção deseja ser lá na frente. Terá trabalho!

Formiga, em breve, fará parte do nosso passado. Ela rompeu as barreiras do tempo em que o futebol era ainda mais marginalizado, renegado e difícil do que é hoje. O primeiro lugar do mundo nunca foi das brasileiras, mas como haveria de ser se nunca fizeram o mínimo para apoiá-las? Operária do esporte, Formiga enfrentou e apanhou dos familiares para poder ser quem é hoje. E eu espero, do fundo do meu coração, que o presente e o futuro do futebol feminino jamais se esqueçam dessa gigante que suou e chorou para nos ver felizes.

Créditos fotográficos: Lucas Figueiredo/CBF 

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