Futebol Feminino

Mulheres incríveis: 5 histórias de atletas que você precisa conhecer

Nesta semana em que se comemora o DIA INTERNACIONAL DA MULHER, preparamos uma série de matérias especiais para contar e relembrar os feitos de algumas atletas do Brasil. No post de hoje, selecionamos cinco esportistas do passado, que romperam barreiras e abriram espaços para que as futuras gerações pudessem se inspirar em busca de seus objetivos.

Algumas são mais conhecidas do público em geral, outras não ganharam o mesmo destaque, mas nem por isso deixam de ser exemplos de determinação e persistência. É fato que existem inúmeras histórias de valor no esporte, mas o quinteto abaixo – ao nosso ver – representa o pioneirismo e o início da luta das mulheres por espaço e igualdade no esporte brasileiro. Confira: 

MARIA LENK – natação

A história oficial do esporte feminino brasileiro começou com ela. Maria Lenk nasceu em 1915, filha de imigrantes alemães e começou a nadar para curar problemas respiratórios. Nos tempos em que São Paulo era outra, ela treinava nas águas do rio Tietê e fez história se tornando a primeira mulher brasileira a disputar uma Olimpíada, em 1932, nos Jogos de Los Angeles.

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Quatro anos depois, Maria Lenk teve outras companheiras olímpicas brasileiras, mas mais uma vez deixou seu nome marcado: ela nadou a prova dos 200m no estilo borboleta – foi a primeira no mundo a competir com esse nado, que posteriormente se tornou oficial.

E Maria Lenk poderia ter ido além de ser a primeira brasileira a disputar os Jogos – ela poderia ter sido também a primeira medalhista. No auge de sua carreira, em 1939, quando bateu dois recordes mundiais no nado peito, tinha tudo para fazer frente às principais competidoras, mas as edições Olímpicas de 1940 e 1944 foram canceladas por causa da Segunda Guerra Mundial.

De qualquer forma, Maria Lenk é exemplo de paixão pelo esporte. Ela nunca deixou a piscina, até mesmo quando já era bem velhinha, ainda nadava competições masters e chegou até mesmo ao Hall da Fama da natação – a única brasileira a conseguir o feito. Morreu aos 92 anos – e nadou até o fim deles.

AÍDA DOS SANTOS – atletismo

Mulher, negra, pobre e muito guerreira. Assim foi Aída dos Santos, uma das maiores atletas que o país já viu, principalmente por todo o preconceito que teve de enfrentar para representar o Brasil nos Jogos Olímpicos.

Aída foi a ÚNICA mulher da delegação brasileira na Olimpíada de 1964, em Tóquio, viajou sem técnico, sem tênis e sem uniforme, sem nenhum apoio e, mesmo assim, conseguiu um inédito quarto lugar no salto em altura. O resultado foi o melhor das mulheres brasileiras nos Jogos até Jacqueline e Sandra conseguirem a medalha de ouro em 1996 no vôlei de praia.

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De origem muito humilde em Niterói (RJ), Aída teve que enfrentar até mesmo o pai, que não apoiava sua dedicação ao atletismo e dizia que “pobre tinha que ganhar a vida” e que “aquilo não lhe dava dinheiro”.

Mas foram justamente as dificuldades que a tornaram mais forte. Em 1964, teve de implorar à fornecedora de material esportivo que lhe desse a sapatilha para competir, chegou a disputar a eliminatória com o pé torcido e não recebeu nenhuma ajuda – foi atendida por um médico da delegação cubana. E depois de sua conquista histórica, às vésperas dos Jogos de 1972, foi cortada da seleção justamente por ter feito críticas à falta de apoio do comitê olímpico.

“Todo mundo falava que eu não ia conseguir. O que eles não sabiam é que esse tipo de comentário me engrandece. Tive essa conquista sem técnico e, na volta ao Brasil, tinha até Corpo de Bombeiros me esperando. Mas o apoio que precisei muito antes disso, não me deram. Por isso, dispensei a festança”, disse a guerreira ao jornal O Globo.

Hoje ela tem 79 anos, é mãe da jogadora de vôlei Valeskinha, e tem um instituto para promover a inclusão social por meio do atletismo e também do vôlei.

LUISA PARENTE – ginástica

Muito antes de Daniele Hypólito e Daiane dos Santos darem suas piruetas, uma outra mulher levou a ginástica a ser um esporte conhecido no Brasil ainda na década de 1980. Luisa Parente foi a primeira ginasta brasileira a disputar duas edições olímpicas e conseguiu conquistas históricas ao longo da carreira.

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Ela começou a treinar ginástica no Flamengo e disputou sua primeira Olimpíada em 1988, em Seul – e logo na estreia, sendo a única ginasta brasileira nos Jogos, conseguiu chegar às finais. Três anos depois, no Pan-Americano de Havana, ela obteve um resultado que até hoje não foi repetido: foram dois ouros, um no salto e outro nas barras assimétricas. Tudo isso treinando sem estrutura nenhuma, com tablados bem diferentes daqueles das competições internacionais e olímpicas.

“Me sinto parte das novas conquistas da ginástica brasileira. Fico orgulhosa pelo que construí. Foi muito sacrifício, mas valeu a pena.”

ANA MOSER – vôlei

Uma mulher de fibra. Assim foi Ana Moser dentro de quadra e assim ela é fora, comandando o Instituto Educação&Esporte, a ONG Atletas pelo Brasil e atuando de maneira muito forte na política com o objetivo de promover o esporte para todos.

Ana foi uma jogadora de vôlei sem igual. Vê-la em quadra era algo inspirador. Sua força de vontade, a garra, a precisão dos ataques, tudo isso a levou a ser uma das melhores que o esporte já viu – com direito inclusive a um lugar no Hall da Fama do vôlei.

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Mas não era só na quadra que ela era diferenciada. Fora dali, brigava por seus direitos e para que o time feminino fosse tratado com o mesmo respeito que o masculino – e por conta disso, viu muita cara feia de dirigente. “Minha sorte é que eu jogava bem, porque se não eu acho que teria tido outro destino”, disse Ana Moser às ~dibradoras em 2015.

“Eu fiz parte da primeira geração feminina que conquistou medalha. Primeiro título do volei é o nosso mundial juvenil de 1985. Mas o masculino fazia qualquer coisa, valia um milhão, a gente tinha que fazer muita coisa. A gente lutou muito contra isso, tivemos que fazer valer o nosso valor.”

E fizeram mesmo. Foram bronze em 1996, em Atlanta, e abriram caminho para o bicampeonato olímpico, que veio depois em 2008 e 2012. E ela foi tão guerreira, que passou por quatro cirurgias nos joelhos, descobriu uma artrose crônica aos 26 anos, mas nunca desanimou e deixou seu nome marcado na história do vôlei mundial.

Hoje, ela lidera um movimento de atletas e ex-atletas que lutam por mudança na realidade do esporte brasileiro e vira e mexe vai a Brasília para debater o tão sonhado Plano Nacional do Esporte, o primeiro passo para conseguir ver seu sonho de ter “esporte para todos” virar realidade.

“Diziam que as mulheres não tinham força de vontade e tinham medo na hora das decisões. Então a nossa geração teve o mérito de mudar essa realidade, mostrar que as mulheres também são capazes no esporte. Depois das conquistas da nossa geração, essa cobrança diminuiu bastante.”

EDINANCI SILVA – judô

A judoca Edinanci Silva fez história no judô conquistando medalhas em Mundiais e Pan-Americanos, mas teve seu nome marcado por uma polêmica: o chamado teste de feminilidade.

Chega a ser absurdo pensar que uma mulher precisa passar por um “teste” para comprovar seu gênero – algo que jamais pode ser cogitado no universo masculino (já imaginou um homem se submetendo a um teste de masculinidade nos Jogos Olímpicos?).

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O teste de feminilidade virou exigência na Olimpíada do México, em 1968, e permaneceu uma realidade até os Jogos de 2000, em Sidney. Todas as mulheres tinham que passar por ele. Mas o problema é que, quando Edinanci conseguiu a classificação para os Jogos de 1996, percebeu-se que ela poderia ser reprovada.

Daí em diante, a judoca de apenas 19 anos teve de passar por intervenção cirúrgica e inúmeros outros testes – além de ter tido sua privacidade invadida por veículos de imprensa e ter sido alvo de piadas e gozações – para poder disputar os Jogos.

Edinanci disputou quatro edições olímpicas e conquistou o quinto lugar nos Jogos de Pequim, além de duas medalhas de bronze em Mundiais, e dois ouros em Pan-Americanos (o último no Pan do Rio, em 2007). Mas sua história sempre foi tratada pela imprensa com desconfianças sobre seu gênero, sua sexualidade, sua capacidade.

 

*Agradecimentos especiais à Mariana Lajolo, do Esporte Final, que foi nossa consultora nessa reportagem

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