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‘Nos vestimos de homem para que nos deem valor’: o protesto de um time feminino no Paraguai

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De barba, bigode e caras fechadas: foi assim que as mulheres do time do San Lorenzo do Paraguai entraram em campo para a partida contra o Club Humaitá neste final de semana em protesto. Nos cartazes, a explicação para a pintura no rosto: “Nos vestimos de homem para que nos deem valor”.

A manifestação veio de todas as categorias femininas do clube, que é acusado de não repassar a verba da Federação de Futebol do país destinada à equipe feminina. “Não fazemos futebol há dois meses”, dizia outro cartaz. “Exigimos o aporte da APF (Associação Paraguaia de Futebol) que nos pertence”.

Segundo informações do time feminino, as meninas e mulheres do clube estão sem campo para treinar e não contam com qualquer estrutura do San Lorenzo. Elas ainda alegam que a equipe não cumpre as promessas feitas às categorias femininas. Por isso, a ideia foi se vestir como homens, para que então pudessem ter o “respeito” e a “atenção” dos dirigentes do clube.

“Diante da falta de apoio de parte da Comissão Diretiva do nosso clube, da não entrega do aporte que a APF (Associação Paraguaia de Futebol) destina ao futebol feminino, da falta de campo para treinar, e das promessas não-cumpridas, decidimos nos vestir como ‘homens’, já que eles, sim, têm a total atenção dos responsáveis do clube”, dizia o post da equipe feminina no Facebook.

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“Não temos infraestrutura para treinar. Não temos campo para jogar. Não nos dão nem água e não temos assistência quando alguma jogadora se machuca. A APF designa um montante para suprir os gastos com o feminino, mas esse dinheiro não chega até nós”, afirmou a capitã do time principal Johana Benítez ao jornal local La Nación.

“Nós usamos o campo de uma faculdade de engenharia por um tempo, porque uma das meninas estuda lá. Mas eles também estão com seus torneios e não puderam mais emprestar. Então nós fomos para o campo da ciclovia, mas apenas por um mês, porque agora ele está em reforma. No clube, não querem nos oferecer nenhum lugar, só nos deixam treinar em um campo minúsculo com gramado sintético”, criticou Benítez.

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Jogadoras da equipe juvenil do San Lorenzo se sentaram em campo em protesto

A Coordenadoria de Futebol Feminino da APF distribui a cada clube 15 milhões de guaranis (equivalente a R$ 9 mil) para ajudar com custos dos torneios femininos (Apertura e Clausura) – no mínimo, cada equipe joga 11 partidas. Mas de tudo isso, o departamento de futebol feminino do San Lorenzo só recebeu 2 milhões de guaranis.

A situação financeira ficou ainda mais complicada nos últimos dois meses, segundo as jogadoras. A capitã afirma que, desde abril, as atletas não têm campo para treinar exercícios táticos. “Estamos dando muito amor a um clube que sequer se propõe a nos ouvir.”

Resposta

O San Lorenzo emitiu comunicado para esclarecer as reivindicações e garantiu que “as equipes femininas jamais foram objeto de discriminação de qualquer parte da Comissão Diretora”.

A explicação para o dinheiro não repassado foi a falta de prestação de contas do departamento de futebol feminino do clube, segundo os dirigentes.

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“O dinheiro (da APF) é e será destinado única e exclusivamente para esses fins e se encontra à disposição dos coordenadores de futebol feminino da instituição, uma vez que cumpram os requisitos de prestação de contas e comprovantes legais que justifiquem seus gastos para sua inclusão no balanço geral do clube. A coordenação de futebol feminino se encontra em falta, pois até esta data não apresentou os comprovantes de gastos em relação a desembolsos anteriores, motivo pelo qual a Comissão Diretiva não autoriza a entrega do montante total.”

Ainda no comunicado, eles afirmam que os times femininos “podem usar a academia e outros espaços no prédio central do San Lorenzo”, mas que o campo principal “é de uso exclusivo do nosso plantel principal” – que seria o time masculino, que disputa a Terceira Divisão nacional atualmente – e que “excepcionalmente, e de acordo com o calendário de partidas e o estado do gramado, o campo também tem sido utilizado pelas divisões do futebol feminino.”

Para finalizar, o clube alega que sua Comissão Diretiva tem tentado “com sucesso fazer os arranjos necessários para as equipes de futebol feminino e as divisões de base possam utilizar campos de outros clubes da Liga San Lorenzana para a prática do futebol”.

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Justificativa ou descaso?

Independente de qual lado está errado nessa história – se o departamento de futebol feminino do San Lorenzo, que não teria apresentado sua prestação de contas, ou a Comissão Diretiva do  San Lorenzo, que não teria repassado o dinheiro -, é certo que quem realmente está sofrendo as consequências desses erros são as jogadoras. Aliás, a briga interna entre departamentos e dirigentes do próprio clube já evidencia que as atletas são as últimas a serem levadas em consideração nessa confusão toda.

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Não é possível jogar sem ter campo para treinar. Não é possível ser atleta, sem o mínimo da estrutura necessária para isso. Não adianta fazer futebol feminino por fazer – é preciso realmente estar disposto a investir na modalidade.

Elas merecem respeito – e não deveriam precisar de barba e bigode para conquistá-lo (em nenhum lugar do mundo).

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