Futebol Feminino

Mulheres no jornalismo esportivo: “O maior preconceito vem da imprensa e dos colegas de profissão”

A mulher se emancipou, o século virou, mas em alguns “cenários” a luta por respeito e reconhecimento continua. Sem entrar no mérito de equiparação salarial, toda mulher que ingressa no mercado de trabalho – seja qual for sua profissão – precisa provar duplamente que é competente e capaz de realizar as mesmas funções que os homens. Agora pense em uma mulher que atua no cenário esportivo, mais precisamente no setor de futebol, como deve ser a sua rotina?

Todo mundo cresce ouvindo que futebol é coisa de homem, que ir ao estádio e apoiar o clube é tarefa para meninos, que mulher não entende de bola, escalação, impedimento e por aí vai. Mas esse, como muitos outros estigmas, não passa de um preconceito estabelecido há anos e que nós ainda tentamos combater.

O podcast de número 11 das ~dibradoras na Rádio Central 3 abordou a participação das mulheres no jornalismo esportivo e contou com as participações de Camila Mattoso (jornalista da ESPN – SP) e de Mariana Rodrigues (produtora da ESPN – RJ), além de declarações da repórter Mayra Siqueira, da rádio CBN. Ambas profissionais revelaram diversas situações em que o machismo se fez presente – principalmente entre os próprios colegas homens de profissão –, colocando em cheque sua capacidade de conseguir matérias exclusivas e realizar seu trabalho de maneira correta e brilhante.

Camila Mattoso

Camila nunca foi setorista no jornalismo, sempre cobriu a parte de bastidores e tem como entrevistados os cartolas e dirigentes de clubes do Brasil. Ela revelou que é preciso convencer seus colegas de trabalho de que suas informações são apuradas com competência e muito trabalho e não de outras formas:

Em muitas situações, eu tinha que avisar que estava ligando para eles apenas para pedir informações e nada mais”, afirmou.  “A parte mais decepcionante da profissão é conviver com pessoas que não entendem o seu trabalho. Todo dia tenho que provar minha competência e tomar um cuidado 10 vezes maior do que um homem tomaria, por exemplo. Não apuro pauta após às 19h para evitar qualquer tipo de desconfiança. Um homem pode encontrar um cartola às 19h30 para fazer uma entrevista, mas pra gente é complicado”.

A dibradora Renata Mendonça aproveitou para citar as dificuldades enfrentadas pelas mulheres ao participar de um processo seletivo na área esportiva. “A maioria dos candidatos são homens, entre 80 e 95% e na hora da avaliação, você precisa ser 150% melhor do que eles. Os avaliadores já partem do pressuposto que o homem entende e vive o esporte, o futebol. Já com a mulher, eles sempre têm um pé atrás”.

A produtora Mariana Rodrigues, da ESPN do Rio de Janeiro, nos contou que sua maior dificuldade no trabalho é a de acompanhar as externas (gravações fora do estúdio). “Por ser mulher e estagiária, já estou em desvantagem. É difícil porque você tem que lidar com assessor que fala do jeito que ele bem entende com você, com jogador que te apresenta como estagiária e não pelo seu nome, mas eu busco me impor e não abrir muito espaço para brincadeiras”, afirmou.

As desconfianças por parte dos homens são tantas a ponto deles acharem “divertido” questionar as mulheres sobre a escalação de um time ou explicar a regra do impedimento. Dessa forma jocosa, eles classificam se você manja ou não de futebol. Quem de nós nunca passou por isso? Chega a ser patético! Mas se a mulher revela que pratica futebol e joga sua pelada com as amigas, o conceito do homem muda um pouco. Ele pode até passar a te respeitar mais (futebolisticamente falando), mas tenha certeza que ele vai te julgar e desconfiar que você “joga no mesmo time” que ele. “É impressionante, mas no jornalismo esportivo ou você dá pra todo mundo ou é lésbica. Só tem essas duas opções”.

A repórter Mayra Siqueira da Rádio CBN, em declaração exclusiva ao dibradoras, enfatizou que a maior parte do preconceito que sofre é por parte da própria imprensa. Mayra realiza algumas externas, mas atua como repórter de campo em grande parte do tempo:

“Sinto muito mais preconceito de colegas de trabalho e de entrevistados do que por parte de torcedores de arquibancada. Gracinhas no estádio a gente ouve sempre, mas é muito triste perceber que seu colega duvida e questiona a maneira como você conseguiu certa informação. O preconceito da própria imprensa com as mulheres que trabalham nesse meio é velado e muito mais forte do que o preconceito que vem das arquibancadas”.

Mayra Siqueira

Camila fez coro à declaração de Mayra e nos contou um caso que, de fato, aconteceu com ela, quando um colega de profissão foi cobrado pelo chefe sobre as informações exclusivas que estava perdendo para Camila e o repórter justificou sua incompetência com a famosa frase “eu não posso usar os mesmos métodos que ela para conseguir informação”. “Quando eu soube disso, rompi relações e não falo de jeito nenhum com ele. Não faz sentido eu ter relação com um cara que usa uma justificativa dessa para ficar bem com a chefia”.

Mariana, a produtora do Rio, viveu na pele e ao vivo o preconceito sem limites que ronda o futebol:

“Eu estava trabalhando numa transmissão de um jogo, buscando jogadores para darem entrevista, ali na beira do campo. De repente, a torcida começou a gritar ‘uh, é gordelícia! uh, é gordelícia’. Eu sou gorda e lido bem com isso, mas fiquei desconcertada e os jogadores no campo também. Me deu vontade de chorar, mas eu estava trabalhando. Fiz um texto relatando a situação para dar voz à esses problemas. Enquanto existirem jornalistas, auditores do TJD, usando esse tipo de discurso, não tem como mudar a opinião pública”. [você pode ler o texto publicado por Mariana clicando aqui].

Mariana declarou que recebeu muito carinho e apoio após o texto publicado. “Foi muito legal. Recebi diversas mensagens de homens e mulheres dizendo que se identificaram e me chamaram de corajosa pelo ato. Mas eu acho que, depois que fiz o relato, me senti melhor por ter desabafado. O retorno foi muito bacana”

mariana_estagiaria (2)

Você pode ouvir o podcast #11 das ~dibradoras no link abaixo:

2 Comments

  1. Meninas, adoro o programa de vocês! Faço jornalismo e também trabalho com jornalismo esportivo num programa da rádio da universidade que estudo. Todos esses comentários que vocês fizeram me contemplam! É muito bom saber que outras mulheres lutam pela igualdade que todas merecemos, tanto no mundo dos esportes quanto nos outros lugares. Boa sorte nesse programa, espero que continue por muito tempo!

    1. Que querida a sua mensagem, Marina! Ficamos muito felizes mesmo de saber que o programa está agregando e gerando identificação. Sabemos que esse é um passo muito importante pra fazer os assuntos que queremos ganharem cada vez mais voz. Muitíssimo obrigada, e muita boa sorte pra você tbm! Um beijo! =)

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