Destaque, Futebol Feminino

Mulheres no esporte: 7 mudanças que gostaríamos de ver em 2017

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Por Juliana Arreguy e Renata Mendonça

Nessa época do ano, sempre ouvimos a Simone nos intimar com aquela fatídica pergunta: “Então é Natal…e o que você fez?”

É verdade que fizemos até que bastante coisa esse ano, que foi todo das mulheres no esporte. Quantas conquistas, quanta esperança de que tempos melhores estão se aproximando. Mas para aproveitar melhor tudo isso, fizemos aqui uma lista de “pedidos de Natal” para o Papai – ou melhor, para a Mamãe, né – Noel com as mudanças que gostaríamos de ver para as mulheres no esporte em 2017.

Daqui para frente, tudo pode ser diferente. Que no ano que vem, possamos responder à pergunta da Simone com grande satisfação: “Fizemos todas essas 7 coisas aí, tá bom ou quer mais?”.


1 – Ver o esporte feminino na TV

Um levantamento feito pela Gênero e Número mostrou que 97% (NOVENTA-E-SETE PORCENTO!) da programação dos canais esportivos se resume a esportes masculinos. Liga a TV, futebol masculino. Jornal esportivo? Futebol, tênis, basquete…mas só sobre eles. Coloca na TV a cabo, e é a mesma história: eles, eles, eles. Mas o que está acontecendo no esporte delas? Quem foi campeã da Copa do Brasil de futebol feminino? Como está o Brasileiro de rugby? E a liga de basquete feminina? Quem são as atletas pra ficar de olho, aquelas para admirar, para inspirar?

Esporte vai ser sempre “coisa de homem” enquanto elas forem excluídas da conversa, ignoradas nas coberturas e relegadas a invisibilidade.

Mamãe Noel, que 2017 possa ser diferente. Que as TVs, os sites, os jornais entendam a importância de dar espaço também ao esporte feminino em suas manchetes. Que entendam que a audiência vai vir aos poucos. Que elas também merecem atenção. E principalmente, que eles entendam o papel essencial que têm para inspirar as novas gerações de atletas que virão por aí. Se milhões de meninos sonham hoje em ser o Neymar, é porque puderam ver seus ~dibres, seus gols, suas jogadas brilhantes na TV. Quantas meninas poderiam sonhar em ser a Marta se elas pudessem ver a genialidade da melhor de todos os tempos mais do que uma vez a cada quatro anos na Olimpíada? Que 2017 venha cheio de ~dibres para elas, em todas as modalidades – e que eles possam ser vistos e admirados na telinha.

2 – Ver mulheres narrando e comentando jogos de futebol nos principais canais esportivos do país.

Glenda Kozlowski fez sua estreia na narração durante a Rio 2016. Na Rede Vida, a jornalista Elaine Trevisan foi outra que teve a oportunidade de atuar como narradora. Juliana Cabral, ex-jogadora, foi comentarista de futebol feminino na ESPN durante a Olimpíada e, vez ou outra, participa da bancada em alguns programas do canal. Sportv e Premiere já anunciaram que terão uma mulher narrando algumas partidas – embora a identidade da profissional ainda não tenha sido revelada. Aos poucos as oportunidades surgem para as mulheres na narração e nos comentários, mas ainda de forma escassa.

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Batemos nesta tecla com frequência. Temos texto e podcast questionando o porquê da mídia nos ignorar. E conhecemos mulheres pra lá de competentes que poderiam ocupar esses espaços. Mayra Siqueira e Ana Thaís Matos, ambas repórteres do rádio, já aparecem com frequência no Seleção Sportv. Por que não ampliar a oportunidade a outras jornalistas da empresa? Por que a ESPN, com Gabriela Moreira dando verdadeiras aulas de jornalismo, não a convida para participar mais do Bate Bola? Na contramão da concorrência, o Esporte Interativo tem Clara Albuquerque como apresentadora e comentarista. E Clara dá um show, demonstrando verdadeiro domínio da Série C à Champions League.

Queremos que em 2017 as mulheres possam ocupar esses espaços sem o caráter de exceção. Que sejam muitas, e cada vez mais, analisando, comentando, reportando e narrando as muitas possibilidades que o esporte nos oferece.

3 – Ver um jogo de despedida da Formiga com uma homenagem – seleção de 1996 x seleção de 2016?

Jogo de despedida é uma tradição quase indiscutível no futebol masculino. Toda pompa e circunstância é reservada ao jogador que fez história por esta ou aquela equipe. As partidas são exibidas na televisão, com direito a tempo real destacado nos principais portais esportivos do país. Ex-companheiros são convidados a jogar, o público comparece aos estádios, a festa é completa.

Mas e quando estamos falando da pessoa que mais vestiu a camisa da Seleção Brasileira na história? Formiga, após 160 atuações pela amarelinha, se aposentou. E sua despedida foi praticamente ignorada pelos maiores veículos brasileiros. Todo o seu esforço pela modalidade foi deixado de lado pela própria CBF, que não planejou mais nada para a jogadora que mais suor derramou sobre o escudo da entidade.

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Por que não desejar que Formiga seja devidamente reverenciada por sua história? Reunir as jogadoras da Seleção Brasileira de 1996, que a lançou nos Jogos Olímpicos de Atlanta, e organizar uma partida contra as atletas da equipe em 2016 – as mesmas com quem Formiga dividiu a busca pelo ouro na Olimpíada disputada em casa. Quantas histórias não sairiam deste embate único na modalidade? Quantas atletas não estaríamos homenageando por intermédio de Miraíldes Maciel Mota? Que organizem um jogo no Pacaembu – ou no Maracanã, por que não? -, e deixem os portões abertos. Deixem que as pessoas demonstrem o agradecimento que nossa ídola tanto merece. Deixem que as meninas de hoje saibam quem é a mulher que tanto se esforçou pelo futebol feminino.

Por favor, Mamãe Noel. Só queremos nos despedir da grande Formiga como ela merece.

4 – Entrevistas com mulheres do esporte – quantas histórias incríveis elas têm que não são exploradas simplesmente porque não damos voz a elas?

Durante a Olimpíada, vimos homens que sequer dão atenção ao futebol feminino dando pitacos e proferindo verdadeiras bobagens sobre a modalidade. Muitos questionaram o tamanho dos campos e do gol, defendendo que suas dimensões deveriam ser menores para se adaptarem ao físico das mulheres. Teses mil foram elaboradas nas mesas redondas da vida, mas em nenhum momento qualquer um deles pensou em questionar a uma jogadora o que ela acha sobre o assunto. Pois é… Premissa tão óbvia no jornalismo sequer passou pela cabeça deles. Por que entrevistar uma mulher sobre modalidades femininas, não é mesmo?

Se o machismo é uma luta diária, no esporte ela é potencializada. Cada atleta tem seus muitos exemplos de superação diante dos descréditos históricos vividos pelas mulheres. Relatos de assédios, pouco ou zero investimento, ofensas e empecilhos são comuns no meio. E, ainda assim, as mulheres conseguem fazer história. Precisamos apenas ouvi-las.

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Nos podcasts que gravamos na Central 3, abrimos espaço toda semana para uma entrevistada. Neste, Fernanda Grande, técnica dos meninos do futsal do Palmeiras esteve conosco.

Em nossos podcasts, procuramos oferecer às mulheres a chance de falarem abertamente sobre esporte. Não queremos dicas de moda, beleza ou comportamento. Não queremos saber se estão solteiras, casadas ou desquitadas. Nosso intuito é conhecê-las como atletas. Como Aida dos Santos, única mulher brasileira na Olimpíada de 1964, que, além do machismo, sofreu também com o racismo. Ou a mesa-tenista Caroline Kumahara, que se iniciou no esporte em outra modalidade: o futsal. Stephanie Figer, agente de futebol, que estuda o esporte com afinco para evitar desconfianças no meio. Ana Paula Oliveira, que foi bandeirinha padrão Fifa mas, infelizmente, ainda é lembrada apenas por ter posado para a Playboy.

Mamãe Noel, queremos de presente mais microfones. Ou amplificadores. Ou apenas aparelhos de surdez para aqueles que não querem nos ouvir. Queremos dar voz a essas mulheres e tantas outras que quiserem falar conosco. Queremos que elas ganhem o mundo.

5 – Diminuir as diferenças de investimento para modalidades femininas e masculinas

Quando o assunto é a falta de investimento em esportes femininos, a discussão sempre acaba caindo na máxima: o esporte delas rende menos lucro, então, consequentemente, terá menos investimento. Mas será que não é justamente a lógica contrária que também beneficia as modalidades masculinas? Eles têm mais investimento e, consequentemente, conseguem atrair mais público, mais patrocínios, mais lucro, afinal.

Ou seja: se invertermos a lógica para o esporte feminino, poderemos explorar um potencial que há muito tempo está perdido, ou sendo aproveitado no limite. O basquete feminino brasileiro, por exemplo, carrega uma crise há anos, sem renovação, sem investimento na seleção que, por conta disso, tem colecionado resultados deprimentes. O rugby feminino, apesar de até ter resultados melhores do que o masculino em nível internacional, recebe bem menos investimento da confederação. O futebol feminino, então, só agora tem recebido alguma atenção da CBF.  A natação feminina também conta com menos incentivos da CBDA em comparação com a masculina – claro que eles colecionam melhores resultados, mas se elas tivessem o mesmo investimento, será que os pódios também não viriam? Poliana Okimoto, bronze na maratona aquática nos Jogos do Rio, e Etiene Medeiros, primeira mulher a conquistar um ouro em  um Campeonato Mundial da modalidade, são a prova de que elas também podem chegar lá.

Por isso, Mamãe Noel, gostaríamos de ver a história começando a mudar em 2017, com as confederações olhando para elas e eles de maneira mais igual e que enxergassem o potencial das mulheres no esporte, assim como veem o dos homens.

6 – Diminuir a diferença de premiações para campeonatos femininos e masculinos

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Em 2016, essa imagem foi emblemática. Natália, eleita melhor jogadora do Grand Prix de vôlei, ganhando o equivalente à metade do prêmio destinado ao sérvio Marki Ivovic, o melhor jogador da Liga Mundial, campeonato masculino equivalente.

A seleção brasileira delas conquistou o título daquela competição, e a premiação dela foi menos da metade da destinada a seleção masculina, que ficou com o vice no torneio.

Mais recentemente, vimos o caso da Libertadores feminina, que paga 0,5% da premiação destinada ao campeão continental masculino às mulheres que conquistarem o título do torneio equivalente, organizado pela mesma entidade, a Conmebol.

Que em 2017 essas diferenças diminuam e caminhem para que um dia elas se anulem e nem existam mais. Que o investimento, o lucro e a premiação gerados e oferecidos para eles e para elas sejam, um dia, igualados. Para que a gente possa chegar à parte mais importante dessa história que é esse último item abaixo.

7 – Acabar com a frase “coisa de menino” e “coisa de menina” para designar qualquer esporte

É 2016, quase 2017, e essas frases ainda são comuns por aí. “Não vai dar uma bola de futebol de presente para ela, isso é coisa de menino”. “Compra esse mini-fogão rosa, é bem de menina esse aqui.” Para os meninos, o esporte, para as meninas, as tarefas da casa.

Que nesse Ano Novo que se aproxima, elas possam gostar de esporte ou de casinha, de futebol ou de boneca, de basquete ou de ballet – e que possam gostar de tudo isso junto e misturado, ao mesmo tempo, sem qualquer objeção.

Que em 2017 elas possam decidir o que querem fazer, onde querem estar, sem que ninguém tente pré-determinar um padrão que há muito já não deveria existir.

E se insistirem, já sabem – elas vão ter que ~dibrar.

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