Futebol Feminino

Movidas por um sonho: como as mulheres do Araguari enfrentaram a proibição do futebol feminino

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*Por Juliana Arreguy

Era de se esperar que uma das histórias de pioneirismo do futebol feminino no Brasil fosse conhecida por todos. Infelizmente, não é. Refiro-me à equipe feminina do Araguari, organizada em 1958 e que viveu pouco menos de um ano. Não digo que o caso seja o único que ocorreu durante o período de proibição do futebol feminino no Brasil (1941-1979), mas é um dos poucos de que se tem registro.

Localizada em Minas Gerais, na região do Triângulo Mineiro, Araguari foi palco de um movimento muito atípico para a época. Ney Montes, então diretor do clube de futebol Araguari, recebeu um pedido do Grupo Escolar Vicente de Ouro Preto para que organizasse um jogo beneficente para ajudar a escola pública, que passava por dificuldades. A renda da partida também seria aproveitada em uma festa de Natal. O diretor sabia que o dinheiro de uma partida normal não seria o suficiente, então pensou em uma opção fora da curva para a época: e se o Araguari organizasse uma partida entre mulheres?

Uma peneira para selecionar as meninas foi anunciada pela rádio local, na qual Ney Montes era locutor. O sucesso foi tanto que mais de 40 garotas compareceram – algumas delas escondidas de familiares. As selecionadas só puderam participar da equipe com autorização dos responsáveis. A primeira partida ocorreu em 19 de dezembro de 1958. Sem ter outra equipe feminina disponível, Montes montou times A e B com as escolhidas.

O sucesso foi tamanho que rendeu ao Araguari convites para atuar em jogos contra equipes masculinas em outras cidades mineiras, na capital, Belo Horizonte, e em Goiânia e Salvador. A popularidade do time foi tão longe que alcançou a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), entidade máxima do esporte nacional na época. Bastou que a CBD mostrasse o Decreto-Lei 3199 para que o Araguari fechasse as portas.

Chateado com o fim do time feminino, Ney Montes nunca mais tocou no assunto. Nem mesmo para a própria filha, que nasceu depois do episódio e nunca tinha tomado conhecimento da existência do Araguari até 1999. Qual não foi a surpresa de Teresa Cristina Cunha quando, em conversa com o pai já doente, começou a ouvir os “causos” da equipe.

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“Eu sabia que ele tinha sido jogador do Araguari e ajudado a fundar o clube”, contou Teresa a esta coluna. “Para mim, foi uma surpresa. Eu perguntei a ele por que nunca me contou, e ele disse que tinha ficado muito chateado quando (o time) chegou ao fim. Não tinha como aquilo ir para a frente de novo, então não achava sentido em falar nisso. Mas não jogou nenhum registro fora, deixou tudo guardadinho”, continuou.

Teresa começou a pesquisar o material guardado pelo pai com informações sobre a equipe: os jornais, matérias especiais, coleção da revista Cruzeiro. Também visitou acervos locais, gravou depoimentos do pai e iniciou uma busca pelas jogadoras da época. Montes tinha o sonho de reunir as meninas mais uma vez, mas morreu em 2004 e não chegou a concretizar o desejo.

Tendo como promessa reunir novamente as jogadoras e divulgar a história do Araguari, Teresa continuou em sua empreitada até alcançar o feito em 2008 (o reencontro foi tema de matéria do Esporte Espetacular).

Apesar dos anos que se passaram, as jogadoras ainda são chamadas por Teresa de “meninas”. É com orgulho que ela conta como o pai fez questão de treiná-las como no masculino, fugindo dos espetáculos de vedetes e outras exibições sexualizadas de mulheres que ocorriam na época, “Meu pai nunca deixou que colocassem as meninas como símbolo de beleza. Ele sempre as preservou e brigava por elas”, conta.

“Ele não deixava outros caras se engraçarem para cima delas, ficava vigiando. O respeito vinha acima de tudo.”

“Sou do mundo, sou Minas Gerais”

A música “Para Lennon e McCartney” só foi escrita ao fim da década de 60, anos depois do fim do Araguari. Mas sua letra resume como o futebol ampliou fronteiras para as meninas, que passaram a viajar com frequência para jogar bola. “Imagine só: uma garota de 16 anos que nunca tinha saído nem de Araguari ir para Salvador? Nunca tinham visto o mar. Para elas, era tudo festa, tudo mil maravilhas. E a maioria ali não tinha boa condição financeira para fazer uma viagem dessas.”

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A vida de jogadora de futebol também apresentou seus obstáculos. Embora Ney Montes só aprovasse em seu time garotas que tivessem autorização dos pais, muitas vezes o preconceito vinha de fora. “Algumas estudavam em colégio de freiras e as freiras não aceitavam isso. Não era coisa de mulher. Uma delas, inclusive, disse que o pai dela autorizou que ela escolhesse outra escola para continuar com o futebol”, relata Teresa.

“Elas foram barradas em Tupaciguara-MG. Um grupinho ligado à igreja disse que se elas aparecessem por lá o ônibus delas seria queimado.”

Uma das situações mais extremas de preconceito eliminou a oportunidade do Araguari de atuar no exterior. A equipe recebeu uma proposta para jogar alguns amistosos no México, onde o futebol feminino já era liberado. “Meu pai era diretor, marqueteiro, secretário, ele era tudo, quase um relações públicas. Ele tinha entrado em contato com o México, conseguiu passagem aérea, estadia, alimentação. Sempre que fechava uma viagem, era para irem com tudo pago, porque elas não recebiam salário”, explica Teresa.

“Mas aí veio a nossa querida CBD…”, resume, triste, o desfecho da aventura.

“Quando meu pai começou com a equipe, foram uns oito, nove meses de atividade, e ninguém mandava a lei ou falava dela. Mas, realmente, a confederação começou a ficar incomodada porque não tinha como controlar”, aponta. “A CBD queria saber dos lucros, e os jogos eram, na maioria, beneficentes. A renda era revertida para alguma entidade, para ajudar em alguma causa. Aquilo incomodava e, antes que isso fosse adiante, eles desengavetaram a lei e a colocaram novamente em uso.”

Sem o apoio da confederação, Ney Montes viu frustrado o fim do sonho de profissionalizar as garotas que tanto se empenhou em treinar. Às meninas, restaram as lembranças adolescentes de uma aventura. Retomaram suas vidas, encontraram novos afazeres e formaram famílias.

Para Teresa Cristina Cunha, no entanto, a descoberta do futebol feminino em Araguari não passaria em branco.

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A história do Araguari ainda é vasta, apesar de ter sido curta. Para não perder a oportunidade de explorá-la como merece, dividi os casos sobre o time em textos distintos que serão publicados nesta coluna. Os próximos relatam o reconhecimento e as homenagens que as “meninas” receberam após tantos anos.

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