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Não estamos sendo gentis com você há algum tempo, Serena

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Serena Williams está muito perto de uma marca histórica – mais uma das tantas que ela coleciona. No sábado, ela venceu a final do Australian Open contra sua irmã mais velha, Venus Wlliams, e conquistou seu 23° Grand Slam na carreira aos 35 anos de idade.

Nenhum(a) outro(a) tenista conquistou mais títulos do que ela na Era Aberta do tênis, que começou em 1968. Atualmente, com 23 conquistas, Serena passou Steffi Graf. Juntando as duas eras, temos Margaret Court com 24 Grand Slams, outra marca que poderá – e deverá – ser superada por Serena Williams em 2017.

(Ouça aqui nosso podcast sobre o tema com a ex-tenista Vanessa Menga)

 

Mas mesmo com tantos recordes, mesmo mudando a maneira de se jogar tênis entre as mulheres, de colecionar números que antes se pensavam impossíveis na modalidade, Serena ainda segue sendo duvidada, questionada, definida como uma tenista “com características masculinas”. E quando se fala das novas marcas, elas sempre vêm juntas com uma observação como que para “diminuir” seus feitos. “A melhor atleta do tênis FEMININO de todos os tempos”, “a melhor tenista MULHER”.

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Só que seria no mínimo relevante lembrar que, veja bem, entre homens E mulheres, NINGUÉM ganhou títulos mais do que ela na era aberta. E por que, então, nunca ouvimos ninguém sequer cogitar a possibilidade de colocá-la no topo do hall de MELHOR TENISTA DE TODOS OS TEMPOS, simples assim?

Conversando com um amigo especialista em tênis, fiz a pergunta a ele: quem é o(a) melhor tenista de todos os tempos na sua opinião. Ele respondeu: Roger Federer. Quantos Grand Slams ele tem, questionei. 18. Serena tem 23.

Ele pontuou que considera Federer o maior porque ele jogou com os maiores nomes que o tênis já viu e, ainda assim, conseguiu sobressair. Citou Pete Sampras (14 Grand Slams), Rafael Nadal (14), Djokovic (11). Achei justo. Mas ele próprio pontuou que, considerando o histórico de racismo e dificuldades enfrentadas por Serena, ela estaria no mesmo nível – no mínimo.

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Mas o que me intriga é que sequer exista essa “discussão”, esse “debate”. Por que nunca colocam Serena Williams entre os e as melhores de todos os tempos, sem artigo para distingui-los aí? – como se ela já não tivesse conseguido provar que é tão boa quanto qualquer homem pode ser. E que merece, portanto, ter a mesma valorização.

Tempos atrás, em uma entrevista ao rapper Common, Serena chegou a levantar a reflexão que eu proponho agora. “Se eu fosse homem, eu seria melhor do mundo bem antes.”

“Eu penso que se eu fosse um homem, essa conversa já teria acontecido há muito tempo. Eu penso que ser mulher é apenas um novo conjunto de problemas com os quais a sociedade terá de lidar, assim como ser negra, então há um monte de coisa para tratar—e especialmente nos últimos tempos”, ela disse. “Eu posso falar pelos direitos das mulheres porque acho que eles se perderam na cor, ou se perderam nas culturas. Mulheres construíram muito deste mundo e, sim, se eu fosse um homem eu seria considerada a melhor do mundo bem antes, há bem mais tempo.”

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Se você fosse homem, Serena, você seria chamada de “Pelé do Tênis”. Seria indiscutivelmente, a melhor de todos os tempos. Seria a maior referência da modalidade. Os números te colocam no topo, Serena, mas parece que quem te define nessa discussão de “melhor” não são as conquistas – e sim o seu gênero, a sua cor.

Num esporte tão elitizado, “esbranquiçado”, Serena Williams desafiou o que viu pela frente. Mulher, negra, “fora dos padrões” da beleza exaltados pela sociedade, ela foi chamada de “masculina”, ouviu críticas sobre seu corpo “forte demais”, foi questionada, duvidada e nunca, nunca mesmo, valorizada como merecia.

Até mesmo em suas vitórias, ela acabava criticada – como foi nesta semana em coletiva de imprensa no Australian Open, quando o repórter disse: “Pareceu um pouco uma performance precária com um pouco mais de erros não forçados, faltas duplas”, analisou o repórter. (Veja nesse vídeo a resposta dela).

Serena não titubeou. “Acho que isso é uma coisa muito negativa para se dizer. Você está falando sério?”, questionou. “É só a minha visão”, o jornalista respondeu.

Ao que a tenista rebateu com classe: “Bom, você deveria estar fora daqui. Isso não foi muito gentil. Você deveria se desculpar. Quer se desculpar?”.

E aproveitou para elogiar a adversária, mais uma atitude nobre. “Foi uma boa performance. Eu joguei bem. Ela está entre as 10 melhores do ranking. Da última vez que jogamos juntas, foi na final do Grand Slam. Sabe, não é um jogo fácil. Ela é uma ótima jogadora. Você precisa se esforçar mais, o que obviamente gera um pouco mais de erros.  Então, sim, no geral foi uma boa partida de ambas as partes”.

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O repórter acabou se desculpando e eu aproveito a oportunidade para fazer o mesmo também. Não estamos sendo gentis com você, Serena, já há algum tempo. Com uma tenista que já conquistou sete vezes o Australian Open. Como uma atleta que vive no topo há pelo menos 15 anos, vencendo os principais torneios de tênis do mundo. Como a atleta mais velha a conquistar Wimbledon, Roland Garros, Australian Open, US Open, todos os Grand Slams. Como a maior campeã olímpica da história do tênis entre homens e mulheres, com quatro ouros conquistados.

Não estamos sendo gentis com aquela que pode facilmente ser definida por quatro palavras: melhor tenista do mundo. Deixem o gênero de lado, o que Serena faz em quadra é inacreditável.

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