Futebol

Netos vascaínos realizam sonho de avó tricolor e promovem encontro emocionante com Fred

Bruno Trindade é vascaíno; sua avó, dona Nicinha, é Fluminense; o atacante Fred, hoje, é Atlético-MG; mas o futebol é tão grande, que rompe qualquer barreira clubística por um amor em comum. Essa história é sobre isso: amor e futebol.

Dona Nicinha cresceu acompanhando sua mãe, vascaína, que acompanhava religiosamente todos os jogos do Vasco pelo rádio. Quando casou, por influência do marido, acabou se decidindo pelo Fluminense para torcer. Acompanhava todos os jogos – não costumava ir ao estádio, mas isso não diminuía a sua paixão.

Por conta de dona Nicinha e de sua mãe, a família se dividiu – no bom sentido. Metade virou Vasco, metade virou Tricolor. Bruno Trindade foi um dos que acompanhou a bisa, mas sem deixar de admirar a avó e seu fanatismo pelo Fluminense.

“Com o passar dos anos, minha bisa faleceu, meu avô também, e ela (dona Nicinha) ficou um pouco sozinha na questão do futebol. Ela tem um problema de visão, então não enxerga muita coisa – ouve muito mais do que enxerga. Então ela fica sempre no rádio de pilha dela”, conta Bruno.

“Aí, com o tempo, fomos descobrindo essa paixão dela pelo Fred – quando ele ainda não tinha saído do Fluminense.”

Dona Nicinha sabe tudo de futebol. Até hoje, aos 83 anos, ela não deixa de criticar técnicos e dar seus palpites sobre o que acha que seria bom para o Fluminense. E, no ano passado, em um período de mais baixos do que altos do clube, ela aproveitou um almoço para desabafar.

“Esse Levir Culpi não dá. Ele fez o Fred sair do time, aí esses garotos agora ficam sozinhos aí. Não têm referência. E o Fred fazendo um monte de gol no Atlético”, disse dona Nicinha.

O momento de torcedora “indignada” foi registrado em vídeo pelos netos, que tiveram a ideia de apresentar dona Nicinha para seu ídolo, Fred. Aí começou a saga dessa história – que terminou em lágrimas e muito amor.

Um marca-passo e um câncer no meio do caminho

Bruno Trindade, um dos netos vascaínos de dona Nicinha, enviou o vídeo da revolta dela com o Fluminense – e da tristeza por ver Fred no Galo – para um amigo que trabalhava na equipe tricolor na época que o camisa 9 ainda jogava por lá. Ele, por sua vez, encaminhou o vídeo para Fred, que respondeu prometendo um encontro com dona Nicinha.

Era para isso acontecer ainda no ano passado, quando o Atlético-MG foi ao Rio de Janeiro para um jogo contra o Botafogo. Mas um imprevisto aconteceu e dona Nicinha foi parar no hospital.

“Ela começou a se sentir mal, meio ofegante e teve que ir para o hospital naquela semana. Teve que colocar um marca-passo e tudo. Quando ela estava se recuperando, eu comentei com o meu amigo e fizemos um vídeo dela no hospital, reclamando do Levir Culpi, indignada. Esse meu amigo encaminhou o vídeo para o Fred, e ele respondeu. Aí no hospital ela ficou conhecida como ‘amiga do Fred’”, contou Bruno.

Dona Nicinha não enxerga direito, mas ela reconhece a voz do ídolo como ninguém. Bastou ouvir o recado de Fred para ela submeter o marca-passo ao primeiro teste de funcionamento – não segurou a emoção, deu soco na cama e desatou a falar, contando sobre como havia respondido quando o médico a perguntou se ela tinha alergia a alguma coisa. “Tenho alergia ao Flamengo”, brincou.

A segunda tentativa aconteceu no primeiro jogo do Campeonato Brasileiro deste ano, quando o Atlético-MG foi ao Rio de Janeiro para enfrentar o Flamengo. Mas outro problema impediu dona Nicinha de conhecer Fred naquela ocasião.

“Foi um dos primeiros jogos do Atlético-MG na temporada, contra o Flamengo aqui no Rio. A gente ia levá-la. Mas aí na semana anterior ela descobriu que estava com câncer de mama. Teve que tirar uma mama, fez cirurgia e tudo. Aí a gente tentou dar um jeito, mas o médico falou que era arriscado ela sair do hospital recém-operada, então tivemos que cancelar mais uma vez”, relatou Bruno.

O grande encontro

Quando finalmente o Atlético-MG voltou ao Rio de Janeiro – desta vez para jogar contra o Vasco -, Bruno e os outros netos de dona Nicinha articularam tudo de novo. Desta vez, o encontro sairia.

E não poderia ter sido em outro lugar. O Galo foi treinar nas Laranjeiras, o tradicionalíssimo estádio do Fluminense, e a família inventou uma desculpa para levar dona Nicinha para lá para “fazer hora”. Ela aproveitou a visita – era a primeira vez que entrava naquele lugar cheio de história – e tirou fotos, deu beijo no busto de Assis, até que chegou a hora de encontrar seu ídolo mais recente.

“O que aconteceu lá foi a realização de um sonho -da minha avó. A gente ficou preocupado: e se ela tem um piripaque aqui? Foi tudo na hora, a gente não imaginava que seria tão emocionante. Nem consegui filmar tudo”, disse Bruno.

Aos 83 anos, dona Nicinha viveu seu ápice como torcedora do Fluminense – proporcionado pelos netos vascaínos e por um jogador que hoje veste o uniforme do Galo. Futebol é isso. Não importa a cor da camisa, é sempre a mesma paixão.

 

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