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‘No nosso melhor momento, o pior aconteceu’: o relato de uma apaixonada pela Chapecoense

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Em meio às tristes e chocantes notícias do dia de hoje, resta a todos nós nos resguardarmos naquilo que mais nos une: a paixão pelo futebol. Trazemos aqui o depoimento de uma torcedora fanática da Chapecoense que traduz um pouco daquela máxima que adotamos sempre: não é só futebol. Hoje, somos todos Chapecoense.

*Por Gabriela De Toni, jornalista do Time de Fora

O ritual sempre foi o mesmo: sintonizar na rádio, colocar os fones de ouvido, pegar a almofada da Chape e andar até o estádio. Duas quadras, dez minutinhos a pé. E lá estava eu na geral, sempre na meia altura da arquibancada, muitas vezes com capa de chuva, boné ou casaco. O que não mudava era a camisa verde com o brasão do Verdão do Oeste que era minha primeira pele.

Sempre que viajava para Chapecó, seja em férias, feriados ou só para visitar a família, ia aos jogos da Chapecoense. O amor pelo futebol transcende barreiras climáticas como a chuva, o vento ou o sol escaldante. A Chape bem sabe que a gente tem uma relação intensa: já passamos por chuva de pedra, vendaval e toneladas de água sobre nós. Mas a gente sempre mantém o tom amistoso. Não importa o dia, a hora da Chape é sempre dela. Muitas das vezes, eu ia sozinha ao Índio Condá e me via acompanhada pelas narrações e pelo trabalho jornalístico das rádios da cidade. Como é delicioso ouvir uma partida de futebol e assisti-la ao vivo.

Confesso que a nossa relação acabou se estreitando depois que eu vim morar em outra cidade. A Chape, meu xodó, cresceu junto com meu amor pelo Jornalismo Esportivo. Parecia que quanto mais eu gostava de uma coisa, a outra seguia junto. Os melhores jogos são os que a gente assiste no nosso estádio, mas sofri igualmente em partidas vistas pela TV ou em mandos de campo que não eram verde e brancos. E como quem não quer nada, a Chape veio de mansinho e se instalou no meu coração que agora é alviverde.

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Gabi e a Mãe, também torcedora da Chapecoense

Como é de costume na região oeste do Sul do país, muita gente acompanha mais Inter e Grêmio, pela cultura e transmissão de torcida de geração para geração. Em Chapecó, não foi diferente até pouco tempo atrás. Porém, hoje as crianças nascem com o manto verde e branco, os idosos ouvem os jogos com seus radinhos de pilha e os adultos abraçam a grandeza desse pequeno. Hoje os times gaúchos que são os segundos donos desses corações, pois o primeiro lugar é de longe da Chape.

Falando em segundo time, no resto do Brasil é bem isso que acontece. A Chape é o brilho dos olhos de todo mundo. Apostaria qualquer coisa que todo amante de futebol admira a história verde e branca, sente certa inveja da nossa caminhada recente e considera a Chape time grande. Com certeza, não é qualquer um que faz o que a gente fez e ainda vai fazer.

A cidade é o time e vice-versa. Foi através do futebol que Chapecó alcançou dimensões nacionais e virou um ponto no imenso mapa brasileiro. Em uma relação de benefício mútuo, a gente abraça o time que devolve tudo em dobro com uma raça incrível dentro de campo. No nosso melhor momento, o pior aconteceu.

Não dá pra tentar entender ou procurar explicações. Esse povo não merece essa dor. Todo chapecoense conhece alguma das vítimas ou algum familiar delas, afinal, Chapecó é uma cidade pequena. Não tenho dúvidas de que a união vai prevalecer entre nós. Somos unidos por uma paixão e lutaremos por ela. Por seu significado, por sua história e por seus guerreiros. Mais do que nunca, o futebol une as pessoas. Nele nos reergueremos e honraremos os 76 homens que nos deixam hoje.

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