Basquete

A mulher que tenta resgatar o basquete feminino na nova gestão ‘masculina’ da CBB

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*Por Olga Bagatini

De olho em uma vaga no Mundial da Espanha em 2018, a seleção feminina de basquete iniciou a disputa da Copa América em Buenos Aires, na Argentina. O time comandado por Carlos Lima não mostrou um desempenho convincente, mas venceu as duas primeiras partidas, contra Venezuela e Colômbia – e enfrenta as Ilhas Virgens nesta quarta-feira. Início promissor, levando em conta os desfalques de Clarissa, Damiris e Érika, que disputam a WNBA, e todas as outras atribulações enfrentadas pelo basquete feminino brasileiro nos últimos tempos.

A começar pela longa ausência das quadras. A equipe não atuava desde novembro, quando a Federação Internacional de Basquete (Fiba) suspendeu a Confederação Brasileira (CBB) por conta das dívidas e problemas ocorridos no mandato de Carlos Nunes. A punição não apenas tirou as equipes e seleções brasileiras dos torneios internacionais, como impediu que a CBB recebesse verbas públicas vindas do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e do Ministério do Esporte, e afastou os patrocinadores.

As brasileiras foram tão ignoradas pelas gestões anteriores da CBB que a própria Fiba exigiu que a entidade desse atenção especial aos times femininos como uma das condições para o fim da punição. Se antes o basquete verde e amarelo era sinônimo de vitória e colecionou conquistas importantes, como o título mundial de 1994 comandado por Paula e Hortência, a prata olímpica em 1996 e o bronze em 2000, nos últimos anos passou a ser um time sem prestígio e incapaz de alcançar resultados expressivos. Foi assim no Mundial de 2014, quando terminou em 11º lugar, e nas últimas três edições da Olimpíada, quando a seleção feminina sequer passou da primeira fase.

Falta de investimento na base e de intercâmbio na formação de novas atletas, tratamento desigual em relação ao masculino, descaso da CBB e uma liga nacional fraca são alguns dos fatores que levaram o basquete feminino ao fundo do poço. Para se ter uma ideia, o Corinthians/Americana – atual campeão da Liga de Basquete Feminino (LBF) – perdeu apoio, patrocínio e precisou mudar de cidade semanas após conquistar seu quarto título nacional. Se um time pronto, que dá resultado, não é mantido, qual a esperança para aqueles que ainda estão amadurecendo e demandam tempo e recursos?

O Brasil só conseguiu por fim à punição da Fiba graças ao trabalho da nova gestão da Confederação Brasileira de Basquete, comandada por Guy Peixoto. Eleito em março, o ex-atleta assumiu a presidência com a missão de levar transparência à entidade, fazer as seleções voltarem a ter resultados e recuperar o prestígio do basquete no País. Embora a CBB alegue que a seleção feminina teve a mesma estrutura e tempo de preparação para a Copa América que terá a masculina – que disputará o torneio no fim do mês -, chamou a atenção das ~dibradoras um detalhe sobre essa nova direção: nenhuma mulher foi convidada para a chapa – mesmo diante da maior crise que o basquete feminino já viveu.

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Nova gestão do basquete brasileiro. Magic Paula fez uma crítica à composição dela em sua página do Facebook: Será que a comunidade do basquete um dia aprenderá? Seguimos com o mesmo discurso e as mesmas ações do passado. Nesta foto, o conselho consultivo é composto somente pelo gênero masculino, e dos 10 membros indicados pelo presidente Guy, 8 são presidentes que votaram nele.”

Guy e sua equipe – que conta com ex-basqueteiros ilustres, como Wlamir Marques e Marcel -, passaram os últimos meses fazendo planos para o esporte brasileiro sem receber nem um tostão. O mandatário chegou a tirar dinheiro do próprio bolso diante dos problemas financeiros da CBB, e a ideia de chamar ídolos da modalidade – tão apaixonados pelo esporte quanto ele – é a estratégia para trazer de volta a credibilidade da entidade. No dia em que foi eleito, Guy afirmou:

“Na semana passada, enxerguei uma medalha de ouro olímpica de 2024 no peito de um garoto. Essa é a nossa missão. Nosso basquete não poderia ter saído do lugar que saiu.”

Em teoria, o plano de Guy é louvável, mas a afirmação fez a gente se perguntar: e os planos para as seleções femininas, da base à adulta? Os planos diante das exigências da Fiba de dar atenção especial ao feminino? Afinal, quando será a vez das meninas terem uma medalha de ouro olímpica no peito? E, mais importante, há mulheres na gestão que pretende revolucionar o basquete brasileiro?

A resposta, por enquanto, é não. A ex-jogadora Adriana Santos atualmente coordena a seleção feminina, mas sua função é cuidar da logística em treinos e torneios. Ela não influencia nas decisões da diretoria. No entanto, Guy conta com algumas ex-atletas entre aqueles que chama de seus “conselheiros notáveis”. É o caso de Karine Gomes Ribeiro. A ex-jogadora e treinadora foi presidente da Federação Matogrossense de Basketball (FMTB) por cinco anos. Ela deixou o cargo em abril deste ano, após encerrar o mandato, mas fez muito pelo esporte local e é uma das responsáveis por propor soluções para o basquete feminino.

“Eu era a única presidente de federação mulher quando surgiu a ideia de montar uma chapa para mudar o cenário do basquete. O trabalho no Mato Grosso não era fácil, peguei uma federação totalmente estraçalhada técnica e financeiramente. A gente que tinha que se virar para mudar as coisas”, afirmou às dibradoras.

“Eu sou advogada, tenho minha empresa e minha família, então tinha que conciliar tudo. Mesmo assim pegava meu carro e viajava pelo interior do Mato Grosso para promover as competições e atrair pessoas para o esporte. Isso sem ganhar nem um real. Ano passado, a única coisa que a federação recebeu foram seis bolas.”

Apesar das dificuldades, o trabalho de Karine rendeu frutos. Ela conseguiu fomentar a base do sub-13 ao sub-19 no Mato Grosso e executou um calendário com 24 torneios por ano, algo inédito no Brasil. A experiência fez a dirigente receber um convite de Guy Peixoto para ajudar na nova gestão da CBB. Karine passou a acompanhar de perto o cenário da modalidade. Teve acesso às contas da gestão anterior e viu com os próprios olhos os problemas e a discrepância entre o investimento no masculino e no feminino.

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Karine Gomes, a mulher que tenta ser a voz do basquete feminino na CBB

“Houve falhas, faltas graves. As contas foram reprovadas. O feminino sempre foi deixado de lado, mesmo tendo condições e material humano para disputar finais. Ficava atrás por falta de investimento, incentivo e amparo da CBB. Sei que isso ocorre em várias modalidades, mas no basquete posso falar com certeza porque vi o balanço”, pontuou.

“Além disso, quando falamos em basquete feminino, só vemos o adulto, não há foco na base. São muitos os problemas para colher novas atletas, tanto pelas questões sociais que não incentivam mulheres a jogarem, quanto pela falta de recursos das entidades que sequer conseguem bancar o transporte das jovens nas competições”, acrescentou.

Para Karine, o buraco é mais embaixo. Ela acredita que a mudança no tratamento à seleção feminina passa, inicialmente, pela quebra do paradigma social que esporte não é “lugar para mulher”. Sua gestão no Mato Grosso buscou difundir o esporte desde cedo, preocupando-se mais em atrair mulheres para a modalidade do que fazer delas atletas profissionais, já que um é consequência do outro. Ou seja, incentivar brasileiras de todas as idades a jogarem basquete.

“Há muitos problemas no feminino, da base à seleção, porque é diferente propagar esporte para homens e para mulheres. Há uma convenção de que a mulher foi criada para determinadas situações que não a prática esportiva. O pensamento clássico de que mulher é para balé”, observou.

“O caminho é pensar em como atrair e manter essas meninas em quadra, para fazer uma produção esportiva equivalente à dos homens. Pensar na parte lúdica para que elas comecem a jogar mais cedo, para termos safras mais precoces e colhermos os frutos daqui a algum tempo. Os Estados Unidos, por exemplo, buscam crianças nas escolas e garantem bolsas na universidade para que joguem.”

“Já no adulto, é preciso manter atletas em quadra e dar treinos de rendimento, porque é mais difícil manter uma mulher jogando. Não é algo visto com naturalidade. Mulheres atingem a fase adulta, viram mães e param de jogar. Fiz eventos estaduais no adulto que tive 24 times inscritos no masculino e apenas seis no feminino. Esse diagnóstico reflete como a sociedade vê o que é o lazer da mulher, a vida da mulher. É comum um homem largar o filho em casa para praticar esporte, mas a mãe, é mais raro. Então, é preciso uma mudança de comportamento.

Um dos caminhos apontados por Karine é alertar o governo para a criação de políticas públicas que contemplem investimentos e a construção de centros esportivos que acolham toda a família, para que marido e filhos não pensem que lugar da mãe é “em casa, fazendo almoço e crochê”. Ela levou todos esses pontos à nova gestão da CBB e diz que as ideias foram bem recebidas por Guy Peixoto e companhia.

“Colocamos tudo isso em reunião. Acho que meu papel é exatamente esse, dar voz para o feminino, estudar com humildade e aprofundamento cada um desses problemas, desde o treino inicial, à mudança de mentalidade e a permanência de mulheres em quadra. E não adianta ficar só nos grandes centros, tem que fazer isso em âmbito nacional. Criar possibilidades, pensar no futuro, e temos muitos projetos para isso. Acredito nas mudanças”, projetou Karine.

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Apresentação da seleção feminina antes da Copa América

Sobre a ausência de mulheres na chapa diretiva da CBB agora, Karine pontuou que isso é reflexo da própria ausência da mulher no esporte como um todo.

“Eu era a única presidente de federação do Brasil. É reflexo disso, é reflexo da nossa pouca participação. Difícil conceber como se fosse uma questão de pormenorização ou desvalorização. É um espaço que a gente ainda não conseguiu ocupar, não estamos inseridas. Existe preconceito. Quando eu chegava para uma reunião, muitas vezes me perguntavam se eu estava representando alguém. É uma questão cultural também“, disse.

Segundo Karine, há mudanças em vista. Uma nova Assembleia da CBB foi marcada para o dia 17 de agosto, e uma das questões a serem discutidas é uma mudança no Estatudo que permita às atletas e técnicas mulheres votarem e terem voz mais ativa nos assuntos relacionados à entidade. Por enquanto, só podem votar os presidentes de federação – todos homens desde saída de Karine – e o presidente da Associação dos Atletas Profissionais de Basquetebol, Guilherme Giovannoni.

“Será discutida a alteração do Estatuto para que atletas e técnicas possam votar. Mas estamos pisando em ovos. Minha vida como atleta foi difícil, faltava apoio, mas era muito mais fácil conseguir apoio sozinha para um evento ou teste do que mobilizar 70 crianças para a realização de um campeonato. Não é estático que só tenha uma mulher dentro da CBB, e, se as mudanças forem aprovadas, as técnicas e atletas mulheres terão um papel mais ativo para fazer as mudanças necessárias”, completou a conselheira.

Quem sabe, se essas medidas forem postas em prática, as mulheres do basquete brasileiro também possam sonhar com um ouro olímpico nos próximos anos.

As ~dibradoras ainda tentaram contatar a ex-jogadora Magic Paula sobre as mudanças na CBB e a falta de mulheres na gestão, mas ela preferiu não comentar o assunto. Tentamos também ouvir o presidente da confederação, Guy Peixoto, mas ele está em viagem com a seleção na Copa América e disse que poderia falar após a competição.

2 Comments

  1. Mais uma vez parabéns às ~dibradoras! Carecemos de um acompanhamento e cobertura melhores pro basquete feminino. Tive a oportunidade de conhecer a Olga em uma atividade no SESC Consolação e ela estava no meio do processo para de acúmulo de conteúdos e informações para iniciar a coluna. Parabéns pela qualidade das informações apresentadas, certamente ajudará mais e mais gente a se engajar nessa luta pela reconstrução do nosso basquete tão vitorioso. Estarei sempre acompanhando por aqui! Vocês são “maravijosas”! :*

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