Futebol Feminino

“Não se faz futebol feminino por decreto, se faz por dedicação”, diz presidente do Santos

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Quando se fala em futebol feminino no Brasil, é impossível não lembrar aquele timaço do Santos na década de 2000. A equipe ficou conhecida como “Sereias da Vila” e reunia o que de melhor o país poderia oferecer na modalidade: um futebol com habilidade, velocidade e elegância.

Alguns dos maiores nomes da modalidade atualmente já passaram pelo Santos. Marta, Cristiane e cia levaram o clube para o mundo, inclusive. E um dos maiores responsáveis por isso agora encabeça um projeto que tem por objetivo tornar o Alvinegro Praiano uma referência permanente no futebol feminino do país.

Saiba mais sobre o Santos ouvindo o podcast #68 com a zagueira Alline Calandrini

Modesto Roma Júnior, atualmente presidente do Santos, foi quem liderou a formação daquele time vitorioso entre 2007 e 2011, como diretor de futebol, e é quem hoje, no cargo mais alto do clube, tenta fazer com que o futebol feminino “crie raízes” no Santos, para que possa sobreviver sem ele no cargo. O segredo que ele encontrou para isso?

“Não se faz futebol feminino por decreto, se faz por dedicação. Futebol feminino precisa ser gerido com uma vontade de fazer a modalidade crescer”, disse ele em entrevista exclusiva às dibradoras.

Precisa esforço, precisa trabalho…E precisa parar com essa história de querer comparar o futebol feminino com o futebol masculino. O basquete feminino é completamente diferente do basquete masculino. O vôlei masculino é completamente diferente do feminino, até esportes individuais são completamente diferentes no masculino e feminino. São fisicamente diferentes. Mas tem gente que não sabe disso até hoje.

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Mas nem tudo foram flores no futebol feminino santista. A modalidade existe no clube desde 1997, mas teve de fechar as portas em 2012 por falta de verbas – o patrocinador saiu e não houve mais quem bancasse as jogadoras. Ainda assim, mesmo nos tempos áureos, o clube penava e oferecia condições bastante complicadas para as jogadoras.

Em entrevista às dibradoras, a própria Marta revelou que treinava em campo de terra batida quando jogou no Santos – ela, que já era a melhor do mundo à época.

“Lógico que o futebol feminino teve anos difíceis, campos de terra batida, cheio de buraco, sem grama. Tivemos muitos anos difíceis, mas a gente vai crescendo”, admitiu Modesto.

A realidade agora é bem diferente daquela. No mês passado, o Santos inaugurou um alojamento de primeira linha destinado ao futebol feminino. Atualmente, o objetivo é colocar em prática a ideia de estabelecer uma categoria de base completa.

Hoje temos uma estrutura melhor, uma comissão técnica profissional montada completa só para o feminino, o departamento médico todo a disposição delas, alojamento de primeira linha, jogadoras profissionais, com registro em carteira… isso é evolução”, afirmou.

Brasil - Brasilia - DF - 24/09/2009 - Cristiane (e) do Santos comemora seu gol com Marta durante partida contra o Cresspom (DF), realizada no estadio Bezerrao, valida pela Copa do Brasil de Futebol Feminino. Foto: Ueslei Marcelino/AGIF
Foto: Ueslei Marcelino/AGIF

“Não dá para a gente fazer isso por decreto. Tem que ir acontecendo.  Não dá também pra fazer isso só querendo que alguns levem vantagem. Tem muita gente que quer fazer só pra tirar vantagem”.

Ao longo da conversa, Modesto falou por três vezes a palavra “decreto”. Ele não concorda com a maneira que a CBF encontrou para incentivar a modalidade: agora, a partir de 2019, os times masculinos que não tiverem equipe feminina não poderão disputar as competições organizadas pela confederação.

Não adianta fazer decreto. Outro dia disseram: ‘ah, um jogador de R$ 250 mil por mês que vocês contratem errado e ponham no banco já paga a folha salarial de um time inteiro de futebol feminino’. Olha, tem muito clube no Brasil de Série B, por exemplo, que não tem jogador de 250 mil”, pontuou, mencionando a frase de Marco Aurélio Cunha, coordenador de futebol feminino da CBF.

“Falando isso, você prova que não conhece a realidade do futebol feminino, nem do futebol masculino. Então parem de falar bobagem e coloquem pessoas que saibam o que estão fazendo.”

A questão do decreto é polêmica, ‘as há muitos argumentos favoráveis também – os que apoiam dizem que a obrigatoriedade (que foi primeiramente imposta pela Conmebol) pode trazer desenvolvimento para a modalidade.

Modesto faz mais uma crítica à confederação: “A gestão do futebol feminino tem que ser feita por quem entende de futebol feminino. Coisa que não tem na CBF.”

O que ele acha que deveria ser feito para promover o futebol feminino? “Em primeiro lugar, escutar quem faz futebol feminino. Não adianta por cardeal pra cuidar do futebol feminino, tem que escutar quem faz. Mas quem faz de verdade. Você tem um ranking de clubes da CBF, então chamem os dirigentes desses clubes pra discutir futebol feminino.”

Projeto no Santos

Foi em 2007 que a história do futebol feminino no Santos começou a mudar, quando sob a gestão o presidente Marcelo Teixeira, o clube passou a olhar com carinho para a modalidade – atitude que as próprias jogadoras atribuem principalmente a Modesto.

“Em 2007, nós entramos na Copa do Brasil e saímos na primeira rodada, fomos desclassificados. Aí falamos: não dá pra ser assim, se é pra fazer, vamos fazer direito. E aí começamos isso em 2008.”

Sereias da Vila

“Montamos um time espectacular, que tinha Cristiane, Erika, Andréia Suntaque, Maurine…e um dia eu falei pro Marcelo: existe uma chance de a gente trazer a Marta. Ele disse: isso é a grande cereja do bolo, vamos trazer. Isso foi julho de 2009. Fizemos isso e começamos a ter o time sensacional que o Santos montou.”

Aquele “time sensacional” acumulou títulos com o tricampeonato paulista, o bicampeonato da Copa do Brasil, o bi da Libertadores e o inédito título Mundial.

A equipe acabou em 2012 e voltou em 2015, mas desde então não conseguiu mais títulos. Modesto acredita, porém, que dando continuidade a um trabalho bem feito, as conquistas virão como consequência

O time principal está bem agora, nós estamos com seis das nossas meninas na seleção – cinco agora, considerando que a (Alline) Calan(drine) se machucou. Estamos formando a base, ainda não dá pra formar um time sub-15, outro sub-17 , mas dá pra formar uma categoria de base”.

“Tem muitas jogadoras que estão na seleção hoje e que começaram a jogar futebol no Santos. O Santos sempre teve a base, formou muitas atletas, grandes jogadoras, e agora vai ser ainda melhor.”

Com eleição marcada pra este ano, Modesto pode estar com os dias contados na Presidência do clube, mas ele diz que quer garantir a continuidade do time independentemente de sua permanência.

“Você só consegue garantir quando você cria uma estrutura com raiz, quando não tem raiz é fácil arrancar o mato. Então é isso que a gente está tentando criar, a raiz pra que o futebol feminino possa ter um futuro.”

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